19 março 2007

Inteiro

Uma só palavra
bem soletrada
bem rolada

entre a língua
os dentes,
o som da voz
bem modelada
bem espalhada
como sementes
como restos esmagados
de nós.

Uma só palavra
que sintetize o poder
de ser inteiro.


(pintura de Ogambi: Women's Burden 3)

Adormecer

A raiva esfuma-se pelo peso que encolhe, pelo peso que abate, pelo peso que impede. Não querer saber, o mundo fica melhor sem os poucos loucos que um dia pensaram nos caminhos a direito.

A raiva transforma-se em rugas e olhares vazios, em encolher de ombros e mudanças de assunto, em sorrisos fátuos e palavras de circunstância,

A raiva é substituída por uma tal sensação de exaustão física, que daremos tudo para adormecer.

18 março 2007

Dentro da vida

Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer

(poema de Gastão Cruz; pintura de Tom Lieber: sem título)

17 março 2007

Nadir Afonso

Nadir Afonso é um pintor único, pelas formas, pelas cores, pela geometria, pelo urbanismo, pelo rigor do traço e do pincel, pela sua figura longilínea, ossuda, com dedos de pincel e olhos escavados e abstractos.

Nadir Afonso é um pintor único pela juventude perpétua, pelo olhar rejuvenescido e vibrante que nos devolve, pela dimensão das suas telas e da sua energia.

Na Galeria António Prates, até 18 de Abril, obras recentes (acrílicos, guaches) da 1ª década do séc. XXI, como ele diz; na galeria de arte do Casino Estoril, desde 9 deste mês, uma retrospectiva da obra, incluindo serigrafias, acrílicos e guaches, das diferentes fases do pintor (do figurativo ao abstracto).


(pintura de Nadir Afonso: Vera Cruz – 1ª décado do séc. XXI)

Tragicomédia palaciana

O balanço destes dois anos de governo de Sócrates tem-se limitado, quase em exclusivo, à exaltação da figura do primeiro-ministro, efectuada pelos seus defensores, ou à depreciação do mesmo, feita pelos seus opositores.

A análise de um governo não se pode limitar ao estudo da personalidade do primeiro-ministro, que vários jornais escalpelizaram até ao ridículo, como se construíssem um herói ou um vilão de plástico, tão ao gosto das formas cada vez mais americanizadas de vender figuras públicas.

Não há debate dos verdadeiros problemas sociais, políticos e económicos com que nos defrontamos. A impressão que fica é que ou não há alternativas às decisões da governação, e por isso se escolhem a personalidade, os tiques autoritários, a inspirada predestinação e o jogging de Sócrates, para louvar ou para ridicularizar, ou que não há alternativas aos protagonistas do governo e da oposição, pelo divórcio cada vez maior entre pessoas com qualidade e vontade de assumir cargos políticos e esses mesmos cargos.

Após a maioria absoluta, mais por inexistência de alternativas, protagonizadas por Santana Lopes e Paulo Portas, escreveram-se dezenas se não centenas de páginas, vindas de todos os quadrantes políticos, desfiando os horrores da nossa economia, saúde, segurança social, educação e justiça, só para lembrar os mais citados, encheram-se horas de televisão e rádio a prever cataclismos e catástrofes relativamente à extensão e desgoverno do estado, ao peso dos impostos, à ineficácia da máquina fiscal, ao elevado número de incomensuráveis sacrifícios que seriam pedidos aos portugueses, perante a abundância de perigosas tarefas.

Durante estes dois anos o governo foi acusado de nada fazer, de não ouvir a rua quando pretendia fazer qualquer coisa, de recuar se dialogava com quem protestava. Foi acusado de afrontar as corporações, apenas por populismo e acusado de recuar nas (pseudo) reformas por oportunismo pré eleitoral.

Mas alguém, seriamente, estava à espera que, em dois anos, estivéssemos a crescer ao mesmo ritmo europeu, reduzíssemos o desemprego e o peso do estado, reformássemos a administração pública, a educação, a saúde e a justiça? Mas alguém estava à espera que se tentassem algumas reformas sem reacções sociais, sindicais, profissionais, corporativas, das autarquias?

Talvez fosse preferível procurar-se verdadeira oposição e debate político, fora e dentro do PS, séria, credível, empenhada, que deixe de glosar as qualidades e os defeitos de Sócrates e que proponha alternativas às políticas e às decisões governamentais. Mas, infelizmente, pelos opositores externos e pela falta de opositores internos, continuaremos neste faz-de-conta, com grandes indignações de um lado, grandes orgulhos e satisfações por outro, quaisquer deles sem acordar a modorra do cidadão comum, que vai vivendo a sua vidinha, apesar da tragicomédia palaciana.

Representação e fiscalização democrática

Muito de tem discutido a relação entre os eleitos e quem os elege, nas nossas democracias, realçando o papel crescente dos media e do marketing político, associado ao uso das novas tecnologias de informação, nomeadamente a Internet.

Vem isto a propósito dos diversos balanços dos dois anos de actividade do governo, da cooperação entre presidente e governo, da eventual concentração de poderes no primeiro-ministro, no culto da personalidade deste, do controlo dos meios de comunicação clássicos (jornais e televisões), da falta de discussão e de fiscalização política pela oposição, pelo próprio partido da maioria e pelo parlamento, que cada vez mais se esvazia de sentido e de importância.

O aparecimento dos governantes na televisão, propagandeando e explicando medidas, e agora a constituição de um blogue pelo ministro António Costa, com o objectivo de responder às críticas e aos seus detractores, principalmente na Internet, levanta questões muito interessantes.

Será isto um aperfeiçoamento da democracia directa, em que os responsáveis políticos estão em contacto com os seus eleitores, sem intermediários? Mas quem são os interlocutores internáuticos? Será que há livre acesso a este meio de comunicação, estando todos os cidadãos em igualdade na oportunidade da sua utilização?

Qual o papel do parlamento e dos seus deputados eleitos, que cada vez são mais subalternizados pelo governo, tenha ou não maioria absoluta? Os partidos que apoiam a maioria parlamentar não são mais que a caixa de ressonância do governo; os partidos de oposição, por falta de mecanismos que lhes dêem relevância, por total aridez ideológica e por total carência de líderes apenas servem o teatro das discussões que, num arremedo de transparência, se mostra no Canal Parlamento, aparentando uma triste inutilidade aos olhos dos cidadãos.

O papel da Internet irá, muito provavelmente, revolucionar a informação, a relação entre os vários poderes e entre os cidadãos e os poderes, porque a ela têm acesso muitas pessoas anónimas, mesmo que não pertençam a grupos de pressão. Mas é um universo totalmente enviesado porque não estão criadas (ainda?) as condições de livre e igual oportunidade de acesso e utilização deste poderosíssimo meio de informação.

Por outro lado, como ficarão os métodos tradicionais de eleições para as instituições, de separação e de fiscalização de poderes, quando mantemos modelos de organização democrática que podem estar a ser subtilmente subvertidos, incluindo, e na prática, o próprio conceito de democracia representativa?

15 março 2007

Margens de gelo

Apenas gestos replicados
momentos já esquecidos
mantêm olhos focados
em restos de nervos tecidos.

Rigorosos ritmos cessantes
de pausas sequenciais
nos intervalos constantes
ausentes de rituais,

movem pedras navios
enrolam dedos ternuras
no fundo agreste dos rios
margens de gelo fervuras.


(aguarela de Michael Wrigglesworth: River Ouse at Olney I)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...