17 março 2007

Tragicomédia palaciana

O balanço destes dois anos de governo de Sócrates tem-se limitado, quase em exclusivo, à exaltação da figura do primeiro-ministro, efectuada pelos seus defensores, ou à depreciação do mesmo, feita pelos seus opositores.

A análise de um governo não se pode limitar ao estudo da personalidade do primeiro-ministro, que vários jornais escalpelizaram até ao ridículo, como se construíssem um herói ou um vilão de plástico, tão ao gosto das formas cada vez mais americanizadas de vender figuras públicas.

Não há debate dos verdadeiros problemas sociais, políticos e económicos com que nos defrontamos. A impressão que fica é que ou não há alternativas às decisões da governação, e por isso se escolhem a personalidade, os tiques autoritários, a inspirada predestinação e o jogging de Sócrates, para louvar ou para ridicularizar, ou que não há alternativas aos protagonistas do governo e da oposição, pelo divórcio cada vez maior entre pessoas com qualidade e vontade de assumir cargos políticos e esses mesmos cargos.

Após a maioria absoluta, mais por inexistência de alternativas, protagonizadas por Santana Lopes e Paulo Portas, escreveram-se dezenas se não centenas de páginas, vindas de todos os quadrantes políticos, desfiando os horrores da nossa economia, saúde, segurança social, educação e justiça, só para lembrar os mais citados, encheram-se horas de televisão e rádio a prever cataclismos e catástrofes relativamente à extensão e desgoverno do estado, ao peso dos impostos, à ineficácia da máquina fiscal, ao elevado número de incomensuráveis sacrifícios que seriam pedidos aos portugueses, perante a abundância de perigosas tarefas.

Durante estes dois anos o governo foi acusado de nada fazer, de não ouvir a rua quando pretendia fazer qualquer coisa, de recuar se dialogava com quem protestava. Foi acusado de afrontar as corporações, apenas por populismo e acusado de recuar nas (pseudo) reformas por oportunismo pré eleitoral.

Mas alguém, seriamente, estava à espera que, em dois anos, estivéssemos a crescer ao mesmo ritmo europeu, reduzíssemos o desemprego e o peso do estado, reformássemos a administração pública, a educação, a saúde e a justiça? Mas alguém estava à espera que se tentassem algumas reformas sem reacções sociais, sindicais, profissionais, corporativas, das autarquias?

Talvez fosse preferível procurar-se verdadeira oposição e debate político, fora e dentro do PS, séria, credível, empenhada, que deixe de glosar as qualidades e os defeitos de Sócrates e que proponha alternativas às políticas e às decisões governamentais. Mas, infelizmente, pelos opositores externos e pela falta de opositores internos, continuaremos neste faz-de-conta, com grandes indignações de um lado, grandes orgulhos e satisfações por outro, quaisquer deles sem acordar a modorra do cidadão comum, que vai vivendo a sua vidinha, apesar da tragicomédia palaciana.

Representação e fiscalização democrática

Muito de tem discutido a relação entre os eleitos e quem os elege, nas nossas democracias, realçando o papel crescente dos media e do marketing político, associado ao uso das novas tecnologias de informação, nomeadamente a Internet.

Vem isto a propósito dos diversos balanços dos dois anos de actividade do governo, da cooperação entre presidente e governo, da eventual concentração de poderes no primeiro-ministro, no culto da personalidade deste, do controlo dos meios de comunicação clássicos (jornais e televisões), da falta de discussão e de fiscalização política pela oposição, pelo próprio partido da maioria e pelo parlamento, que cada vez mais se esvazia de sentido e de importância.

O aparecimento dos governantes na televisão, propagandeando e explicando medidas, e agora a constituição de um blogue pelo ministro António Costa, com o objectivo de responder às críticas e aos seus detractores, principalmente na Internet, levanta questões muito interessantes.

Será isto um aperfeiçoamento da democracia directa, em que os responsáveis políticos estão em contacto com os seus eleitores, sem intermediários? Mas quem são os interlocutores internáuticos? Será que há livre acesso a este meio de comunicação, estando todos os cidadãos em igualdade na oportunidade da sua utilização?

Qual o papel do parlamento e dos seus deputados eleitos, que cada vez são mais subalternizados pelo governo, tenha ou não maioria absoluta? Os partidos que apoiam a maioria parlamentar não são mais que a caixa de ressonância do governo; os partidos de oposição, por falta de mecanismos que lhes dêem relevância, por total aridez ideológica e por total carência de líderes apenas servem o teatro das discussões que, num arremedo de transparência, se mostra no Canal Parlamento, aparentando uma triste inutilidade aos olhos dos cidadãos.

O papel da Internet irá, muito provavelmente, revolucionar a informação, a relação entre os vários poderes e entre os cidadãos e os poderes, porque a ela têm acesso muitas pessoas anónimas, mesmo que não pertençam a grupos de pressão. Mas é um universo totalmente enviesado porque não estão criadas (ainda?) as condições de livre e igual oportunidade de acesso e utilização deste poderosíssimo meio de informação.

Por outro lado, como ficarão os métodos tradicionais de eleições para as instituições, de separação e de fiscalização de poderes, quando mantemos modelos de organização democrática que podem estar a ser subtilmente subvertidos, incluindo, e na prática, o próprio conceito de democracia representativa?

15 março 2007

Margens de gelo

Apenas gestos replicados
momentos já esquecidos
mantêm olhos focados
em restos de nervos tecidos.

Rigorosos ritmos cessantes
de pausas sequenciais
nos intervalos constantes
ausentes de rituais,

movem pedras navios
enrolam dedos ternuras
no fundo agreste dos rios
margens de gelo fervuras.


(aguarela de Michael Wrigglesworth: River Ouse at Olney I)

14 março 2007

Embaciar


Tudo se esconde para lá do possível
emudece a sombra entendida
ao longo da grade invisível.

O mundo entorna devagar
as gotas da vontade amolecida
na pressa de a evaporar.


(pintura de Jim Gilroy)

13 março 2007

Untitled

O que há em mim é sobretudo cansaço –
não disto nem daquilo,
nem sequer de tudo ou de nada:
cansaço assim mesmo, ele mesmo,
cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
as paixões violentas por coisa nenhuma,
os amores intensos por o suposto em alguém.
Essas coisas todas –
essas e o que falta nelas eternamente –;
tudo isso faz um cansaço,
este cansaço,
cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
há sem dúvida quem deseje o impossível,
há sem dúvida quem não queira nada –
três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
porque eu amo infinitamente o finito,
porque eu desejo impossivelmente o possível,
porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
ou até se não puder ser…

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
para eles o sonho sonhado ou vivido,
para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
e, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
um supremíssimo cansaço,
íssimo, íssimo, íssimo,
cansaço…


(poema de Álvaro de Campos; pintura de Vlatka Zugic)

11 março 2007

Amarte



Manuel d’Oliveira gravou um disco em 2003, Ibéria. Dei com ele por acaso, escutando discos variados, enquanto deambulava pela FNAC.

Fiquei rendida ao som da guitarra, à técnica, à tranquilidade, à personalidade.

De vez em quando procurava outros discos dele, mas nunca encontrei. A certa altura parecia que nunca tinha existido, que ninguém o conhecia, que tinha desistido de tocar.

Há uns meses, e também por acaso, li um artigo num jornal, não me recordo de qual, anunciando um novo disco: amarte.

Finalmente já o comprei. Finalmente descobri o site dele. Amarte é a gravação de um espectáculo em Guimarães, na Praça de Santiago, com o grupo Mediterrâneo.

Espero ouvi-lo no CCB, a 25 de Maio.



Fanatismo e intolerância

Em 1975, o 11 de Março foi o início do que se convencionou chamar o PREC, época de gente louca e transviada, que acreditava estar na posse da verdade, época de visionários generosos e, por isso mesmo, perigosos. Época de delírios, marchas, golpes e contra golpes, país rebocado por uma turba revolucionária adolescente e feliz, totalmente desgarrada da realidade, mas que talhou para sempre a nossa democracia.

Quando olhamos para esses anos, agora adultos, obesos e instalados na vida, neste país medianeiro e de faz de conta, cheio de contradições e devaneios, nem conseguimos acreditar no que aconteceu, tal como quando olhamos para poemas destemperados e dramáticos e não nos reconhecemos naqueles transportes de emoção.

Em Madrid, o 11 de Março de 2004 teve a cor dos fanatismos religiosos, outros detentores da verdade, preparados para matar e morrer em busca de um deus exigente e sanguinário, tão certos de atingir a felicidade como de se espalharem em mil bocados, na fusão de ferros, roupas, corpos e terra.

Apesar de diferentes há uma terrível comunhão neste tipo de acontecimentos: o assumir por alguns de uma verdade que consideram inabalável e incontestável, baseados em crenças e dogmas, religiosos ou políticos, impondo-a a todos os outros.

Sempre me arrepiaram os detentores da chave da vida, pois a chave que julgam ter apenas serve para fechar portas, caminhos, soluções.

Ao ouvir, no Diário Ateísta, um pequeno vídeo traduzido em brasileiro, defendendo que a Bíblia é repulsiva, dando exemplos com frases retiradas do livro, organizando-as numa lógica que o(s) autor(es) consideram arrasadora, fico verdadeiramente espantada com tal demonstração de fanatismo.

O que eu considero repulsivo é este tipo de análise de um livro, de um discurso, de um pensamento, de um acontecimento. Sem qualquer seriedade, pretende-se explicar situações de uma forma tão dogmática e disparatada, idêntica à que os fanáticos religiosos usam, em sentido contrário, interpretando frases e textos literalmente, retirando-os do contexto, para provarem autênticas barbaridades.

Uma coisa é ser-se ateu, outra muito diferente é ser-se fanaticamente anti-religioso e negar a importância social e cultural do fenómeno religioso e das suas manifestações artísticas. A intolerância e o fanatismo estão em toda a parte, não só do lado das religiões do Livro.


(Bíblia Ilustrada, João Ferreira Annes de Almeida; José Tolentino Mendonça e Ilda David; Assírio & Alvim, 2006)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...