04 março 2007

Do outro lado

Sigo muros rugosos
arbustos de pedras.
Do outro lado esperam
prados verdes
rios de amoras.

Quando chegares
iremos inaugurar
o mundo.


(Pintura de Charles Wilder Oakes: The Fabric of the Old Ways)

A Grande Portuguesa

Entrou na moda o Rádio Clube Português (RCP). Penso que o Luís Osório está sempre bem, e qualquer coisa que ele faça, ou esteja para fazer, é anunciada com alguma pompa e circunstância. Foi assim com A Capital, é assim com o RCP.

Eu tenho ouvido o programa orientado por Adelino Faria, para desenjoar da gritaria da TSF, e gosto bastante. Gosto daquele conceito de usarem um tema e de o escalpelizarem ao longo da manhã, discutindo-o sob vários ângulos e com várias pessoas.

No entanto as poucas vezes que tenho ouvido o RCP à tarde, por volta das 5, 6 horas, tenho achado uma pepineira desgraçada. Não sei como se chama o programa mas outro dia, penso que na última 6ª feira, discorria Helena Sacadura Cabral sobre a sua (dela) tristeza pela ausência de mulheres nos 10 finalistas do celebérrimo concurso Os Grandes Portugueses, revoltando-se perante o machismo dos portugueses e das portuguesas, que não tinham sido capazes de vislumbrar uma única Grande Portuguesa.

E deu o inexcedível exemplo de uma mulher que podia (deveria?) constar da exígua lista dos Grandes, nada mais nada menos que D. Filipa de Lencastre. Ainda raciocinava eu no porquê desta sua indicação quando ela, que não deixou a interpretação de tão eigmática opinião ao acaso dos meus fracos neurónios, justificou a preferência: pois não foi a rainha, D. Filipa de Lencastre, que deu à luz e à pátria tão excelsos filhos, conhecidos como a Ínclita geração?

E pronto, à falta de melhor, as Grandes Portuguesas são-no porque… são responsáveis por parir Grandes Portugueses!

Limites

Sensação palpável.
As nuvens
isolam horizontes
ramos ou pontes
visíveis.
Os limites.

(pintura de Rick Arnitz: plots)

Qualificação e recertificação

O Bastonário da Ordem dos Médicos multiplica-se em intervenções críticas à política de saúde deste governo, preocupando-se cada vez mais com política e cada vez menos com saúde. Atentemos nas declarações de Pedro Nunes, com intervalo de 5 meses entre a primeira e a última:

  • Pedro Nunes reiterou que a Ordem não tem reparos a fazer à proposta em discussão pública, nomeadamente em relação à possibilidade de encerramento de 14 urgências hospitalares, mas realçou que gostaria que a reforma fosse mais ambiciosa. (24/10/2006)
  • Para o bastonário da Ordem dos Médicos (OM), padece de ambição na rede do interior e não reflecte a realidade do país. Mede distâncias entre sedes concelhias mas não valoriza as aldeias, diz-nos Pedro Nunes, para quem este relatório não se compreende sem estar montado um sistema de transportes que o complete. (22/02/2007)
  • Mas, porque a queremos, não aceitamos ver encerrar um serviço útil e insubstituível para uma população abandonada no interior, pelo único critério de só realizar três ou quatro atendimentos numa noite, justificou, lembrando que um desses atendimentos pode ser o filho único de alguém que fica sozinho ou o velho que não consegue ir mais longe. (01/03/2007)

Esclarecedor, não é? No entanto, no que diz respeito à qualidade da medicina que se pratica, uma das áreas base de intervenção obrigatória da Ordem dos Médicos, Pedro Nunes não considera importante a implementação de sistemas de recertificação dos médicos, com exames periódicos, com sistemas de acumulação obrigatória de um determinado número de créditos, dados por cursos de actualização, devidamente analisados e certificados internacionalmente, ou com outro tipo de sistemas.

  • A Ordem não está a pensar, de maneira nenhuma, em implementar um sistema destes, afirmou Pedro Nunes ao JN, antes de presidir ao juramento de Hipócrates de 180 licenciados da Universidade de Coimbra. Nunes argumentou que os médicos já são muito avaliados pelos utentes. (04/03/2007)

As carreiras médicas são entendidas, pelo menos por agora, como uma valorização hierarquizada em que, aos diferentes graus, se acede por concurso público e, portanto, pela prestação de provas. Mas, com excepção do concurso para Assistente Eventual (por exemplo na carreira médica hospitalar), os outros concursos são voluntários, pelo que após a entrada na carreira, se o médico não quiser, pode nunca mais prestar quaisquer provas até à sua reforma.

O conceito de recertificação é diferente, mais vasto, e não deve ter nada a ver com as funções, hierarquizadas ou não, num qualquer serviço, público ou privado.

Penso que todos teríamos a ganhar se o Bastonário se debruçasse mais sobre estes problemas.

Eclipse total

Era já dia, morno e brilhante como as manhãs da infância. Havia frenesim e expectativa, mobilizavam-se os adultos como quem sabe de prodígios e milagres.

Tinha-se discutido à exaustão os malefícios e a prometida cegueira de quem olhava sem temor o astro rei, principalmente se durante a agonia de um eclipse total, qual morte e ressurreição de Deus.

E, repentinamente, os cães, os pássaros e as galinhas agitaram-se, latindo, piando e cacarejando aflitivamente. O céu começou a escurecer: a lua iniciava um processo de digestão solar.

Gente saía das casas e povoava as janelas, as varandas, os telhados, com armas de paz, feitas de vidros esfumados por velas, óculos de sol, papéis de tipo celofane verde ou castanho, protegendo os olhos.

A pouco e pouco o tempo reverteu e foi como se caminhássemos em direcção ao dia anterior, primeiro à madrugada, depois à noite cerrada, aquela noite mesmo anoitecida de um céu estrelado, sem luzes de prédios, candeeiros de estradas ou de bares, com a frescura e o vento omnipresente, soprando apreensão aos ouvidos dos embevecidos mortais. O sol desapareceu por completo, deixando uma aura de claridade tremeluzente à volta do disco negro que o eclipsava.

Os bichos todos, mesmo o bicho homem, reverenciou este espectáculo, totalmente explicado pela ciência mas não assumido pelos instintos, e secretamente desejou o regresso da normalidade intemporal, da sucessão dos segundos em direcção contrária, de acordo com o relógio circadiano.

Algum tempo depois, com a lentidão da solenidade, a natureza reconsiderou. Novamente cantou o galo, novamente se desenroscaram os gatos e se espreguiçaram as crias. Na luta de morte que se travava no espaço, no tráfego engarrafado dos trajectos planetários, desobstruiu-se o caminho e o sol reapareceu, primeiro a medo, depois com toda a pujança.

Clarearam os céus e a gente recolheu a casa, muda de espanto e alívio.

(
30 de Junho de 1973, S. Vicente, Cabo-Verde)

Ensino Superior

Ressalvando a injustiça presente em todas as generalizações, que se passa com as Universidades Privadas? Moderna, Independente, e outras de que já não me recordo, parecem ter sido fundadas mais para gerir negócios pouco claros e promover enriquecimento ilícito de famílias e amigos, do que para gerar conhecimento e desenvolvimento, em concorrência / complementaridade das Universidades Públicas.

E o que acontece aos alunos que confiaram na excelência dos conteúdos (parafraseando Mário Crespo), o que se faz com as suas expectativas de um ingresso no mercado de trabalho, cada vez mais contraído e competitivo? E onde está o Estado, como controlador e regulador da qualidade?

Fala-se muito do ensino básico e secundário, mas o ensino superior precisa urgentemente de reformas e rigor, a todos os níveis.

O fantasma de Salazar

Ao longo destes últimos 30 anos houve alguns temas que ninguém abordou. Um deles foi Salazar.

Pois é altura de se arejarem os fantasmas guardados nos armários da memória. Salazar e o Estado Novo podem e devem ser falados, em múltiplas abordagens e por múltiplas personagens.

Desde as visões históricas e rigorosas, com programas de televisão e rádio, livros, exposições, museus, teatros, cinemas, concursos, etc, conduzidos por historiadores, artistas, defensores e detractores, com conhecimentos e sem eles, enfim, o que é preciso é falar aberta e apaixonadamente de uma fatia de 50 anos do século XX português.

A revolta dos historiadores contra um concurso de televisão parece-me totalmente descabida. Um concurso é um concurso, um programa de entretenimento, que nunca pretendeu ser mais que isso.

Poderia ser melhor, ter outros intervenientes, outros objectivos? Muito provavelmente sim, tal como a grande maioria dos programas de televisão. Não é este concurso nem o seu formato que estão em causa, mas a falta de outro tipo de programas, com outros formatos, que deveria ser o cerne da questão.

A existência de um museu do Estado Novo, aproveitando a casa em ruínas de Salazar, não tem nada de especial. O aproveitamento que alguns fazem e farão disso é idêntico ao aproveitamento que alguns fazem quando se fala da resistência à ditadura e do 25 de Abril.

A História é um património comum, que deve ser usada e estar ao alcance de todos, sem paternalismos, complexos ou preconceitos.

Destapou-se qualquer coisa com cheiro a mofo? Areje-se!

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...