22 dezembro 2006

Trabalhadores de Natal

Para muitos estão a começar umas mini férias. Por motivos religiosos ou não, esta quadra é sempre especial e convida à reflexão.

Se pararmos um pouco, apercebemo-nos do esforço, do desconforto, da entrega e da generosidade de todos os que, por deveres profissionais ou apenas por dever de consciência, velam para que todos tenhamos acesso à gastronomia, aos embrulhos, às limpezas dos desperdícios, às deslocações de rotina ou de urgência, às exigências de consumo, do corpo ou do espírito, aos socorros, às ajudas na solidão, aos abraços de amizade.

Para todos os que nos proporcionam a capacidade de concretizar um feliz Natal, o meu desejo de que nos ajudem a partilhar essa sua dádiva.

Parlamento

O debate parlamentar mensal entre governo e oposição é uma peça de teatro repetitiva e algo grotesca: o primeiro-ministro grita e finge-se zangado; a oposição chora e finge-se ofendida.

Convinha substituir o encenador, já que os actores têm contrato para uma longa temporada…

Referendo


Caso alguém ainda esteja com dúvidas...

Em Cascais

Isto não são horas, mas depois do café bebido às 11 da noite, para afastar os vapores do álcool das nossas mentes, em festividades pouco consentâneas com o recolhimento desta época natalícia, vai custar a adormecer.

Pois a Enoteca de Cascais é mais teca que eno. Fica perto da baía, da lindíssima baía de Cascais nesta noite límpida e gelada, como das noites quentes e vagarosas. Sobem-se umas escadas íngremes (há elevador, provavelmente mais adequado à descida…) e entra-se numa sala bastante acolhedora, com poucas mesas e uma estante cheia de garrafas de vinho. O atendimento é muito simpático.

O problema é quando se pretende escolher vinhos. Os que têm cruzinhas (muito mais de metade da lista) não há. Ou seja, o cliente escolhe um vinho, mesmo que não tenha cruzinha, e o solícito e conhecedor empregado sugere outro, pois aquele não há, devido à falta de pontualidade dos fornecedores de Dezembro. A sério, foi isso que disseram.

Provámos (comemos!) menus de degustação (não há restaurante onde agora não haja menus de degustação) o que significa que comemos muito e bem, bebemos bastante e melhor, e pagámos horrores!

Gostei... mas continuo fiel ao Chafariz do vinho, na Rua da Mãe d’Água.

19 dezembro 2006

Jornada

Ao ouvir o cd de Fernando Lopes Graça, no meu escritório de paredes brancas, sinto-me numa catedral, com o mesmo fervor que sentem os verdadeiros crentes. Há uma religiosidade, um ascetismo, uma simplicidade, um rigor monástico, uma pureza de visionários, um sentido missionário naqueles versos, naquele piano incisivo, naquelas vozes heróicas, que me faz estremecer, socialista, republicana, anti clerical que sou.

A liturgia da solidariedade, do hino à esperança, da apologia a uma sociedade de homens novos, mais livres, mais fraternos, mais justos, a certeza da verdade, da vitória no combate, os versículos que comandam, os coros que seguem com entusiasmo crescente, um autêntico ritual de fé, absolutamente arrebatador e comovedor.

JORNADA

Solo

Não fiques para trás, ó companheiro,
é de aço esta fúria que nos leva.
Pra não te perderes no nevoeiro,
segues os nossos corações na treva.

Coro

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada,
ao sol desta canção.

Solo

Aqueles que se percam no caminho,
que importa! Chegarão no nosso brado.
Porque nenhum de nós anda sozinho,
e até mortos vão a nosso lado.

Coro

Vozes ao alto!
Vozes ao alto!
Unidos como os dedos da mão
havemos de chegar ao fim da estrada,
ao sol desta canção.

(poema de José Gomes Ferreira; música de Fernando Lopes Graça - Canções Heróicas, Canções Regionais Portuguesas - Coro da Acadmia de Música Fernando Gomes e Olga Prats - EMI-Valentim de Carvalho, Música, Lda, 1995)

17 dezembro 2006

Acordai

Acordai

Acordai

homens que dormis

a embalar a dor

dos silêncios vis

vinde no clamor

das almas viris

arrancar a flor

que dorme na raiz



Acordai

Acordai

raios e tufões

que dormis no ar

e nas multidões

vinde incendiar

de astros e canções

as pedras do mar

o mundo e os corações



Acordai

Acendei

de almas e de sóis

este mar sem cais

nem luz de faróis

e acordai depois

das lutas finais

os nossos heróis

que dormem nos covais

Acordai!





Poema de José Gomes Ferreira

Música de Fernando Lopes Graça






Fernando Lopes Graça nasceu a 17 de Dezembro de 1906. As suas canções heróicas ainda hoje me deixam toda arrepiada.

Passamos pelas coisas sem as ver


PASSAMOS PELAS COISAS SEM AS VER

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos como animais envelhecidos;
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos:
como frutos de sombra sem sabor
Vamos caindo ao chão apodrecidos.

(poema de Eugénio de Andrade; pintura de Arpad Szenes)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...