10 dezembro 2006

Últimas


Finalmente morreu Pinochet. Que a terra lhe seja pesada.

A pobreza é uma ameaça à paz - Muhammad Yunus, prémio Nobel da paz, 2006.

Apesar de tudo, Portugal é dos países do mundo onde se vive mais e, se calhar, melhor!

O próximo


Só, neste templo de intimidade que criei, com janelas grandes, a música do piano e da guitarra, água a escaldar para o chá de roiboos, velas, incenso, manta nos joelhos e teclado obediente, refastelo-me no egoísmo próprio de quem pertence à escassa percentagem dos ricos e privilegiados do mundo.

Posso ofender-me e escandalizar-me com o abuso consumista do Natal, no conforto diário do café e torradas matinais, no vício intelectual de livros, teatro e música.

Como podemos nós comprar velas perfumadas e lambuzar-nos na consoada? Para uma infinidade de pessoas como nós, para o próximo tão distante do nosso mundo, Natal é mais uma noite a dormir ao relento, ou a morrer de fome, de guerra ou de falta de coisas tão básicas que nem concebemos a sua inexistência.

Só, na intimidade que criei, com o aconchego do amor que me rodeia, não me permito sequer perceber a miséria e a penúria que não se resgatam pela invocação anual e milenária de um nascimento, também ele metáfora de solidão e abandono, que não mancham a nossa felicidade, a nós, os senhores do mundo.

[fotografia de Jean-Luc Cramatte (?): refugiados, Rwanda]

Deontologia


Os médicos são cidadãos de pleno direito. Não têm mais nem menos direitos, como não têm mais nem menos deveres.

A sua actividade profissional, tal como todas as outras actividades profissionais, é regida por um código de ética, específico pelas consequências da prática de uma determinada profissão, geral pelos princípios de honra e de defesa da dignidade humana, mas que não pode sobrepor-se às leis do país.

Como disse num “post” anterior, os princípios não se alteram com as modas. A defesa da vida e da qualidade da vida, a defesa da dignidade humana, a obrigatoriedade de defender ambas, são princípios universais e intemporais.

Mas o conceito de vida e de qualidade de vida vão-se modificando à medida que o saber evolui. O prolongamento da vida por meios artificiais, a prevenção da doença pela existência de vacinas, a cirurgia endoscópica, o rastreio de neoplasias malignas, o achado de alterações patológicas pela utilização de meios de diagnóstico, antecipando consequências fatais por permitir actuar a tempo, tudo são ganhos para a vida e para a qualidade da vida que ninguém põe em causa.

Os médicos têm consciência e têm o direito de a seguir. Mas têm o dever de não prejudicar ninguém ao seguirem a sua consciência. Têm o dever de proporcionar a outros que sigam a sua própria consciência. E só assim se percebe que a recusa de um doente em seguir um determinado tratamento obrigue o médico a respeitar a decisão, mas não o desobrigue de zelar pela vida desse mesmo doente, ou de indicar quem o possa fazer, não violando os seus próprios princípios.

As leis são gerais e fazem-se para a totalidade da comunidade, independentemente das opções de consciência que cada cidadão é livre de fazer. Não podem existir ordens profissionais que, nos seus códigos de conduta, punam os seus membros por cumprirem a lei. Não podem existir ordens profissionais cujas leis internas se sobreponham às leis gerais.

Até porque, como o próprio Bastonário disse, não se vão punir médicos que pratiquem interrupções de gravidez, dentro do quadro da lei. Qual a vantagem de ter um código deontológico cujos preceitos não são para cumprir? De facto, tem-se assistido a uma oposição passiva à aplicação da lei já existente por parte da classe médica, em geral.

O estado deve zelar para que a lei seja cumprida e assegurar condições para que, em todos os serviços públicos, as consciências individuais não se imponham à consciência colectiva.

Nova Europa Social

Ao ler a crónica de VPV, no Público de hoje, fiquei com a desconfortável sensação de que os princípios de solidariedade social, igualdade e dignidade humana dependem da moda.

Os princípios para uma Nova Europa Social são o cerne da visão socialista da Europa e do mundo, e são intemporais. Podem discutir-se as formas de atingir esses princípios, que terão que ser obviamente diferentes das que se usaram há 10, 20 ou 30 anos atrás. O mundo mudou, a evolução tecnológica é exponencial, há novas potências emergentes, menos emprego, maior desigualdade social.

Não me parece que o socialismo esteja fora de moda. Talvez seja o VPV que esteja a precisar de uma modernização acelerada.

Constituição europeia revisitada


Ao contrário do que eu esperava, Portugal vai insistir, em 2007, em ressuscitar o defunto tratado constitucional europeu.

Tal como António Barreto diz, na sua crónica de hoje do Público, a Europa não aprendeu com os erros e corre para saltar o problema.

aqui abordei este assunto e não percebo a necessidade de uma Constituição europeia. A União Europeia é uma comunidade de Estados independentes e soberanos, não é um Estado em si. A multiplicidade de culturas enriquece a União Europeia e torna-a possível desde que não se esqueçam as diferenças e se respeite a possibilidade autónoma na decisão.

Se alguns pensam que o Tratado Constitucional, ou Constituição, é um imperativo prático e ideológico, com argumentos de peso tais como a possibilidade de políticas externa e de defesa comuns, então devem lutar para convencer os cidadãos europeus, todos eles, desse desígnio europeu. E deverão ser os cidadãos, por meio do voto, que é a forma de participação democrática por excelência para se decidirem políticas, a eleger um órgão mandatado para a criação do tal tratado constitucional.

Todos nos queixamos da ignorância da população relativamente aos assuntos europeus, do divórcio do povo com a política, mas os nossos representantes não se esforçam por aproximar os cidadãos das suas responsabilidades cívicas.

Portugal podia e devia liderar esse processo. Poderia incitar todos os países que formam a comunidade europeia a discutirem este assunto, dando-lhes capacidade de decisão. O reavivar de um processo já morto e enterrado, vai fragilizar a ideia duma Europa coesa e alargada.

09 dezembro 2006

"Por detrás dos Montes"


A cena em tons de terra, com artefactos de madeira rudes e nodosos. O som de cordas onduladas, arranhadas, as vozes que soam dolentes, arrastadas, os badalos e a percussão secos, agrestes, ecoando.

As figuras castanhas, com capas, as cabeças cobertas, tapadas, que escondem, as mãos em gestos sinuosos, certeiros, comedidos, ajeitam vestes, dobram distraída e mecanicamente as mantas, fiam a lã, cosem segredos ancestrais.

O vento, a cruz, o sino, o pau, a servidão, o hábito, a ingenuidade, o medo, o estranho, o emigrante, a máscara que transportamos, que usamos, que mudamos, a rejeição da diferença, o silêncio.

Por detrás dos Montes, violento e triste, primitivo e belo, de uma beleza terrosa e granítica, que nos atinge como o grito da gaita-de-foles.

Espectáculo do qual se sai sem palavras, mas com as emoções à flor da pele.


“Por detrás dos Montes”, criação do Teatro Meridional
(concepção e direcção cénica: Miguel Seabra; dramaturgia e assistência artística: Natália Luíza; interpretação: Carla Galvão, Carla Maciel, Fernando Mota, Mónica Garnel, Pedro Gil, Pedro Martinez, Romeu Costa; espaço cénico e figurinos: Marta Carreiras; música: Fernando Mota; marionetas: Eric da Costa; desenho de luz: Miguel Seabra)

[O teatro Meridional fica no Beco da Mitra (Rua do Açúcar, 64). É um espaço de tecto muito alto, com um aquecedor de gás cnetral, acolhedor, com algumas mesas em jeito de café teatro, chá e café para aquecer nestas tardes e noites invernosas, e uma sala de espectáculos com cadeiras forradas de vermelho-púrpura]

08 dezembro 2006

Natal


Colhi bolas e versos
pintei sorrisos e rimas
fiz filhós e aletria
convoquei a alegria
para a noite de Natal.
Cumpri todo o ritual
ofertei mãos e carinho
enfeitei-me de azevinho
revesti-me de amor.

Não sei que me falta
talvez um sinal
uma vela uma luz
talvez… Jesus?

(Pintura de Wayne Forte: holy family)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...