25 novembro 2006

Época Natalícia


Este ano parece difícil adquirir o espírito natalício. O país anda pouco festivo, mais cinzento e húmido que verde e vermelho, mais prata baça que dourados flamejantes.

Não se vêem turbas multas nas lojas, acotovelamentos, pais natais, renas e neve a fingir. Vêem-se caras coladas às montras, olhares vagarosos pelas portas abertas, espreitando a sedução das cores.

Quando os miúdos da família e dos amigos eram pequenos, eu tinha verdadeiros ataques de pânico na altura das prendas, quando comprava e quando recebia. Por muito que alertasse para a enorme quantidade de bugigangas que enchiam os quartos, a que eles não ligavam nenhuma, a não ser os escassos segundos que demoravam a rasgar os papéis de fantasia, as pilhas de coisas inúteis que atravancavam a casa e a minha alma, a noção de desperdício, da imoralidade da abundância, não era possível travar a avalanche presenteadora.

De há uns anos para cá resolvi que nunca mais gastaria dinheiro, tempo e imaginação a correr de loja em loja. Resolvi que, com a mesma imaginação e o mesmo tempo, era capaz de idealizar ofertas manufacturadas para os meus amigos e familiares. É surpreendente o que podemos criar com as mãos, boa vontade e muita paciência.

Hoje inaugurei a minha própria época de Natal, ligeiramente atrasada, com uma sessão compoteira. Para quem quiser experimentar, aqui fica a receita:



 



Compota de marmelos com laranja:




  • Descascam-se os marmelos e tiram-se as sementes e o núcleo (se se quiserem aproveitar as cascas e as sementes para fazer geleia, convém lavar os marmelos muitíssimo bem!);



  • Cortam-se os marmelos em pedaços pequenos (mais ou menos cubos com 1,5 cm de lado);



  • Pesam-se os pedaços de marmelo e colocam-se numa panela / tacho bem grande;



  • Espremem-se várias laranjas até perfazer o mesmo peso (1 l de sumo e polpa de laranja / 1 Kg de marmelo);



  • Cozem-se os marmelos no sumo e polpa de laranja durante cerca de 15 minutos, com paus de canela (1 por cada quilo);



  • Quando os marmelos estiverem cozidos (espeta-se um garfo para ver se estão macios) junta-se 650 g de açúcar por cada quilo de fruta (marmelos e laranja, ou seja, 1 Kg de marmelos com 1 l de sumo de laranja correspondem a 2 quilos de fruta);



  • Deixa-se ferver até adquirir o ponto certo, que é o ponto de estrada (deita-se um pouco de doce para um prato frio e passa-se uma colher por ele. Se ficar um espaço sem doce, sem que este se precipite liquidamente para o espaço, está feito);



  • Deita-se em frascos de boca larga e fecha-se bem.




Truque: como já tive que desenfrascar o doce outra vez para ganhar mais ponto, se tinha pouco, ou diluí-lo com água, se estava com ponto a mais, agora deixo-o na panela até arrefecer. Se estiver bem, enfrasco, se não, vai outra vez ao lume.

24 novembro 2006

Dez réis de esperança

DEZ RÉIS DE ESPERANÇA

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, não bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.


(poema de António Gedeão; pintura de Ismael Cuevas Jordán: esperança)

23 novembro 2006

Política no feminino

A propósito de Ségolène Royal, à volta de um excelente vinho e não menos excelentes petiscos, discutíamos, eu e duas amigas, se a existência de poucas mulheres em lugares relevantes da política se deve ao menor número de oportunidades que as mulheres têm, na nossa sociedade habitual, ou se à sua menor apetência pelo jogo político.

Houve quem defendesse que a política é um jogo de estratégia e planeamento e, por isso, um jogo masculino, mediado pela testosterona. Que as mulheres são pragmáticas e que não têm paciência nem jeito para o poder, têm outros interesses, nomeadamente o apelo biológico da maternidade e do cuidar, que seria, penso eu, mediado pelos estrogénios.

Eu penso que, para além de ainda não existirem igualdade de oportunidades entre os dois géneros, pois não há uma verdadeira distribuição equitativa das tarefas domésticas e de apoio familiar, a verdade é que o tipo de poder exercido tem uma marca essencialmente masculina e que, a esse tipo de poder, as mulheres resistem e afastam. Mas também penso que, na medida em que houver cada vez mais mulheres a ascender a cargos políticos relevantes e de direcção, a forma de exercício da governação se transformará, levando as mulheres a procurarem mais a luta política, com armas e objectivos diferentes.

Será interessante observar o que se vai passar nas próximas décadas.

Numa coisa acordámos todas: as quotas de participação feminina são uma forma machista de resolver a questão!

22 novembro 2006

Golfo da Guiné


Ao largo de S.Tomé e Príncipe peixes de várias formas e cores enriquecem catálogos incompletos, numa festa da natureza viva.

Para quem, como eu, tem algum receio das profundezas marinhas, é absolutamente fascinante ter um vislumbre do que ainda há para descobrir, neste planeta que maltratamos todos os dias.

Tantas vezes ignorada e desprezada a ciência preenche gulosamente os nosso olhos, a nossa imaginação, abre-nos a mente a novas aventuras.

Especificidades

Não sei porque é que este parágrafo do Manifesto em defesa da Caixa de Previdência dos Jornalistas não pode ser aplicado aos professores, aos médicos, aos enfermeiros, aos bombeiros, aos polícias, aos militares, aos mineiros (mesmo que sejam muito poucos), aos talhantes e a um sem número de outras classes profissionais!

(…) 3. O facto de os jornalistas disporem de um subsistema de Saúde significa que o Estado tem em conta, há décadas, as especificidades da nossa profissão, designadamente jornadas intensas e prolongadas e informalidade de horários, com fortes impactos na saúde e na qualidade de vida destes profissionais, como demonstra a significativa prevalência de stress e de doenças do foro cardíaco, desgaste rápido e até morte precoce. Esta situação agravou-se nos últimos anos, com a crescente precariedade, um extraordinário aumento dos níveis de exigência, polivalência e de disponibilidade. (…)

Já agora sugiro que se distribua o Manifesto em todas as casas, para que todos o possamos assinar, alterando o nome da profissão de risco e criando Caixas de Previdência para cada uma, alertando para as especificidades dos perigos inerentes a cada trabalho.

21 novembro 2006

Entrega

ENTREGA

Pressinto-me
destino desencarcerado
no beijo que transcende
as bocas no osculo dado.

Se a vida estancasse
no embrião que se gerou
esfumava-se
o desejo com que se amou.

Mas não se gera o destino
unindo os lábios num beijo
sem coração que valha
um homem dando-se à terra
como ao sexo que lhe calha.

(poema de José Craveirinha; pintura de Chichorro: sonhar amanhã sem lágrimas)

Sem asas


Devo estar muito senil, arcaica e totalmente fora da onda, mas acho debilóide a campanha do Millenium BCP “jovens com asas” (Bruno Nogueira é o desgraçado que dá a cara e a voz).

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...