05 novembro 2006

Música


Gosto de dias de chuva, em que a música nos embala, as notas dedilhadas nas guitarras, ou as teclas marteladas no piano, nos devolvem alguma esperança, alguma segurança, alguma certeza de que a chuva limpa o ar, empapa a terra, é indispensável à vida.



Gosto de dias de névoa, em que a música nos guia como um farol longínquo, silvando, que ritmadamente nos devolve a luz, o rumo.



Nestes dias de desalento, as janelas meio abertas são a fronteira entre a essência e o descartável. O silêncio adocicado pela música fortalece-me. Sinto o manto acolhedor da casa, grande e calorosa pela tua presença, pelo ritmo dos teus gestos, pela solidez do teu amor.

 






[Michel Camilo (piano), Tomatito (guitarra flamenca), Juan Luís Guerra (artista convidado) – Spain again (2006)]

Publicidade


Ainda não percebi muito bem se a indignação pela publicidade positiva paga, presumivelmente pelo governo, se deve a esse facto, ao panegírico à figura de Manuel Pinho, ou à redução do papel de Cavaco Silva a um mero observador silencioso

04 novembro 2006

O boato é a arma da reacção

Há muitos anos, em pleno Processo Revolucionário Em Curso (PREC), no famoso ano de 1975, todos os dias fervilhavam informações, sussurradas meio a medo, meio a gozo, meio a sério, no núcleo mais importante de coscuvilhice lá do bairro, o mini mercado da Dona C...

Por entre bocas ociosas, assustadas, mentirosas, circulavam todos os dias ameaças de golpes militares ou civis, ajustes de contas, terríveis massacres, faltas de comida, conselhos de açambarcamento, difamações, explorações politiqueiras de frases ou intenções que se adivinhavam nas entrelinhas, sempre sem rosto nem ponta de meada que se desenredasse.

Com o advento da democracia todos queriam participar e, de facto, participavam, numa corrente de boatos que os escassos responsáveis políticos moderados, ou simplesmente sensatos, queriam estancar com a frase: o boato é a arma da reacção.

Esta recente fase bloguística lembra-me um pouco essa época. Na rede tudo se transmite a grande velocidade, sem necessitar de nome ou de rosto. Aqui pode insinuar-se, insultar-se, sugerir-se, sempre com saltos e piruetas argumentativas, sem cuidar de imaginar os contornos ou as consequências resultantes e, principalmente, de responder por eles.

Portugal anónimo, servil, humilde e de chapéu na mão, dá largas à frustração usando a sua mais hábil e antiga arma vingativa: a maledicência.

Esperam calados

Muito se tem falado e escrito sobre a ausência de debate interno no PS, sobre a desertificação à volta de Sócrates, sobre o perigo de autismo do poder, quando há tiques autoritários num partido com maioria absoluta.

O congresso do PS, o tal partido maioritário no poder, com maioria absoluta e um chefe com tiques autoritários, arrisca-se, dizemos todos, a ser um grande e hipócrita aplauso à linha dura de governação.

Não estando obviamente em causa a liderança de José Sócrates, deveriam estar em causa as políticas sectoriais, discussões ideológicas e da praxis do partido e do governo, alternativas ou justificações da falta delas. Acredito que o próprio Sócrates e, sem dúvida, o governo, sairiam rejuvenescidos e reforçados politicamente, independentemente da legitimidade que ninguém contesta.

Se há temas controversos no nosso socialismo e que têm sido objecto de duras críticas dentro do núcleo duro do PS (António Vitorino, Jorge Coelho, Maria de Belém Roseira, e outros), são os temas da saúde, concretizadas nas tentativas de reformas do SNS, com a concentração e reestruturação das maternidades e dos serviços de urgência, com a reorganização e implementação das unidades de saúde familiar, com a introdução de taxas de utilização, com a escassez de recursos, etc.

Há umas semanas ficou a saber-se que Correia de Campos iria propor a discussão de uma moção sectorial sobre a saúde, o que aplaudi, esperando o debate e a clarificação do rumo que este PS pretende dar a este sector.

O DN em "positivo e negativo" (e o Diário Económico), para além de informar que há mais de 30 moções sectoriais a serem discutidas no congresso, sobre temas diversos, afirma que Correia de Campos retirou a proposta de discussão sobre a saúde.

A confirmar-se esta notícia, parece-me um estrondoso erro e uma enorme desilusão no que diz respeito ao PS, ao governo e, sobretudo, a este ministro.

Nas áreas mais difíceis e mais polémicas espera-se que haja coragem e humildade para defender e procurar soluções. Se o problema é o medo de ver as opções tomadas e a tomar criticadas ou desaprovadas, não se percebe, de facto, para que servem estes congressos. Da mesma forma também não entendo a ausência de pedidos de discussão sobre este tema por parte dos críticos de Correia de Campos.

O país deu um mandato ao PS para governar quatro anos. O PS é constituído não apenas pelos nomes sonantes do aparelho, mas por todos os seus militantes. Estes, pelos vistos, não parecem estar à altura da sua responsabilidade. Esperam calados, não se sabe bem é o quê.

03 novembro 2006

A ti

Toda a palavra é inútil
quando perdida
noutros lábios
quando dispensada
a outros sentidos.

Todo o gesto é fútil
quando gasto
noutros braços
quando dirigido
a outras mãos.

Todo o poema é possível
neste todo indizível
que me cala
sempre o dedico
a ti.

(Pintura de George Mendoza: kaleidoscope eyes)

Alternativa?

Não percebo muito bem o interesse jornalístico de uma grande entrevista a Alberto João Jardim. De facto, não temos muitos programas humorísticos, mas Alberto João Jardim não tem mesmo graça nenhuma.

Também não entendo muito bem qual o objectivo político de Marques Mendes ao dar cobertura às diatribes de Presidente do Governo Regional da Madeira. Ou da factura dos “cocktails”, ou da colagem aos que contestam a Ministra da Educação.

Tal é a falta de ideias e de alternativas.

02 novembro 2006

Fim de tarde


Ao fim da tarde
misturados os despojos
barcos de cascas sem nozes
tapetes de folhas secas
junto aplicadamente
as palavras em desuso.

Ao fim da tarde
ajeito nos ombros a chuva
e desato pacientemente
os nós do dia.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...