04 novembro 2006

Esperam calados

Muito se tem falado e escrito sobre a ausência de debate interno no PS, sobre a desertificação à volta de Sócrates, sobre o perigo de autismo do poder, quando há tiques autoritários num partido com maioria absoluta.

O congresso do PS, o tal partido maioritário no poder, com maioria absoluta e um chefe com tiques autoritários, arrisca-se, dizemos todos, a ser um grande e hipócrita aplauso à linha dura de governação.

Não estando obviamente em causa a liderança de José Sócrates, deveriam estar em causa as políticas sectoriais, discussões ideológicas e da praxis do partido e do governo, alternativas ou justificações da falta delas. Acredito que o próprio Sócrates e, sem dúvida, o governo, sairiam rejuvenescidos e reforçados politicamente, independentemente da legitimidade que ninguém contesta.

Se há temas controversos no nosso socialismo e que têm sido objecto de duras críticas dentro do núcleo duro do PS (António Vitorino, Jorge Coelho, Maria de Belém Roseira, e outros), são os temas da saúde, concretizadas nas tentativas de reformas do SNS, com a concentração e reestruturação das maternidades e dos serviços de urgência, com a reorganização e implementação das unidades de saúde familiar, com a introdução de taxas de utilização, com a escassez de recursos, etc.

Há umas semanas ficou a saber-se que Correia de Campos iria propor a discussão de uma moção sectorial sobre a saúde, o que aplaudi, esperando o debate e a clarificação do rumo que este PS pretende dar a este sector.

O DN em "positivo e negativo" (e o Diário Económico), para além de informar que há mais de 30 moções sectoriais a serem discutidas no congresso, sobre temas diversos, afirma que Correia de Campos retirou a proposta de discussão sobre a saúde.

A confirmar-se esta notícia, parece-me um estrondoso erro e uma enorme desilusão no que diz respeito ao PS, ao governo e, sobretudo, a este ministro.

Nas áreas mais difíceis e mais polémicas espera-se que haja coragem e humildade para defender e procurar soluções. Se o problema é o medo de ver as opções tomadas e a tomar criticadas ou desaprovadas, não se percebe, de facto, para que servem estes congressos. Da mesma forma também não entendo a ausência de pedidos de discussão sobre este tema por parte dos críticos de Correia de Campos.

O país deu um mandato ao PS para governar quatro anos. O PS é constituído não apenas pelos nomes sonantes do aparelho, mas por todos os seus militantes. Estes, pelos vistos, não parecem estar à altura da sua responsabilidade. Esperam calados, não se sabe bem é o quê.

03 novembro 2006

A ti

Toda a palavra é inútil
quando perdida
noutros lábios
quando dispensada
a outros sentidos.

Todo o gesto é fútil
quando gasto
noutros braços
quando dirigido
a outras mãos.

Todo o poema é possível
neste todo indizível
que me cala
sempre o dedico
a ti.

(Pintura de George Mendoza: kaleidoscope eyes)

Alternativa?

Não percebo muito bem o interesse jornalístico de uma grande entrevista a Alberto João Jardim. De facto, não temos muitos programas humorísticos, mas Alberto João Jardim não tem mesmo graça nenhuma.

Também não entendo muito bem qual o objectivo político de Marques Mendes ao dar cobertura às diatribes de Presidente do Governo Regional da Madeira. Ou da factura dos “cocktails”, ou da colagem aos que contestam a Ministra da Educação.

Tal é a falta de ideias e de alternativas.

02 novembro 2006

Fim de tarde


Ao fim da tarde
misturados os despojos
barcos de cascas sem nozes
tapetes de folhas secas
junto aplicadamente
as palavras em desuso.

Ao fim da tarde
ajeito nos ombros a chuva
e desato pacientemente
os nós do dia.

Memória

Quando chegava à entrada da vila, procurava uma bata branca vestida por um velhote ligeiramente curvado, com uma coroa de cabelos, do lado de fora da porta verde da Farmácia Nacional, e uma velhota baixa, com bata e carrapito, que espreitava pela porta entreaberta da sua casa. Mal podia conter a alegria que queria soltar-se da garganta, ao correr para aqueles velhos, que de ano para ano encolhiam, embranqueciam, mas sempre a esperavam.

Depois era o cheiro da casa, o frio da sala, a braseira, os lençóis gelados, o tabuleiro de manhã, na cama, o café com leite demasiado doce, o pão com queijo, o creme da cara endurecido, que mal se espalhava, a água gelada da torneira que se misturava com a água a escaldar da cafeteira, as pedras da escada do quintal, o poço, o galinheiro, as mulheres embrulhadas em mantas com os olhos pequeninos que levavam os nomes de remédios inexistentes em fragmentos de papel, escritos com lápis, numa letra tremida no esforço da aplicação, o chão de azulejo branco sujo de lama, os frascos e os boiões alinhados nos armários de madeira branca.

Depois era o sempre eterno chá antes de ir para a cama, as canecas individualizadas com cenas campestres compradas nas feiras, os biscoitos de azeite, o leite creme com açúcar queimado.

Mesmo agora, no dia em que se decretou que se lembrassem os mortos, como se os mortos não estivessem entranhados em todas as pequenas fibras das casa em que viveram, das ruas que palmilharam, dos vivos que tocaram, parece-lhe ainda ouvir aquelas vozes, ao abrir a porta verde, mesmo em frente à escada que subia quatro a quatro, para dentro da sua infância.


(pintura de David Miller)

Enquanto

Enquanto o maior partido da oposição fizer o seu trabalho desta forma, José Sócrates pode estar descansado à sua direita.

Enquanto o BE permanecer órfão de causas fracturantes e o PCP continua a lutar num país imaginário por um mundo virtual, José Sócrates pode estar descansado, também à sua esquerda.

Restam os seus companheiros que aguardam, na sombra, a altura da queda do chefe. Então iremos assistir ao repasto, e para quem se guarda o melhor bocado.

30 outubro 2006

Socialismos

José Sócrates está feliz com os 97,2% de votação na sua pessoa. Eu não ficaria tanto. Uma eleição ganha à partida não me parece motivo de regozijo. Um congresso que se anuncia um coro de sim senhores ao seu governo, ainda me parece menos satisfatório.

Onde estão os democratas socialistas que não gostam das medidas do governo? Apenas ouvi dizer que Correia de Campos vai propor uma discussão sectorial sobre política de saúde.

E os outros sectores, estão todos satisfeitos?

Não há debate interno nem externo. Mas a responsabilidade é de todos. E muito particularmente dos militantes socialistas.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...