24 outubro 2006

Vou




Vou

Vou
quase até onde não sei
e paro
fim donde comecei.

(poema de José Craveirinha)

Credores e devedores



É verdade que os bancos, apesar do aumento da percentagem de crédito malparado, continuam a ter lucros fantásticos e que, se investem o que investem em publicidade ao crédito, para férias, para telemóveis, televisores, sofás, computadores, automóveis e casa, é porque o que perdem é irrisório em relação ao que ganham.

É verdade que a violência, seja ela de que tipo for, que algumas empresas de cobranças difíceis utilizam para “incentivar” a liquidação de dívidas, à banca ou a outros agentes que emprestam dinheiro a juros, é totalmente inaceitável.

Mas também me parece estranho que quem contrai empréstimos e deixa de os pagar não recorra a todos os meios possíveis e a todas as ajudas existentes para pagar as suas dívidas. Dá-me a sensação de que se reteve a mensagem de que não faz mal gastar mais dinheiro do que o que se tem, de que é obrigatório consumir determinado tipo de coisas, de que não é necessário estabelecer prioridades, pois pode sempre pagar-se a partir do próximo ano, sem juros, ou ter à disposição imediata 3000€, para não ter que se optar entre a mobília nova e as férias na Tailândia.

Na verdade, quando falamos de Estado, esquecemos que o Estado é uma entidade colectiva, formada por todos os cidadãos.

(o anúncio do Joe Berardo é absolutamente repugnante!)

Questionemos

Escapam-me a relevância de alguns temas que escolhidos como para notícia desenvolvida e com direito a muitas páginas de jornais.

No Público de Domingo vinha um extenso trabalho jornalístico, de Kathleen Gomes (Foram ustedes que falaram em unión? – link não disponível) sobre o facto de um grande número de espanhóis (cerca de 40%) e de um menor número de portugueses (cerca de 25%) suspirarem pela união dos dois países.

Sugiro humildemente que o próximo tema a tratar seja a discussão do regime político: monarquia ou república? Parece-me tão importante como a inclusão de Portugal em Espanha.

22 outubro 2006

Aos amigos

Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

(poema de Herberto Hélder; pintura de Jo Derbyshire: fire)

21 outubro 2006

"As mulheres da minha vida"


Fui ver a peça As mulheres da minha vida, de Neil Simon, encenada por Daniel Filho e protagonizada por António Fagundes.

É uma peça sobre a relação entre um homem, escritor de sucesso, e as mulheres da sua vida, mãe, irmã, esposas, filha e psicanalista, sobre a dificuldade da intimidade e a incapacidade de se expor emocionalmente, sobre a realidade do imaginário e a ficção da vida real.

Os actores cumpriram, mas não entusiasmaram. O som não estava grande coisa, o cenário era frio, pouco envolvente. Não fiquei particularmente agradada.

Oposição

À falta de uma oposição política credível, com as declarações de Marques Mendes a merecerem um sorriso de comiseração, temos a oposição liderada por jornais/jornalistas, como se pode apreciar pelas páginas do Público, sobre a Semana horribilis de Sócrates antecipa maior contestação ao Governo.

Desde o início da governação socialista que se vem vaticinando a perda do estado de graça, que se vem predizendo as grandes dificuldades de um governo que queira atacar os problemas do país, que se vem estruturando a quebra das intenções de voto no PS, no governo e em Sócrates.

Esses profetas têm vindo a refazer as profecias, à medida que o tempo vai passando, por um lado em coro com os que criticam o não apertar o cinto a sério, por outro com os que criticam o apertar o cinto demais.

Há ministros que ciclicamente sofrem as atenções da imprensa, como Manuel Pinho, Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues, para não falar de Freitas do Amaral. Desta vez é António Costa que, segundo a mesma notícia do Público, se afunda no Prós e Contras, nos dez episódios que abalaram a máquina do governo, depois de ter escapado aos incêndios do país, no Verão.

É verdade que tem havido uma modorra geral em volta das alternativas às medidas do governo, primeiro porque não deve ser fácil encontrá-las, segundo porque Sócrates está a desertificar a discussão na área socialista, terceiro porque a oposição, à esquerda e à direita, está agonizante, quarto porque o discurso da crise se colou às almas das pessoas.

Assim assiste-se à necessidade de criar factos políticos, para que alguma coisa se mexa neste lamaçal invernoso. Está prestes a inventar-se uma crise governamental, já começaram a correr rumores de uma provável remodelação.

A semana correu bastante mal para o governo, muito por responsabilidade de alguns ministros, e vai haver semanas a correr pior. Todos esperávamos a contestação social, com a entrada do Outono. É natural que as pessoas protestem, é natural e desejável que os jornalistas confrontem os ministros com as suas insuficiências e com as suas incongruências.

Mas martelar na opinião pública interpretações extraordinariamente exageradas e mesmo abusivas, para induzir extrapolações e criar instabilidade, não me parece um papel consentâneo com a ética que esperamos, pelo menos em jornais que se querem de referência.

Lá fora

Lá fora as pedras alagadas
lembram a solidão.
Tempestades de granito
a que habituamos os olhos
tendo as mãos isoladas.

Atrás das portas trancadas
esperam silenciosas
as almas resistentes.
As outras desistentes
voaram.

(quadro de Katarzyna Gajewska: loneliness)

Das war erst der Anfang - Isto é só o começo

  Isto é só o começo Expresso