17 outubro 2006

Crise

Em Portugal tudo se adia até ao último minuto, até não ser já mais possível adiar mais.

Adiam-se as horas de estudo, adia-se o pagamento das contas, adia-se o começo das reuniões, adia-se o princípio e o fim das obras, adia-se a hora do despertar.

Por isso somos tão bons, nós, portugueses, na hora H. Fazemos das fraquezas forças, improvisamos, inventamos, imaginamos e concretizamos, com excelentes resultados, quantas vezes diferentes do que prevíamos. Obviamente apenas naquilo que se não pode adiar mais.

Com a crise é a mesma coisa. Desde há muitos anos que estamos em crise, que não saímos da crise, que a crise é cada vez maior, ai meu Deus que temos que poupar, que gastamos mais do que produzimos, que não temos chefias, que não temos organização, que agora é que é, que Bruxelas nos castiga, que já não há mais oportunidades, que isto é que vai ser um horror, que temos que apertar o cinto, agora é que vão ser elas!

Pois o dia chegou! Desde manhã que ouvimos na rádio e lemos nos jornais, que o Orçamento de Estado vai ser um horror, que vamos ter aumento de impostos, para os pensionistas e para os deficientes, que vamos pagar mais nos medicamentos, para além das taxas moderadoras e de utilização, que vai aumentar a electricidade, que vão diminuir os salários e as reformas, que há uma greve de professores sem precedentes, e que amanhã vai continuar a greve sem precedentes, que somos feios, gordos, pobres, ignorantes, endividados, preguiçosos e eu sei lá que mais.

Está, portanto, tudo a postos para tirarmos algum coelho do chapéu, termos alguma ideia luminosa de equilibrista. E que seja depressa, porque já estamos mesmo no último segundo possível…

16 outubro 2006

Raízes

Tantos fios que nos prendem
sedosos finos transparentes
como raízes profundas
rendidas à terra como dedos
como longos cabelos resistentes.

(pintura de Rom Lammar: roots)

O vírus da ignorância

A ignorância é perigosa, e ainda por cima é muito atrevida.

A vacinação contra a gripe (vírus Orthomyxoviridae – A-H2N1 e A-H3N2) que, habitualmente afecta as populações na época do Outono/Inverno, NÃO protege contra a gripe das aves (vírus Orthomyxoviridae – A-H5N1). A gripe pode afectar muitas pessoas, mas são os idosos, as crianças e os doentes com doenças crónicas e debilitantes que poderão ser mais afectados, e é nesses grupos populacionais que está indicada a vacinação.

Portanto, a corrida à vacinação, como algumas empresas estão a fazer, é totalmente ineficaz no caso de se verificar uma pandemia pelo vírus da gripe das aves. Entretanto, estão a ser gastos os stocks de vacinas LIMITADOS a cada país, em pessoas saudáveis que NÃO têm qualquer razão para a fazer.

A isto se chama medo, ignorância e falta de civismo.

A Bíblia

A Bíblia é um livro fundamental para compreender a nossa cultura, independentemente de sermos ou não crentes. Histórias, lendas, mitos ou a palavra de Deus, são páginas de servidão e louvor, de escravidão e libertação, de mal e de bem, de patriarcas e matriarcas, de mulheres submissas e heroínas, de grandes líderes e homens de leis, de sábios, de erotismo e ódio. Estão lá os nossos temores e as nossas redenções, a história do povo escolhido, com que todos nos misturamos e identificamos, do Messias, dos sacrifícios, dos mártires, dos anjos e dos demónios que os assistem.

O Círculo de Leitores e a Assírio & Alvim editaram uma versão da Bíblia, baseada na tradução efectuada por João Ferreira Annes d’Almeida (séc. XVII), que terá sido o primeiro a traduzir os textos bíblicos para o português, pelo menos o Novo Testamento e o Antigo, até ao livro de Ezequiel. José Tolentino Mendonça é o Teólogo que introduz o texto e Ilda David a artista que o ilustra.

Estou muito curiosa quanto ao resultado.


[Ilda David: exposição com José Tolentino Mendonça (poemas): tábuas de pedra]

14 outubro 2006

Imensidão


A imensidão da espera
quando aguardo
que me esperes,
que me guardes
quando queres
que te queira.

Nessa lentidão demora
a nossa hora.

(Pintura de Sara Nadeau: waiting)

Pedido de esclarecimento

Gostaria que António Costa esclarecesse: Se o resultado for pelo "não" mas não for vinculativo [participação eleitoral abaixo dos 50 por cento], o PS legislará à mesma?

É que, mais uma vez, o PS só está a equacionar a hipótese do resultado do referendo ser favorável à despenalização do aborto, mesmo que a afluência seja inferior a 50%. E se o resultado for o mesmo que no último referendo? Que fará o PS? Vai manter tudo como está?

Gostaria que o PS assumisse uma posição clara.

Na minha opinião, não se deve aceitar o resultado do referendo como vinculativo, qualquer que ele seja, se houver uma participação inferior a 50%. Isso significará que os cidadãos não se interessam pelo assunto, ou acham que é a assembleia que o deve resolver.

Cinema

Na Fundação Calouste Gulbenkian vai iniciar-se, a 4 de Novembro, o ciclo de cinema: Como o cinema era belo – 50 filmes clássicos, com How green was my valley, de John Ford.

Lembro-me de ter visto na Gulbenkian, noutro ciclo de cinema, The birds, do Alfred Hitchcock, e Alien, de Ridley Scott. A sala totalmente às escuras, o som a um nível suportável e o medo…

A bilheteira só abre a 20 deste mês. Já estou na fila on-line...

(Imagem do filme The River, de Jean Renoir, 1951)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...