24 setembro 2006

Naturoterapia


Os anos vão secando a pele, transformando-a num mapa em que estão indicados todas as perdas de vitaminas, todos os cigarros, todos os aperitivos, todas as noites mal dormidas, o vento e a chuva e o calor.

As rugas da alma, que ao longo da vida se cruzam e se arredondam, se cravam ou quase desaparecem, estão dependentes de cremosas festas, de hidratantes beijos, de rejuvenescedores abraços, de palavras prenhas de felicidade.

Para manter a alma limpa e sedosa devemos inocular amor, sem avareza nas doses, mas com muita atenção à qualidade!


(pintura de Scott Bennett: soul in wonder)

Último dia




Que seja a preto e branco

o vislumbre do teu corpo

nos contornos da sombra

que desenha por instantes

a luz.

(Fotografia de Hugo Madeira: O Fatalista)

QuartoEspaço: "Fragmentos de Liberdade": Fotografia, Pintura e Video
Armazém nº53, Cais do Ginjal – Almada - Dias 15,16,23 e 24 de Setembro
19h-23h.

23 setembro 2006

Animalidade

Égua tu foras
e sem rédea
e sem trégua
te montara
por trás
em pêlo
pelo gozo que me dás.

Se vaca foras
então
tuas tetas ordenhara
e teu leite
meu deleite
por todo corpo espalhara
em louca avacalhação
de touro de cobrição.

Fosses porca de chiqueiro
e contigo chafurdava
na lama
como na cama
para guardar o teu cheiro
e nem sequer me lavava
para o ter o dia inteiro.
Varrasco me comportava
como poço de carinho
envolvendo-te em toucinho.

Talvez cabra te quisesse
para contigo saltar
e por ti toda esfregar
uma barbicha aparada
de bode que quer e pode.
Disputava-te à marrada
amarrada e bem vendada
e levavas uma esfrega
que nenhuma cabra-cega
ou menos cega imagina…
Questões de lana-caprina!

E se cadela nasceras
cada cio teu atendia
dia e noite
noite e dia
a teu sexo me prendia
e eu ladrava
e gania
sem me importar com a dor.
Podia até
por amor
tirar-te trela e coleira
mesmo que fosses rafeira
desde que fosses fiel…
Amava-te sem quartel!

Até gata te queria
com requebros nos miados.
subia por ti telhados
em noites de lua cheia
servindo-te
volta-e-meia
suculentos linguados
ou outros peixes que tais…
Amava-te nos beirais
pelas noites de janeiro
com requintes naturais
de felino cavalheiro.

Mas tu nasceste mulher
e uma mulher me gerou
homem como sou hoje
e um homem que te quer
num desejo natural
pelo mais belo animal
que Deus ao mundo deitou!

(poema de Pedro Neves; escultura de Auguste Rodin: femme accroupie)

Rascunho


No rascunho diário
em que pernas, olhos e pele
ensaiam a existência,
procurando a perfeição da voz,
a certeza no olhar,
o dedilhar dos receios
com subtileza de sombra,
amarroto as folhas amareladas
deste Setembro.
Sinto-me já crepitante e volátil
e o dia apenas amanheceu.


(Fotografia de Nadezda Koldysheva: Autumn shadows)

22 setembro 2006

Sobre o "Beato"

Subscrevo na íntegra o editorial de Helena Garrido, no DN de hoje. Sóbrio, lúcido, desencantado, certeiro. Vale a pena ler.

Pelas Ruas da amargura

Fernando Ruas e a Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) deram, mais uma vez, uma triste imagem do poder autárquico, apostado em manter as regras de endividamento e má gestão, chegando à ameaça de incumprimento das obrigações públicas para que foi eleito.

A redução do défice é uma imposição da administração central e das autarquias e é um imperativo para tentar melhorar o estado da nossa economia. Talvez seja altura de auditar a gestão autárquica e perceber como são gastos os dinheiros dos contribuintes, que devem ser exactamente para as funções que a ANMP ameaçou cortar: educação, saúde, segurança e salubridade.

O espanto indizível de quem ouve as declarações de Fernando Ruas só é ultrapassado pela tentativa de marcha-atrás, protagonizada pelo mesmo Fernando Ruas quando, questionado na TSF sobre a ameaça de cortes de financiamento, deu o dito por não dito afirmando que manteria intactos todos os compromissos com todas as entidades, nomeadamente PSP, GNR, escolas e recolha de lixos.

Triste, triste, tristíssimo.

21 setembro 2006

Instante




Num instante
a tua mão
no abandono
da pele
e do sono.

(pintura de Bruno Epple: la novia feliz)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...