25 agosto 2006

Eu aguardo, sr. Ministro


Tenho tido uma enorme esperança de que com o PS no governo e com este ministro da Saúde, que tem pouco jeito para as câmaras, que parece sempre falar demais, mas que parece ter ideias, o que não abunda, que era mesmo desta vez que se iriam fazer reformas a sério.

E não temos tido razões de queixa. Tenho defendido que o estado e o funcionalismo público são para servir e não para se servirem. Penso que o estado tem algumas obrigações que não pode descorar, como a saúde universal e gratuita, mesmo que tendencialmente.

A forma como se organiza a gestão dos centros de saúde, hospitais, etc, sempre me pareceu secundária. O que acho fundamental e a que raramente se assiste, é à responsabilização de quem trabalha, começando por cada um dos prestadores de cuidados, até aos directores dos serviços, directores clínicos, administradores e directores hospitalares e dos centros de saúde.

Introduziu-se no sistema o conceito de empresarialização dos hospitais, elevando-se a bandeira da autonomia de contratualização, de definição de objectivos, de controlo de custos.

Há algumas semanas tem escapado para os media a ideia de que, afinal, alguns hospitais têm muito maus resultados, não se percebendo muito bem o que isso significa, a par de outras notícias de gastos sumptuosos, etc.

Talvez valesse a pena perceber o que correu mal nesses hospitais (se é que alguma coisa correu mal). Porque se há gastos excessivos, convém saber se houve acréscimo de produtividade, mais consultas, mais internamentos, mais actos operatórios, mais doentes a ser tratados de doenças muito dispendiosas como a SIDA e a doença oncológica, se se fizeram mais exames complementares, etc. Ou se, pelo contrário, esse dinheiro que se gastou a mais não se reflectiu em melhor qualidade de atendimento às populações e foi delapidado em horas extraordinárias desnecessárias, aparelhos que não se podem usar, administradores a mais, mobiliário, etc.

Repentinamente, o ministro ameaça os tais hospitais perdulários de voltarem atrás, ou seja, de passarem a ser, novamente, hospitais públicos.

Francamente, não percebo. E que tal responsabilizar as equipas de administração e gestão hospitalar pelo que se passa? Qual é a vantagem do retrocesso? E qual foi a vantagem da empresarialização?

Com enorme tristeza e apreensão, começo a duvidar do rumo, das ideias do Sr. Ministro, deste governo socialista.

Paralelamente, vão saindo artigos dando conta do início das negociações das propostas de alteração da remuneração dos médicos hospitalares. Filosoficamente estou de acordo no que diz respeito a premiar quem mais trabalha. Não estou de acordo, como bastas vezes o afirmei, com o fim da exclusividade de funções. Para mim, o correcto seria exactamente o contrário, com a total separação entre sector público e privado.

Espero que as negociações corram bem. A inevitabilidade da alteração do status quo é evidente. Esperemos que para melhor, com maior justiça, equidade e responsabilização.

Eu continuo a aguardar, Sr. Ministro.

(Os russos são
ligeiramente machistas!)

23 agosto 2006

Quase Setembro


Estamos a 2 semanas (menos) do fim do mês. Lá vão saindo alguns coelhos do chapéu, lá se vão treinando alguns casos e discussões. As alterações dos preços de alguns exames complementares, na ADSE, a ameaça de greve dos médicos às horas extraordinárias, a acusação de Cintra Torres de ingerência do governo na informação da RTP, as notícias sobre o aumento da dívida do subsector estado, e a proibição de circulação de resíduos perigosos em Souselas.

Passo a passo aproximamo-nos da reentrada na atmosfera terrestre. Os portugueses estão mais endividados, as férias vão-lhes sair caras.

O Outono faz falta, com as rabanadas de vento, as folhas estaladiças e o acorrer às despesas escolares. O cheiro dos livros, o formigar de gente pelas ruas, a discussão de casos difíceis, a responsabilidade pelo que se decide.

Que venha a actividade e que se varra esta modorra de Verão! Já chega de bonomia, preguiceira e sonolência!

Palavras


Olho para a infinita combinação de letras,
para o desmedido tesouro de palavras
e não encontro as suficientes para te amar.

Pacientemente vou coleccionando vogais,
retocando sílabas, refazendo vírgulas,
para esta longa carta de amor
que te ofereço, dia a dia.

(quadro de Justin Simoni: Words are Sweet Sounds for Objects Unreal)

21 agosto 2006

Desjardinar a Madeira


Gostaria muito que, de uma vez por todas, houvesse sinais, da parte dos governantes, dos responsáveis dos partidos políticos e da presidência da República, de que a tolerância para os disparates de Alberto João Jardim se esgotou!

Despachos sumptuosos

Não há dúvida que é refrescante ver um ministro que assume por escrito e assina em baixo aquilo que, à portuguesa, sempre se ouve dizer, sem que haja consequências.

Na verdade todos os funcionários assistem, sempre que há mudanças nas chefias, a uma remodelação dos gabinetes das novas direcções, que incluem mobiliário e decoração, assim como a renovação das frotas de automóveis, habitualmente substituindo topos de gama por topos de gama, ao mesmo tempo que se insiste na retórica da crise financeira, da reorganização de recursos, da necessidade de reduzir os desperdícios.

Mas como todos sabemos, nada disto se passa só a nível hospitalar, passa-se a nível de toda a administração pública, desde os ministérios até às mais pequenas repartições.

Portanto, mesmo aplaudindo o facto do ministro mostrar que não assobia para o lado, não percebo, tal como não percebeu Pinho Cardão, que se o despacho foi desencadeado pelas despesas sumptuosas da administração do hospital de Guimarães, não percebo, repito, porque é que a mesma administração não foi sumariamente demitida. Afinal o ministro só fez como o cão que não morde…

19 agosto 2006

Ingerência

Para ajudar Israel acha-se no direito de prender ministros palestinianos, legitimados pelo voto popular. A democracia só serve quando o povo escolhe o que certos democratas querem…

A distância mais curta...

A pouco e pouco a propaganda e o bombardeamento de imagens, opiniões e comentários, bem intencionados ou não, a hiper racionalização e a procura de explicações e fundamentos para tudo, acaba por transformar coisas que, numa visão mais simplista mas, se calhar, mais autêntica, seriam aberrantes, em assuntos triviais, compreensíveis e até aceitáveis, de tal forma que passam a fazer parte dos dados da discussão.

É o que se passa com o conflito entre Israel e o Hezbollah. Na realidade o Líbano tem um exército libanês, mas que não tem qualquer poder de intervenção no sul, território dominado pelo Hezbollah, que a si próprio se apelida de exército de guerrilheiros, não disposto ao desarmamento. E no entanto estamos todos empenhadíssimos em assegurar um cessar-fogo entre Israel, um estado soberano, e o Hezbollah, um grupo de guerrilheiros que se sobrepõem ao exército do seu país, um pseudo país dentro doutro.

Bem sei que tudo é muito complexo, sendo esta uma abordagem demasiado ingénua. Mesmo assim não devíamos nunca esquecer-nos que a distância mais curta entre dois pontos continua a ser a linha recta.

(Entretanto Israel já violou o cessar-fogo e a força multinacional está muito difícil de reunir…)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...