18 agosto 2006

Manipulação


vários blogues se referiram à efeméride ontem comemorada: o centenário do nascimento de Marcello Caetano.

No documentário que passou na RTP1, de uma forma tosca e pirosa, traçou-se o panegírico de um homem que, apesar das suas com certeza muitas qualidades intelectuais, fica para a nossa história como o continuador de uma ditadura, como o indivíduo que cujas intenções não passaram disso mesmo, de intenções. De um político que não era ingénuo nem impoluto, que não soube ou não quis fazer a transição para a democracia, que manteve a censura e a lei do partido único, que teimosamente e em público defendia a guerra colonial, atacava os seus opositores apelidando-os de anti patriotas, que manipulava a informação.

De uma maneira despudorada tentou fazer-se passar a imagem de um homem desapegado do poder, idealista, um escravo da causa pública, quase subentendendo, por oposição, o regabofe de oportunistas e arrivistas que apareceram após o 25 de Abril.

Já não falo da entrevista à filha, Ana Maria Caetano, conduzida por Judite de Sousa que, tal como sucedeu com a entrevista à irmã de Álvaro Cunhal, foi acéfala.

As pessoas vivem de acordo com o carácter, consciência, personalidade, inteligência e segundo a época, o tempo, o espaço, a moda, as ideologias. Não se prestam favores, nem às suas memórias, nem às memórias colectivas dos povos, alisando arestas, ocultando factos ou apresentando uma realidade distorcida e mais ou menos açucarada. Foi vergonhoso.

Pelo contrário e entre o que li, destaco o artigo de Vasco Pulido Valente no Público que, apesar da acidez e da crueza que lhe são características, é muito bom.

17 agosto 2006

Abandono


Abro-te as mãos enquanto dormes
e pouso-as em mim.
Durmo assim,
no abandono da tua paz.

(pintura de Partou Zia: sleeping lovers)

Em branco


Esta noite branca
ao lado dos corpos nus
os amantes brancos
absorvem sôfregos o frio
que paira no tempo
que lentamente se afasta
escorregando
do amor em branco
que desesperadamente
se desenha e arrefece.


(Pintura de Nikolay Reznichenko: White Night)

16 agosto 2006

Fim de dia


Está fresquinho, e que bem que sabe um intervalo na torreira de Agosto.

Depois de um jantar de conversa, remata-se com café e um pastel de Belém, morno, estaladiço, polvilhado com açúcar e canela.

Arte naïf


Talvez valha a pena espreitar o "XXVII Salão Internacional de Pintura Naïf", no Casino Estoril. Pelo menos ali o mundo é simples e colorido, e os barcos são barquinhos, o mar é azul e as barracas têm riscas à marinheiro.

(pintura de Mª del Carmen Artigas: Mar Menor)

15 agosto 2006

Suspenso


O mundo abre a janela,
sacode fragmentos de sonhos
areja palavras
recicla esperanças.

Suspende-se o medo.
Ouve-se piar um mocho.

Até à próxima bala.

(desenho de Pablo Picasso: guerra e paz)

Cessar fogo

Segundo o jornal “Público”, Hassan Nasrallah disse, num discurso televisivo, que o Hezbollah não é um exército regular e que não combaterá como um exército regular.

Deixemo-nos pois de afirmar hipocritamente que Israel atacou civis no Líbano. É claro que muitos civis morreram, mas muitos dos mortos eram combatentes do Hezbollah, misturados e vivendo no meio da população civil. Podemos não concordar com os métodos que Israel utiliza para defender o seu território, podemos não aceitar que Israel queira, unilateralmente, marcar as suas fronteiras, não reconhecer nem tentar negociar com os representantes do Hamas, eles próprios representantes legítimos dos palestinianos.

O que não podemos é encarar a ofensiva de Israel como se fosse a ofensiva contra um povo inocente, que nada fez para ser atacado. Trata-se da disputa de um território, em que os dois lados clamam pela justeza divina das suas pretensões.

Esperemos que este cessar-fogo se mantenha. Infelizmente, temo que seja efémero. Embora Israel e o Hezbollah o tenham aceite, já se percebeu de um e do outro lado as cautelas no discurso, o que pressupõe que apenas estão a recuperar forças.

Por muito que a comunidade internacional prepare documentos e negoceie nos bastidores, são os contendores que têm que querer a paz. Para tal, a existência de Israel como um estado soberano, com direito à paz, a delimitação de territórios e fronteiras negociadas, em vez da imposição pela força, como tem acontecido da parte de Israel, talvez pudessem abrir uma nesga de esperança.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...