13 agosto 2006

Progresso

A escravidão e a discriminação sexuais, nas nossas tão livres e ricas sociedades ocidentais, são uma consequência do incentivo ao consumo. Assim inventam-se novas necessidades e novos parâmetros de comportamentos, que chegam a atingir as raias do grotesco.

Li no DN (não está disponível on-line) que a moda dos saltos altos está a dar brado nos USA. Quando estou a dizer altos estou a falar (ou a reportagem falava) de saltos de 15 cm!

Para além "dos tornozelos finos, das pernas longas, das ancas firmes e das costas ligeiramente arqueadas" (segundo a mesma notícia), há também os pés doridíssimos, os calos, os joanetes, as dores nas costas e a impossibilidade de andar ou estar de pé por mais de 10 minutos seguidos, nada que não seja ultrapassável pela eterna capacidade de sacrifício feminino (é preciso sofrer para ser bela).

Mas pior do que isso é o facto das mulheres (aliás dos seres humanos e outros animais), por muito milionárias que sejam, terem pés com 5 dedos, numa forma mais ou menos rectangular, formados por ossos, cartilagens, articulações com limitações de movimentos, músculos, nervos, vasos sanguíneos e tecido adiposo, que formam almofadas plantares escassas, pele e unhas.

Pequenos detalhes! Já há médicos (aqueles que gostam de citar o código deontológico e que, por princípio, pelo menos não devem fazer mal) que, a troco de muito dinheiro, cortam ossos, insuflam com alguns produtos miraculosos as plantas dos pés, para criar uma zona de amortecimento maior e mais espessa, enfim, fazem da podologia uma escultura, para se poderem vender mais sapatos de altíssimo e elegantíssimo salto.

Só gostava que me explicassem em que é que isto é diferente do costume bárbaro e desumano de ligar os pés às mulheres chinesas, desde muito jovens, para que elas ficassem com pés elegantes. Mesmo que isso significasse uma vida dolorosa e periclitante, de pobres estátuas deitadas.

12 agosto 2006

Cacos


Dizemos palavras gastas,
pobres, cinzentas,
como as ruas destruídas,
as pedras empunhadas.

Secam-nos os olhos de pó,
sangue e lume,
como cacos de almas
nos corpos que caminham.

Estamos ébrios de morte,
gritamos raiva a sofrer,
para quando a plenitude
de começar a viver?

(pintura de Jack Bice)

Narciso


Ao folhear a alta velocidade a revista que sai com o DN aos sábados, li os títulos referentes a uma reportagem sobre Fátima Lopes (a estilista). Afirma, entre outras coisas, que só veste roupas, calça sapatos, usa jóias e malas, apenas desenhadas por ela. E que os próprios móveis são também por ela desenhados.

Fiquei a pensar naquilo. Como suspeito que Fátima Lopes não tenha dificuldades monetárias, ou seja, deve poder adquirir o que quer e quando quer, aquelas afirmações significam que só lhe apetece comprar aquilo que ela faz.

Será que, por muito que as peças de vestuário, calçado, acessórios, jóias e mobiliário dela sejam fantásticas, e é maravilhoso ser-se tão versátil, será que não há no mundo desenhadores de moda e de decoração que lhe agradem? Será que a sua imaginação e criatividade a preenchem, só por si?

Não consigo imaginar-me a viver rodeada por mim própria e pelas minhas criaturas, por muito que me agrade criá-las. A contemplação de si próprio, como Narciso, tem muitas facetas, é enganadora e muitíssimo limitadora. Surpreendem-me as pessoas que se envolvem em redomas, ainda por cima construídas à sua imagem e semelhança.


(pintura de Pier Paolo Pasolini: Narciso)

11 agosto 2006

Corporativismo assanhado

A propósito desta notícia do DN é absolutamente espantoso o conjunto argumentativo dos representantes da FNAM.

Se os médicos têm um contrato de trabalho de 42 horas com exclusividade num determinado hospital (o que significa que não podem acumular com outro trabalho, público ou privado, excepto ensino universitário), este tem todo o direito, que lhe é conferido por lei, de se assegurar que o contrato seja cumprido.

A declaração do IRS é um documento que se pede para variadas situações banais, pelo que não percebo como é possível a FNAM alegar a suposta privacidade das informações aí constantes.

Como em todas as profissões há aqueles profissionais que cumprem, com zelo e generosidade, felizmente uma esmagadora maioria, e há aqueles que não cumprem. Será que o Estado, que os emprega, que lhes paga, que é responsável pelo trabalho que desenvolvem, perante todos os cidadãos, não tem o direito e o dever de separar os bons dos maus elementos, de premiar quem deve premiar e de punir quem deve punir?

Sou totalmente a favor do trabalho em exclusividade. Penso que os hospitais só teriam a ganhar se tivessem os seus profissionais de saúde a trabalhar a tempo inteiro e em exclusividade, rentabilizando os blocos operatórios, os serviços de exames complementares e outros, com remunerações dignas e boas condições de trabalho. Melhorava-se o atendimento aos doentes e poupava-se dinheiro ao estado.

Espero que este não seja o mote para o acender do pavio do corporativismo cego que tem incendiado outras classes profissionais.

Patético

Não deixam de ser patéticas as notícias sobre o “alegado” acordo para o cessar-fogo negociado por americanos e franceses. Não se chega a perceber quem está em guerra.

Entretanto, Israel continua a ofensiva terrestre e o Hezbollah continua a lançar rockets.

E nós, entre os enviados especiais e os especiais comentadores, vamos assistindo impávidos ao desmoronar das nossa certezas.

Manhã


Ao meu lado segue o rio
majestosamente quieto
em bandas de azul e luz.

Abro o vento na janela
acordo a música
na manhã que começa.

O dia 11


Não são fanáticos em nome de uma fé, de um ódio, de uma visão apocalíptica do mundo. Não são pequenos grupos de gente marginalizada que fabrica em casa bombas assassinas. Não são adoradores de virgens no céu nem hordas de dementes.

São elites com dinheiro que movem outras elites com conhecimentos. São teias de interesses que movem muitos milhões. São gente com conhecimentos científicos ou que sabe a quem se dirigir. São telemóveis, computadores, internet e chamadas para a morte.

São gente que usa todas as facilidades que tentam combater e destruir. São gente que só conhece os princípios abstractos porque tem uma vivência pragmática.

Como entender? Como tentar explicar?

O medo veio para ficar.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...