25 junho 2006

Portugal vs Holanda

Estou totalmente a favor da nossa selecção. Mas se continuam a massacrar-nos quando começar o jogo já nem me apetece vê-lo!

joguem mais,
chutem mais,
corram mais,
menos ais, menos ais, menos ais…

Procriação medicamente assistida (parte I)

Tem vindo a ser discutida legislação sobre Procriação Medicamente Assistida (PMA). Para além dos aspectos técnicos e científicos da inseminação artificial, número de embriões implantados e outros, os aspectos éticos e de concepção filosófica são importantes, pois a lei parece vedar o acesso à PMA aos casais homossexuais e às mulheres sozinhas.

Não tenho uma opinião muito definida sobre este assunto. Em princípio não se percebe porque é que a PMA não deva ser para todas (os) que a quiserem, ainda por cima em tempo de decréscimo da natalidade.

Mas atentemos nas palavras da sigla: se a procriação tem que ser assistida medicamente é porque há um entrave à sua persecução. Ou seja o médico intervém porque há uma razão médica para tal, porque pelos métodos naturais não é possível conseguir a procriação.

Pelo menos enquanto não houver possibilidade de clonagem humana são necessários dois gâmetas, um masculino e outro feminino, para haver um novo ser. Em termos de fortalecimento e de sobrevivência da espécie, a variabilidade genética é uma mais valia da reprodução sexuada. Por isso talvez a clonagem, quando ela for possível, introduza problemas de sobrevivência da nossa espécie, pelo menos tal como agora pensamos nela.

Assim para que haja um filho, uma cria, o que lhe quisermos chamar, é necessária a intervenção de dois indivíduos de sexos diferentes. A PMA deve portanto corrigir o que é defeituoso para que este encontro de células seja possível e eficaz.

Será que se deve admitir que a medicina interfira num processo quando não há razões médicas para tal?

A nossa sociedade está em constante mutação. A família nuclear, pai, mãe, filhos, tem sofrido mudanças na sua composição. Há famílias com vários pais e várias mães, famílias só com um pai ou só com uma mãe e famílias com dois pais e duas mães.

Olhemos para
"A Convenção sobre os Direitos da Criança":
(…)
Artigo 7
1. A criança é registada imediatamente após o nascimento e tem desde o nascimento o direito a um nome, o direito a adquirir uma nacionalidade e, sempre que possível, o direito de conhecer os seus pais e de ser educada por eles. (…)

É verdade que as mulheres e os homens têm direito a querer ter filhos, a amá-los e a educá-los, e não é a orientação sexual de um determinado indivíduo que o impede de ter essas capacidades e esses desejos.

Mas a criança que vai nascer também tem direitos. No estado actual do conhecimento não há dados que nos permitam assegurar que o comportamento futuro de crianças filhas de casais homossexuais possa ser diferente do das crianças filhas de casais heterossexuais. No entanto, e sempre que possível, o modelo emocional, comportamental e social que se tenta providenciar a todas as crianças é aquele que tem uma figura paterna (masculina) e materna (feminina) porque se pensa, pelo menos por enquanto, que é o ambiente mais saudável para a formação de um ser humano.

É difícil ter certezas nestas matérias, e os argumentos de que é melhor ter dois pais ou duas mães do que estar num orfanato são totalmente falaciosos. Neste caso está a escolher-se um mal menor, que não me parece o mais adequado para consagrar na lei.

Dá-me a sensação que a nossa sociedade europeia de países ricos está a transformar os filhos em mais um bem de consumo. Não sou minimamente fundamentalista mas nestas situações tendo a ser conservadora e acho que a cautela legislativa é de elementar bom senso.

24 junho 2006

Aos escritores desconhecidos


Gosto de folhear os livros esquecidos, entalados e comprimidos entre capas vociferantes. Compreendo as suas vozes silenciosas, os seus sorrisos cúmplices, a ligeira textura poeirenta das páginas escondidas, as cores pálidas das letras.

Gosto de os ler vagarosamente, imaginando os autores despertarem do seu doce adormecimento, limpando as lentes dos óculos, esfregando as mãos, dedilhando palavras secretas e pintando os rios em que embarcamos.




(pintura de Gloria Clancy: the artist)

Blogar


A possibilidade de ir expondo, não se sabe bem a quem, opiniões e estados de alma sobre os mais diversos assuntos, transforma os blogues num manancial de estudo para sociologistas e psicanalistas.

Mas uma coisa que não consigo compreender é a falta de urbanidade de alguns bloguistas, que se envolvem em polémicas irritadas, trocando argumentos em linguagem pouco edificante, em que os temas apresentados se esquecem de imediato, ficando apenas espaço para insultos e insinuações desagradáveis.

Também as caixas de comentários são, para mim, um mistério. A propósito de um “post” aparecem comentários, a maior parte deles de anónimos, que não têm nada a ver com o tema do "post", nem para concordar nem para discordar, dizendo "coisas" e comentando outros comentaristas, a maioria das vezes sem graça e de uma forma grosseira, multiplicando-se e reproduzindo-se em catadupa.

Simultaneamente, estes jornais de parede efémeros, rápidos e superficiais, compilam o que de mais generoso temos e o que de pior somos capazes.


(pintura de Vincent Bennett: reading the news)

O tempo



O tempo corre apagando aplicadamente as pegadas da dor, os ruídos graves, os obscuros tijolos com que construímos muros. A névoa adensa-se e sobram apenas alguns sinais luminosos, que nos guiam teimosamente para diante.


(pintura de Picciotto: time)

22 junho 2006

Explicação (possível)


Essa mulher alaga
os olhos de azul
despegando-se por dentro
da praia que a despe.

Essa mulher enrola
as pernas na areia,
entrançando cócegas
e murmúrios de solidão.

Essa mulher esquece
no sol a vida que veste,
no mar os sonhos que tem.



(pintura de Lez Niepo: on the beach)

Untitled


Mulher na praia

Muitas vezes me tenho perguntado
quem será esta mulher só
que todas as tardes chega à praia
e, sentada sob a sombrinha,
fica olhando o mar.

Talvez busque no azul
resposta para a solidão.

Terá sido criança, amou e foi amada,
mas é claro que sobre isso não sei nada.


(poema de Torquato da Luz; pintura de Torquato da Luz)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...