22 junho 2006

Outra vez Timor

Todo este assunto de Timor Leste cada vez mais deixa transparecer que o grande problema está na luta pelo poder de dois protagonistas: Xanana Gusmão e Mari Alkatiri. A Austrália ou aproveitou a situação, ou acicatou os dois chefes, tentando tirar proveito da situação.

Xanana Gusmão sai muito mal de tudo isto. Não se percebe como é que um presidente pede por carta, que entretanto divulga, a demissão do primeiro-ministro, porque deixa de ter confiança nele, na sequência de uma reportagem efectuada por jornalistas australianos, que implica Alkatiri na organização de grupos ilegais armados, ameaçando-o de ser demitido. Depois, em vez de o demitir (pelos vistos não pode) ameaça que se demite ele próprio. A esposa de Xanana Gusmão dá entrevistas a meios de comunicação australianos (sempre) falando da situação política em Timor e antecipando as atitudes do seu marido, como se a mulher do presidente tivesse alguma função de porta-voz, conselheira, ou outra coisa qualquer, da presidência.

De facto, se Mari Alkatiri mantiver a confiança do seu partido maioritário, como parece que mantém, como sair deste impasse, que o próprio presidente criou?

É surrealista!

A verdade é que parece que Xanana Gusmão está a contar com a Austrália para dominar Mari Alkatiri.

Se não é verdade…

Soma e segue...


Lá ganhámos ao México, um tanto ou quanto esforçadamente! Deu gosto ver jogar o Brasil. O Ronaldo pode estar um boi, mas é um boi muito talentoso!

20 junho 2006

Toque a reunir (II)

Não deixa de ser interessante a forma como o Diário de Notícias trata as mesmas notícias. O que, para o Público é realçado, no DN é dito prazenteira e maciamente, com uma ternura e uma ligeireza, que nos deixa a pensar que o relatório tem uns pequeníssimos reparos a fazer ao ministério. Segundo o Público, quase que se adivinha um pedido de demissão do ministro!

Relativamente ao combate às listas de espera para cirurgias, começa por ser hilariante a designação dos programas: PECLEC e SIGIC. Confesso que já soube o que significavam as siglas mas já me esqueci. Antes de mais, as listas de espera cirúrgicas são irrelevantes. O que é obrigatório contabilizar é o tempo de espera para cada tipo de cirurgia. Além disso, para que as listas de espera sejam reais, tem que haver um registo centralizado de doentes à espera de cirurgia, sendo descarregados os que, entretanto, vão sendo operados, no serviço nacional de saúde ou nos serviços privados, e os que não querem (ou não podem) ser operados.

Nunca percebi bem a filosofia que justificava o pagamento, pelo estado, aos funcionários, do estado, para fazerem, no estado, aquilo que não havia condições de conseguir, no estado. Ou seja, hospitais com um número de cirurgiões específico que não conseguem operar todos os seus doentes, em tempo útil, vão receber dinheiro por operar esses mesmos doentes, nesses mesmos hospitais, nos mesmos blocos operatórios, apenas em horas extra.

Se há horas de bloco não utilizadas, talvez a solução seja rentabilizar os blocos com os cirurgiões, anestesistas, enfermeiros, rentabilizando os recursos humanos (trabalho por turnos, por exemplo). Talvez não fosse má ideia comparar a produtividade nas horas em que se operam SIGIC com a produtividade nas horas normais, para o mesmo tipo de cirurgia, bem entendido.

É como o extraordinário caso do pagamento de horas extraordinárias: um médico A vai fazer horas extraordinárias ao serviço B do hospital B, por vezes pagas a preço de ouro, porque esse hospital B não paga horas a mais aos seus próprios funcionários. Por outro lado, o médico B do serviço B do Hospital B vai fazer horas extraordinárias ao serviço A do Hospital A onde o médico A trabalha, pelo mesmíssimo motivo!

Tudo isto é muito extraordinário, e um exemplo de como NÃO se devem gerir os parcos recursos existentes.

Sou total e completamente a favor da exclusividade para os funcionários de um hospital, que devem trabalhar lá todo o dia, rentabilizando os serviços e os blocos, aumentando a produtividade, o número de cirurgias, etc.

Falarmos todos com um ar sério e preocupado do serviço nacional de saúde, da “diabolização” das profissões liberais, dos doentes, coitados, do preço dos medicamentos, que horror, produzirmos relatórios e cartas abertas, soa a hipocrisia e a cinismo. Há problemas para resolver que não são irresolúveis, mesmo que muitos o queiram fazer parecer!

Toque a reunir

Para não variar, acordei hoje ao som da notícia bombástica da TSF: Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) conclui, no seu relatório anual, que o preço dos medicamentos, nas lojas autorizadas, é superior ao praticado nas farmácias e que, portanto, o governo tinha falhado o objectivo de baixar o preço dos medicamentos, com a liberalização do local de venda ao público (medicamentos que não necessitam de receita médica). E disse também que o governo não tinha uma estratégia para a saúde e que, embora tecnicamente seja correcto fechar as maternidades, não tinha sabido explicar essa medida aos autarcas e às populações.

Quando cheguei a casa, no Público on-line, o coordenador do observatório, Pedro Ribeiro, acha que é cedo para ter dados credíveis, e que são necessários mais estudos para se ser taxativo.

Depois parece que afinal, segundo dados do INFARMED, os preços dos medicamentos estão a subir, comparados com os que começaram a ser praticados pelas lojas que, em Outubro, tinham uma diferença de 15%, para baixo, relativamente a Agosto (antes da venda livre). O que o estudo não diz, pelo menos não vi, é se os preços nas farmácias se tinham mantido, subido ou baixado.

O ministro Correia de Campos, ou um dos seus secretários de estado, também não estava claro, diz que o relatório é mentiroso, que não está fundamentado, e que o Observatório perde a credibilidade que tinha. Por coincidência, Constantino Sakellarides pediu a demissão que nada tem (a demissão), obviamente, a ver com tudo isto.

Mais interessante é um carta aberta, escrita pelos bastonários das Ordens dos médicos, dentistas, farmacêuticos e enfermeiros, denunciando uma “ofensiva mercantilista” ao sector da saúde (não consegui ler o documento) que, por coincidência, aparece após a autoridade da concorrência se pronunciar relativamente à liberalização da propriedade das farmácias e à ilegalidade perpetrada pela Ordem dos médicos ao fixar uma lista de preços mínimos e máximos por consultas (e outros actos médicos). Gostei do artigo do Vital Moreira, a propósito, ao qual tive acesso através da Câmara Corporativa.

18 junho 2006

Desligar


Desliguei as luzes e, teimosamente, pisca ainda o botão verde do monitor. Olho sem compreender se falta ainda mais algum pormenor do mundo que não possa ser ignorado.

Em terras das quais tudo desconheço, até o nome, não fazem falta as minhas leituras, as minhas análises, os meus anseios e receios. A teoria do anti caos determina a total inutilidade do comprometimento.

Aproximo o dedo e carrego no botão, aceitando a bênção da ignorância.



(pintura de Denis Mezentsev: map of the world)

Ideologias

A discussão à volta dos desvios do PS para a direita, da crise da direita e, por consequência, da crise da esquerda, é artificial e pretende apagar diferenças ideológicas quando o que está em causa são diferenças de prática num mesmo espaço ideológico.

Sócrates, enquanto líder do PS, tem tentado imprimir um pragmatismo que os partidos de direita proclamam como seu.

A crise económica tende a misturar o que são medidas de reorientação e reorganização das despesas do estado, com a definição ideológica do papel do estado na sociedade europeia. O saneamento das contas públicas é essencial para se conseguir a manutenção daquilo a que se convencionou chamar estado social.

Redefinir e melhorar a educação pública, exigindo rigor e resultados, pedindo às escolas uma pedagogia de qualidade, é apostar que esta é uma função obrigatória do estado. Impor uma filosofia de serviço na administração pública é coincidente com a redução do número de funcionários, com a avaliação exigente e com a progressão por mérito.

A concentração de esforços e de meios, a reorganização dos serviços, a redistribuição dos recursos humanos, nomeadamente na saúde, pretende fazer face ao enorme crescimento de despesas pela existência de cada vez mais meios de diagnóstico e terapêutica a que TODOS têm direito, e que o serviço nacional de saúde deve assegurar.

A defesa e o respeito pelos cidadãos, assim como o ataque aos privilégios corporativos, com o objectivo da justiça em termos retributivos e de esforço fiscal, não é uma bandeira de direita.

Durante muitos anos confundiu-se ideologia de esquerda com laxismo, negligência, mediocridade e “amiguismo”, e estou a falar particularmente do PS. No limite, este estado de coisas leva à descrença no papel do estado e à noção do individualismo cego, da desagregação das comunidades pela lei do mais forte. O princípio do "utilizador-pagador" é perigoso e enganador, dando a ideia de que só tem direitos quem paga, o que acentua as desigualdades e semeia insatisfações.

O princípio solidário da contribuição social pelos impostos, desde que TODOS paguem proporcionalmente ao que ganham, é um cimento de coesão social e um meio de responsabilização dos governantes eleitos.

Não me parece que o PS de Sócrates tenha abdicado destes princípios. Espero que tenha assumido também o princípio da autoridade do estado que, sem ser de esquerda nem de direita, é um dos pilares de um estado democrático.

17 junho 2006

Às vezes


Às vezes precisamos virar a alma do avesso, dormir quando antes acordávamos, viver quando antes agonizávamos.

Abro e fecho os livros à procura da palavra, do poema, da luz que me acenda vontade e enleio. São os poetas que convoco neste apelo mudo, é dos poetas que exijo clarividência e sentimentos expostos.

Às vezes o toque dos dedos nas folhas, o cheiro do papel, a mansidão das letras que se entregam aos nossos lábios, conseguem acalmar o anseio. Solenemente, ouço vozes cadenciadas que lentamente me soletram a paz.


(pintura de Joan Miró)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...