20 junho 2006

Toque a reunir

Para não variar, acordei hoje ao som da notícia bombástica da TSF: Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS) conclui, no seu relatório anual, que o preço dos medicamentos, nas lojas autorizadas, é superior ao praticado nas farmácias e que, portanto, o governo tinha falhado o objectivo de baixar o preço dos medicamentos, com a liberalização do local de venda ao público (medicamentos que não necessitam de receita médica). E disse também que o governo não tinha uma estratégia para a saúde e que, embora tecnicamente seja correcto fechar as maternidades, não tinha sabido explicar essa medida aos autarcas e às populações.

Quando cheguei a casa, no Público on-line, o coordenador do observatório, Pedro Ribeiro, acha que é cedo para ter dados credíveis, e que são necessários mais estudos para se ser taxativo.

Depois parece que afinal, segundo dados do INFARMED, os preços dos medicamentos estão a subir, comparados com os que começaram a ser praticados pelas lojas que, em Outubro, tinham uma diferença de 15%, para baixo, relativamente a Agosto (antes da venda livre). O que o estudo não diz, pelo menos não vi, é se os preços nas farmácias se tinham mantido, subido ou baixado.

O ministro Correia de Campos, ou um dos seus secretários de estado, também não estava claro, diz que o relatório é mentiroso, que não está fundamentado, e que o Observatório perde a credibilidade que tinha. Por coincidência, Constantino Sakellarides pediu a demissão que nada tem (a demissão), obviamente, a ver com tudo isto.

Mais interessante é um carta aberta, escrita pelos bastonários das Ordens dos médicos, dentistas, farmacêuticos e enfermeiros, denunciando uma “ofensiva mercantilista” ao sector da saúde (não consegui ler o documento) que, por coincidência, aparece após a autoridade da concorrência se pronunciar relativamente à liberalização da propriedade das farmácias e à ilegalidade perpetrada pela Ordem dos médicos ao fixar uma lista de preços mínimos e máximos por consultas (e outros actos médicos). Gostei do artigo do Vital Moreira, a propósito, ao qual tive acesso através da Câmara Corporativa.

18 junho 2006

Desligar


Desliguei as luzes e, teimosamente, pisca ainda o botão verde do monitor. Olho sem compreender se falta ainda mais algum pormenor do mundo que não possa ser ignorado.

Em terras das quais tudo desconheço, até o nome, não fazem falta as minhas leituras, as minhas análises, os meus anseios e receios. A teoria do anti caos determina a total inutilidade do comprometimento.

Aproximo o dedo e carrego no botão, aceitando a bênção da ignorância.



(pintura de Denis Mezentsev: map of the world)

Ideologias

A discussão à volta dos desvios do PS para a direita, da crise da direita e, por consequência, da crise da esquerda, é artificial e pretende apagar diferenças ideológicas quando o que está em causa são diferenças de prática num mesmo espaço ideológico.

Sócrates, enquanto líder do PS, tem tentado imprimir um pragmatismo que os partidos de direita proclamam como seu.

A crise económica tende a misturar o que são medidas de reorientação e reorganização das despesas do estado, com a definição ideológica do papel do estado na sociedade europeia. O saneamento das contas públicas é essencial para se conseguir a manutenção daquilo a que se convencionou chamar estado social.

Redefinir e melhorar a educação pública, exigindo rigor e resultados, pedindo às escolas uma pedagogia de qualidade, é apostar que esta é uma função obrigatória do estado. Impor uma filosofia de serviço na administração pública é coincidente com a redução do número de funcionários, com a avaliação exigente e com a progressão por mérito.

A concentração de esforços e de meios, a reorganização dos serviços, a redistribuição dos recursos humanos, nomeadamente na saúde, pretende fazer face ao enorme crescimento de despesas pela existência de cada vez mais meios de diagnóstico e terapêutica a que TODOS têm direito, e que o serviço nacional de saúde deve assegurar.

A defesa e o respeito pelos cidadãos, assim como o ataque aos privilégios corporativos, com o objectivo da justiça em termos retributivos e de esforço fiscal, não é uma bandeira de direita.

Durante muitos anos confundiu-se ideologia de esquerda com laxismo, negligência, mediocridade e “amiguismo”, e estou a falar particularmente do PS. No limite, este estado de coisas leva à descrença no papel do estado e à noção do individualismo cego, da desagregação das comunidades pela lei do mais forte. O princípio do "utilizador-pagador" é perigoso e enganador, dando a ideia de que só tem direitos quem paga, o que acentua as desigualdades e semeia insatisfações.

O princípio solidário da contribuição social pelos impostos, desde que TODOS paguem proporcionalmente ao que ganham, é um cimento de coesão social e um meio de responsabilização dos governantes eleitos.

Não me parece que o PS de Sócrates tenha abdicado destes princípios. Espero que tenha assumido também o princípio da autoridade do estado que, sem ser de esquerda nem de direita, é um dos pilares de um estado democrático.

17 junho 2006

Às vezes


Às vezes precisamos virar a alma do avesso, dormir quando antes acordávamos, viver quando antes agonizávamos.

Abro e fecho os livros à procura da palavra, do poema, da luz que me acenda vontade e enleio. São os poetas que convoco neste apelo mudo, é dos poetas que exijo clarividência e sentimentos expostos.

Às vezes o toque dos dedos nas folhas, o cheiro do papel, a mansidão das letras que se entregam aos nossos lábios, conseguem acalmar o anseio. Solenemente, ouço vozes cadenciadas que lentamente me soletram a paz.


(pintura de Joan Miró)

Troncos


Como troncos que se isolam,
delicados madeiros transviados,
braços com nós e veias
barcos náufragos no tempo,
assim seremos nesse momento
de terra árida e mar sem fundo,
no fim do mundo.



(exposição de fotografias, até 8 de Julho, na Sala da Nora, em Castelo Branco - Barragem de Santa Águeda / Marateca - um olhar diferente)

Já está!


Desta vez foi a valer! Muito sofrimento e nervosismo mas foi um jogo bem jogado da parte da nossa selecção.

É preciso afinar os pontapés e as fintas para a próxima fase. Segundo percebi, enfrentaremos a Argentina ou a Holanda. Não sei o que será pior!

Venha quem vier, o mundial faz-se jogo a jogo. Se este correu bem, porque não há-de correr o próximo?

Espectáculo a sério é ver o show das claques. A imaginação e paciência dos torcedores, as vestimentas, os chapéus e as pinturas, dão um colorido maravilhoso às bancadas!

Portugal vs Irão



É hoje que vamos fazer um grande jogo. É hoje que vamos impedir que o presidente iraniano se desloque à Alemanha, para apoiar o Irão.

Para o melhor e para o pior, o futebol pode fazer a diferença.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...