09 junho 2006

A honra perdida

É um engano pensarmos que estamos num estado de direito.

Li hoje, no “Expresso on-line”, uma notícia sobre a conclusão do processo dos atestados falsos, que teriam justificado as faltas de alunos às provas globais. Isto ter-se-á passado em 1999.

Sete anos depois, já os alunos terão entrado nas universidades e, pelo menos alguns deles, já terão acabado os cursos, prova-se que… nada ficou provado.

E tem mesmo que ser assim. Se tivesse ficado provado que os atestados eram falso, qual seria a penalização dos alunos vigaristas? Desfaziam os cursos que entretanto tinham acabado? Davam-nos, já prontinhos, aos que, eventualmente, teriam sido ilegalmente ultrapassados? Já não há nada que possa alterar semelhante situação.

Para não falar dos 70 médicos que atestaram por sua honra que 300 alunos sofriam de stress e ansiedade. Que lhes aconteceu no entretanto? Quem mais vai acreditar neles, seja para o que for? Que é feito da sua honra?

Mas a verdade é que não foi possível demonstrar que não estivessem doentes. Nunca é. Pelo menos neste país, 7 anos depois da alegada doença!

06 junho 2006

Nós


Dobro o joelho lentamente
na volúpia de te tocar,
com a mão em concha
afago-te o ombro,
tacteio-te a discreta
rugosidade da pele.

Supérflua a roupa,
desajeitadamente retirada
com delicadeza e deleite.

Jogamos a ternura do enlace
desapertamos os beijos,
rolamos e atamos de nós
as pernas e os braços que temos.

Amanhã sonharemos.

(escultura de Edward Walsh: lovers)

Genética



Tudo o que escrevo
é a transcrição
de bases alinhadas lado a lado,
duma dupla hélice
de amor e carne
que se abre,
não sei por que ordem
ou por que código secreto,
para ser copiada
e replicada,
repetida e disciplinadamente
até que o infinito
dê por finda
a minha vida.

Seis do Seis de dois mil e Seis


Exactamente!

Se há dias de tudo e mais alguma coisa, o dia do Diabo, Besta, Satã, e todos os outros, por maioria de razão, está perfeitamente bem!

Belo dia para diabolicamente saborear o prazer satânico de preguiçar.


(pintura de William Blake: The Number of the Beast is 666)

Correntes

E que tal uma corrente de e-mails contra mais uma greve entre um feriado e o fim de semana? E que tal uma corrente de sms a favor da verdadeira discussão da verdadeira avaliação dos verdadeiros profissionais?

E que tal uma corrente de indignação pelos péssimos manuais escolares? E um cartaz gigantesco em frente à residência oficial do 1º ministro contra os currricula infantilizados e imbecis? E uma marcha contra a violência nas escolas? E uma marotana a favor dos exames nacionais?

Contemplação

Já estava preparada para me levantar, como é meu hábito e vício, maquinalmente rodar a chave da ignição e começar o dia.

Quando o bafo do ar se entranhou no meu corpo, as pedras da calçada levantaram-se e impediram passos inconscientes.

Luziu-me a espera e os dedos repousaram: descanso, preciso de contemplação.

Pontuação

Para quem lê, a pontuação funciona como sinais de trânsito, avisando paragens, respirações, perguntas e admirações, pausas, sorrisos ou suspensões. Serve a liberdade de quem escreve mas limita a liberdade de quem lê.

De certa forma, se a poesia for encarada como uma expressão ligeiramente anárquica do pensamento, que estimule a associação livre de palavras e ideias, a falta de pontuação pode perder o leitor, mas pode tatuar-lhe melhor o poema, visto que se cola à verdadeira medida da sua pele.

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...