06 junho 2006

Interdependência

Dizem-me que o contraste entre a minha fúria e a minha quieta e contemplativa poesia é estranha. Penso muitas vezes que somos várias pessoas, umas dentro das outras, em camadas concêntricas, com canais comunicantes, vasos e nervos, para uma nutrição partilhada.

Por vezes há adormecimentos focais, raramente permanentes, comas superficiais e estados catatónicos.

Nem sempre é fácil conviver com esta comunidade de interdependências.

Pedra


A pedra é uma pedra porque lhe chamamos pedra,
a existência é, porque a nomeamos,
as palavras são a realidade.

Somos uma espécie de suspensão da natureza,
pendentes entre o concreto e a forma como o destacamos.

Organicamente podemos compreender a alma,
se a dissermos passamos a ser parte dela.


(pintura de Ian Gray: Islay Stones)

05 junho 2006

Quietude


Havemos de encontrar
dias de gotas azuis
espadas de gelo derretido,

havemos de saborear
palavras dóceis
doces como um veneno,

havemos de correr
os dedos pelo trigo
duma mansa quietude,

havemos de nos amar
consumidos de virtude
no vício de procurar.



(pintura de Almada Negreiros)

03 junho 2006

Paridade sem quotas


Ser contra a lei da paridade que o PS (e o Bloco de Esquerda) quer aprovar e que Cavaco Silva vetou não é ser de direita. Ser contra a descriminação (mesmo a positiva) não é ser de direita.

Não concordo com as quotas e acho uma hipocrisia tentar impor-se a participação das mulheres na política por meios que as diminuem.

Se os partidos de esquerda querem promover a igualdade de oportunidade entre os géneros, promovam a flexibilização dos horários das reuniões políticas, alterem as regras dos partidos que funcionam como clubes de confraternização masculina.

Acabem com a censura aos homens que têm que ir com os filhos ao médico, ou às reuniões da escola, ou buscá-los aos infantários.

Se libertarem as mulheres das tarefas que lhes são impostas, apenas pelo facto de serem mulheres, talvez elas mostrem mais interesse na política.

(pintura de Ogambi: carrying water with children)

Curtas

Embora mergulhada no trabalho, tenho mantido os olhos e os ouvidos mais ou menos à tona, de modo a aperceber-me do que se vai passando.

Parece-me totalmente despropositada a reacção do presidente da Ordem dos Médicos no que diz respeito à multa decretada pela Autoridade da Concorrência. A Medicina é uma profissão liberal e como tal deve ser tratada, como todas as outras profissões liberais. Uma coisa é recomendar preços máximos, outra muito diferente é publicar tabelas obrigatórias de preços mínimos e máximos, acusando quem as não pratica (principalmente às dos mínimos) de concorrência desleal.

Os tribunais servem para decidir, quando há interesses antagónicos em disputa. Dizer que a Ordem não pagará jamais, é uma posição precipitada e que revela alguma sobranceria. Ou não?

A novela do estatuto da carreira docente continua, com a proverbial e já mais que publicitada greve de professores. A banalização deste tipo de greves já é tanta que, mesmo que alguma razão algum dia lhes assista, ninguém lhes liga, e a reacção que provocam é de irritação e enfado.

Anunciou-se mais uma lei para a mobilidade dos funcionários públicos. Não sei porque é que o governo não assume frontalmente que precisa urgentemente de reduzir o número de funcionários públicos e que está a fazer um esforço para tal, em vez de usar meias palavras e legislação para fazer… isso mesmo!

É claro que os sindicatos estão contra, mas também estão sempre, contra esta ou qualquer outra reforma.

Mas uma coisa é certa. O desemprego vai aumentar e há muita gente que se deve sentir muito preocupada. De facto há inúmeros funcionários na administração pública que não são precisos, e que foram sendo contratados pelos diversos partidos que ocuparam alternadamente o poder. Mas será possível que essas pessoas encontrem outro emprego, no sector privado? Parece-me muito pouco provável! Como reconverter esses profissionais?

Isto se as leis que agora se anunciam não tiverem efeito só daqui a 10 anos!

Não deixa de ser extraordinário ouvir o PSD armar-se em defensor dos professores e em crítico da política de falta de disciplina e exigência que vem sendo seguida de há 30 anos para cá, esquecendo-se das suas enormes responsabilidades nessas matérias! Sem falar do dia do cão!

30 maio 2006

Serviço público

Todos sabemos que a Ministra da Educação tem razão quando fala da organização dos horários e da formação das turmas, do cumprimento burocrático e da falta de orientação e motivação das escolas.

Todos sabemos que é verdade que nas várias instituições do Estado, que deveriam providenciar os melhores serviços a todos os cidadãos, ter funcionários exemplares que entendam o que é serviço público, está instalado o laxismo, o deixa andar, o tanto faz fazer muito como pouco. Estou a referir-me a escolas, centros de saúde, hospitais, tribunais, serviços de finanças, etc.

Deixemo-nos pois de gritinhos de espanto e poses de virgens ofendidas e desvirginadas quando o ouvimos dizer, alto e claramente, por quem deve zelar para que as coisas mudem.

Deixemos pois de clamar contra o governo e contra o parlamento e contra o presidente. Somos nós, como sociedade, que temos que nos exigir mais. Premiar quem merece, punir quem não merece.

As reestruturações das várias carreiras são indispensáveis. As progressões por mérito, por concursos públicos, por capacidades, por dedicação, são imperiosas, como imperioso é avaliar a competência dos profissionais, desde os mais altos responsáveis.

Não se admitem mais conjuntos de frases bombásticas da parte de quem diz que defende mas só desacredita os verdadeiros profissionais.

Cortar

Ontem, Medina Carreira no seu melhor. Penso que não devemos preocupar-nos com a despesa, com os impostos, com o emprego, com o país, visto que não tem solução, visto que ainda não estamos preparados para as verdadeiras, as fundamentais, as profundíssimas reformas que ele, Medina Carreira, sabe que são necessárias. Não diz é quais.

Sabe que Teixeira dos Santos diz uma parcela da verdade, mais precisamente 20%, mas que os restantes 80%, em que estão incluídos os serviços de saúde, de educação, subsídios de desemprego, de maternidade, etc, estão envoltos em brumas e cortinas de fumo.

Porque não nos disse ele então como cortar nesses 80%? Passamos a ter que pagar a educação, as consultas médicas, os internamentos hospitalares? Deixamos de receber 13º e 14º meses, subsídio de desemprego, subsídio de alimentação? Deixamos de ter direito aos 4 meses de parto, subsídios de funeral, abonos de família?

O quê? Eu estou preparada! Acho é que Medina Carreira não está preparado para mo dizer!

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...