22 maio 2006

Nuclearzinho

A pouco e pouco, com debates e opiniões lançadas e debatidas pela “entourage” de Patrick Monteiro de Barros, já se fala de um REFERENDO a propósito da construção de uma central nuclear.

A mim crescem-me os anticorpos a tudo o que diga respeito a esse senhor. A opção energética está a ser feita a reboque das ambições empresariais de uma pessoa que, inclusivamente, já anda a sondar câmaras municipais.

Qual será o preço que o país está disposto a pagar? Será que está disposto? Quais serão os responsáveis políticos que vão ter a coragem de assumir frontalmente essa discussão, dando a cara por ela?

O Sr. Engenheiro Sócrates, muito caladinho, anda a ver no que vão parar as modas. A conversa cheira a mentira, perdão, a inverdade.

21 maio 2006

Entre gatos


Espreguicei-me num arco tenso
mãos esticadas pernas flectidas
pêlos eriçados e miar de gato.

Ronronei pelo teu nome
enrosquei-me nas tuas pernas
e fechei os olhos.

Agora em curva convexa
os nossos dedos na conversa
em mansa e sedosa concavidade.



Entre sombras e gatos, até as nuvens nos acolhem.

(pintura de Javier Azurdia: Dos Gatos en Paris)

Ups...

Esqueci-me do CDS/PP. Porque terá sido?

Onde está a oposição?

Está a acabar mais um congresso do PSD. Que se arrastou penosamente, sem glória, sem que se vislumbrasse qualquer novidade, qualquer ideia, qualquer rumo. Dá a sensação de que há algumas pessoas que se vão posicionando e manobrando nos bastidores, para deixar torrar em fogo lento Marques Mendes, que se presta a esse papel, até daqui a cerca de 2 anos. Tenho um palpite que Paula Teixeira da Cunha está insidiosamente a ocupar espaço…

Do Bloco de Esquerda não se sabe. Como as pessoas se fartaram dos temas fracturantes como o aborto, o casamento dos homossexuais e as uniões de facto, desapareceram de circulação. Será que estão a incubar mais temas para nos fracturar?

Do Partido Comunista, tivemos um vislumbre na 6ªfeira, junto aos manifestantes da função pública. Jerónimo de Sousa já perdeu a graça, pelo menos junto dos média, que o têm levado ao colo desde que assumiu a direcção do partido. O mais hilariante era ele, como candidato a Presidente da República (um cargo UNIPESSOAL), empregar sempre a 3ª pessoa do plural na conjugação dos verbos: faríamos, achamos, gostaríamos…

Os sindicatos da função pública estrebucham antes do estertor final. Ninguém lhes liga, ninguém sabe porque lutam, quem representam, etc. Eles próprios perderam totalmente o contacto com a realidade, convocando mais uma greve e mais uma GGGRRRAAANNNDDDEEE manifestação (parecem o Jorge Coelho), a uma 6ª feira, contra, entre outras banalidades repetidas desde que apareceram (há cerca de 30 anos), a reforma da administração pública!!!

E assim continuam José Sócrates e os seus ministros, sem qualquer fiscalização, sem qualquer oposição digna desse nome, a falar da retoma da economia, da diminuição do desemprego, a mostrar-nos pessoas como o Vitalino Canas, o António Vitorino e outros, a aguentar o Souto Moura, a lançar “bocas” para o ar, para ver se pegam (como o caso da hipótese de acabar com o 14º mês para os reformados) em vez de assumirem frontalmente as suas políticas, a enredarem-se em contradições.

Triste país o nosso!

Não, não sou pessimista. Sou realista. Somos um povo inacreditável!

20 maio 2006

LSD natural


Não sei que reacções químicas se passam no meu cérebro idênticas, com certeza, a um potente alucinogénio. Às vezes isolo-me dos ruídos ambientes, da mesa de café, das companhias e começo a observar quem passa.

Repentinamente as proporções dos corpos das pessoas, as dimensões das orelhas, das cabeças, dos braços, dos narizes, os penteados, as roupas, os sorrisos, os olhares, o alheamento de alguns, a ternura de outros, adquirem novas cores e significados.

Nos primeiros dias de praia sou capaz de redigir um tratado apenas baseado na observação dos pés dos banhistas. É extraordinário como os calos, as unhas, os joanetes, os tornozelos, os inchaços, as cores do verniz, a inexistência dele, as chinelas, os saltos, enfim, toda uma panóplia de acessórios de podologia informam sobre a personalidade, a felicidade, o trabalho, a família, a classe social, de todos nós.

Se estivesse a ver a humanidade através de uma lente de aumentar, deslocando-a para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, em que certos pormenores se tornavam grotescos, enternecedores, admiráveis pela sua grandeza, não seria mais aterrador...

Renovar a descrição


Há quanto tempo, Portugal, há quanto
vivemos separados! Ah, mas a alma,
esta alma incerta, nunca forte ou calma,
não se distrai de ti, nem bem nem tanto.

Sonho, histérico oculto, um vão recanto…
O rio Furness, que é o que aqui banha,
só ironicamente me acompanha,
que estou parado e ele correndo tanto…

Tanto? Sim, tanto relativamente…
Arre, acabemos com as distinções,
as subtilezas, o interstício, o entre
a metafísica das sensações –

Acabemos com isto e tudo o mais…
Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!

(poema de Álvaro de Campos, caricatura de Almada Negreiros)

Descodifiquemos...


Acho engraçadíssima a preocupação de certas pessoas assegurarem que não leram “O código Da Vinci” mas que acham que o livro representa a literatura menor, de aeroporto, como agora se diz. E que nem sequer vão ver o filme porque (para as mesmas pessoas) de certeza que não vale a pena, a julgar pelo marketing, deve ser uma grande produção comercial, sem nenhuma qualidade, exactamente como o próprio livro e (suspeito eu) o próprio autor.

Habitualmente os filmes cujos argumentos são adaptações de livros são uma desilusão. Entre as honrosas excepções, e que me venham à memória, contam-se “África minha”, “A insustentável leveza do ser” e “O nome da rosa”.

Os dois primeiros conseguiram transmitir e recriar as atmosferas dos livros, respirando-se a beleza e a imensidão de África, a ternura melancólica e doce na ex-Checoslováquia ocupada. O terceiro filme não pretende ser uma cópia fiel do extraordinário livro de Umberto Eco, mas é um excelente filme policial em que o ambiente obscurantista e miserável da idade média está muito bem retratado.

Li “O código Da Vinci” vorazmente e essa é uma das virtudes do livro. Está escrito de uma forma que prende o leitor do princípio ao fim, não lhe dando tréguas. Tem um tema fantástico, utilizando as várias teorias que pululam sobre Jesus Cristo e Maria Madalena, misturando-as com secretismo e esoterismo, fanatismo religioso, maçonarias e ordens secretas, códigos por decifrar e arte.

É um livro com personagens a traço grosso, sem grandes veleidades de modelação psicológica ou de grandeza literária. É um livro de aventuras, que entretém muitíssimo e que, quanto a mim, cumpre bem a sua função.

Por acaso não estou com muita vontade de ir ver o filme, porque não gosto de me desiludir e tenho um preconceito relativamente aos eventos muito badalados. Mas parece haver uma estranha unanimidade entre alguns intelectuais, idêntica à unanimidade entre os guardiães da fé, que já “condenou” o livro e que agora "condena" o filme…

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...