01 abril 2006

A tradição

O PS ganhou as eleições com maioria absoluta. O governo, desde a tomada de posse, adoptou uma posição determinada, empreendedora e reformista.

Para tanto, umas vezes com recurso ao populismo e outras ao autoritarismo, iniciou um discurso positivista, propagandeando as medidas, mesmo antes de as tomar, enchendo os noticiários com promessas de melhores dias, se se fizessem determinados sacrifícios, afrontando corporações e privilégios, apelando ao trabalho e ao rigor.

Para além da propaganda começou, de facto, a mexer na estrutura do país. Com medidas mais ou menos consensuais, mais ou menos acertadas, mexeu na educação, na saúde, na justiça, na segurança social e, agora, prepara-se para fazer uma reforma na administração pública.

Mais ou menos cabalísticas no número, as medidas que levem à desburocratização do estado, à reorganização, concentração e redistribuição dos recursos humanos na administração central são indispensáveis para o controlo do défice, para a modernização do país e para melhor servir os cidadãos. O fecho de escolas e maternidades, como a reorganização das freguesias, concelhos e distritos, regiões administrativas, etc, é inevitável.

Como é impossível estar em desacordo com tudo isto, o combate político deixou de fazer-se relativamente ao modo como se deve actuar, às prioridades da governação ou à justeza de determinados princípios, para se passar a fazer à volta da capacidade do governo implementar todas estas reformas.

De facto, e olhando para o que se passou nos últimos trinta anos, é preciso cepticismo e não cair em optimismos irrealistas no que diz respeito às capacidades reformadoras dos governos, do PS, do PSD, do PSD/CDS, de todos.

Mas é bem o espelho da nossa sociedade e da nossa cultura do “bota-abaixismo” o coro de profetas da desgraça em que se adivinham todos os receios e cobardias do governo, pressionado pelo aparelho do partido, pelos funcionários públicos, pelos agricultores, e por todas as forças que só querem mudar quando não se muda, e o recuo do primeiro-ministro, entupindo o túnel por onde se vislumbrava uma luz.

Jornalistas, comentadores, partidos da oposição, sindicatos, todos juntos contra o que se anuncia, uns, contra o que, estão certos, o governo não conseguirá fazer, outros.

Segundo Marques Mendes, o défice de 6% em 2005 é a primeira derrota do governo, como se não fosse a derrota de todos nós. Marques Mendes deseja o incumprimento dos planos do governo, mas é incapaz de demonstrar qual a solução, tal como os seus correligionários de partido o não demonstraram, em todos os anos que foram governo.

Não só não somos capazes de fazer bem como somos incapazes de olhar com o mínimo de confiança para o futuro, assim como de elogiar quem tenta fazer melhor.

A tradição continua a ser o que era.

31 março 2006

Bur(r)ocracia

Há cerca de três anos precisei de passar uma procuração para resolver um assunto, pois não me encontrava presente na altura aprazada.

Pensando que estava a realizar um grande feito, resolvi escrever o documento no computador, com letra Arial 11, a espaço 1,5, com justificação à direita e à esquerda, sublinhados e bolds, datas e nomes completos, todos os números de que me consegui lembrar, enfim, a parafernália dos documentos oficiais.

Faltava apenas a assinatura, que tinha que ser presencial e reconhecida. Daí a ida ao notário.

Foi antes da privatização. O notário ficava no 2º andar de um prédio velho, sem elevador, e deitava filas por fora, já na escada do 1º andar.

Depois da senha e da respectiva espera, por acaso até nem foi muita, apresentei o papel impresso com os dizeres e as identificações, preparada para assinar, pagar e sair.

Que não, que não podia ser assim, que tinha que ser um documento manuscrito, presencial, assinado na altura, em frente dela (a funcionária), que era o que a lei dizia.

Apeteceu-me pedir-lhe logo a tal lei, para que constatasse com os meus próprios olhos o anacronismo da mesma, mas estava com pressa.

Por isso, estiquei-me toda (sou muito baixa) para escrever com letra legível (o que para mim é sempre uma tarefa árdua) um documento na presença da funcionária, para que ela atestasse da veracidade do dito.

Qualquer medida que este governo tome para mudar este estado de coisas (burocracia e funcionário(a)s pouco iluminado(a)s) tem o meu apoio incondicional, aplaudido e agradecido!

MARL - realidade virtual


Alguém sabe o que é o MARL? Já alguém foi ao MARL?

O MARL é o Mercado Abastecedor da Região de Lisboa, SA. Como o próprio nome indica, serve para que os comerciantes se vão abastecer de comida, fruta, peixe, congelados, vinho, queijos, flores, etc.

O meu contacto com o MARL deveu-se à vontade de comprar um produto dos Açores, mais precisamente vinho da ilha do Pico, comercializado pela Companhia dos Açores, que, depois de vários e-mails sem resposta, informou que os seus produtos estavam à venda no “El Corte Inglês” e no MARL. Apesar de estremecer de horror, lá se foi ao “El Corte Inglês”, que não tinha pois estava esgotado na origem. Pouco depois a Companhia dos Açores informou que lamentava que tivessem dito isso, mas que havia vinho do Pico no MARL.

Excursão até ao MARL, que imaginava eu seria uma babel de gente formigando e comprando e transportando, com estrépito e confusão, com as cores das vozes e das flores, os sons dos camiões e os cheiros do peixe, assim como uma praça monumental.

Engano meu.

Ontem, às 22 horas, já que passámos perto, resolvemos ir ao MARL. Pouco iluminado e com muito poucas indicações, lá chegámos a um recinto enorme, com grandes estruturas de tipo armazéns, fechados, dispostos paralelamente, divididos em 2 grandes grupos, com nomes que não fazem minimamente lembrar o que se poderá lá encontrar.

Ninguém à vista. Deserto noctívago e melancólico. De vez em quando passava uma camioneta. Parámos num café, que lá estava perdido, e perguntámos onde poderíamos encontrar a “Companhia dos Açores”. Ninguém fazia ideia. Perguntámos na estação de serviço, única coisa bem iluminada de todo aquele conjunto, que nos indicou um aglomerado de armazéns dispostos junto a uma rua que subia com inclinação assustadora.

Encontrámos um segurança (finalmente!) que nos assegurou que havia uma “Companhia dos Açores”, mas que estava fechada, àquela hora.

Lá pagámos 1.15 euros.

Hoje decidimos que às 18 horas devia estar aberto. E rumámos à CREL, depois desviámos para o MARL, onde vimos placas indicadoras para S.Julião do Tojal, indo direitos aos tais armazéns mais acima.

O deserto noctívago reproduziu-se nesta tardinha, não havia quase ninguém, nem placas a indicar onde estão as frutas, ou o peixe, ou os automóveis, ou outra coisa qualquer.

Quando desistíamos, um senhor que passava por lá disse-nos que lhe parecia que a “Companhia dos Açores” era ali atrás.

De facto, eureka, encontrámos, na parede, letras que diziam “Companhia dos Açores”, com um número de telefone. Como parecia tudo fechado (há vários anos) resolvemos telefonar. O telefone nem sinal dava, mesmo com rede. Subimos umas escadas íngremes e suspeitas, com a promessa dos “escritórios”, mesmo ao lado dos "sanitários". Fomos dar a uma porta fechada. Depois de muitas campainhadas não correspondidas, abandonámos o MARL (não esquecer mais 1.15 euros, a dinheiro, pois não se podem usar cartões).

Portugal no seu melhor!!

29 março 2006

Manobras publicitárias

Independentemente do mau gosto associado ao título do livro de João Pedro Jorge, ao incluir o nome de Margarida Rebelo Pinto (na minha opinião, claro está), parece-me ainda de pior gosto a tentativa desta de impedir a venda do livro.

Ou será uma manobra publicitária de João Pedro Jorge, a escolha de tal nome? Ou será uma manobra publicitária a acusação de Margarida Rebelo Pinto a João Pedro Jorge pela diminuição da venda dos seus livros? Ou será uma manobra publicitária das editoras Oficina do Livro e Objecto Cardíaco?

Acho tudo isto ridículo, muito ridículo!

Debates mensais

Pelo que percebi, os debates mensais no parlamento versam temas escolhidos pelo governo.

Uma das missões do parlamento é a fiscalização da actividade executiva. Mas se quem escolhe as matérias a discutir é o governo, é claro que só se falará daquilo que o governo quiser, por muito habilidosos que os partidos da oposição sejam.

Ora como este governo emana de um partido que tem maioria absoluta na assembleia, como o primeiro-ministro tem falado com uma autoridade absoluta, perto do absolutismo autoritário, e como a habilidade destes partidos de oposição deixa muito a desejar, os debates mensais são mais monólogos mensais, com gritos e palmas.

Uma encenação pouco atractiva para os cidadãos. Uma comédia, ou mesmo uma tragicomédia!

28 março 2006

Untitled


CA-DÁ-VER

Estendo-me na morte,
ainda em lençóis de vida:
as enzimas alerta,
a catálise certa
na carne arrependida.
Preparo-me sangrando
só na circulação:
bate a ritmo brando
meu áspero coração.
E assim, como um adeus,
os neurones cintilam
como a luz interior
de que meus olhos brilham.
Saberei no disperso
do ácido aminado
que a rima do meu verso
diz amor
acabado:

Ca-dá-ver…
Até ver
se sou ressuscitado.

(poema de Vitorino Nemésio; pintura de Jacques Deshaies)

27 março 2006

Imigrantes de leste

Espera por mim, meu amor.
Por entre a multidão
saberei a luz dos teus olhos.
Desta longa noite em que te anseio,
da tua mão sem a minha,
dos meus lábios sem a tua língua.

Encontraremos as pedras lisas
do nosso amor,
a terra do nosso chão,
a chuva da nossa primavera.

Espera por mim, meu amor.


Têm filhos, alguns já cá nascidos. Têm cursos superiores que aqui não são reconhecidos. Têm que aprender outra língua para se fazerem entender, para trabalharem, para conseguirem novamente as licenciaturas. Têm que procurar o trabalho onde ele está. Têm que fazer quilómetros dentro de Portugal, em camionetas ou de comboio, porque as portagens são caras.

Trabalham, ousam, arriscam, persistem, não desistem do sonho que os trouxe.

Obrigada por nos terem escolhido. Sejam bem-vindos.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...