20 março 2006

Partículas

Apaguei véus e suspiros,
gotas e pedras. Só a raiz permanece,
essencial, mínima, germinal.

Da sombra a asa oblíqua,
o reflexo da luz invertida,
cósmica, fugidia.

Do joelho do tempo
o arco amanheceu.

Pequenas infâmias

Ao fim de 3 anos, Durão Barroso reconheceu o que já todos tinham reconhecido, que o pretexto da invasão do Iraque foi apenas um estratagema mentiroso. Durão Barroso, o anfitrião da cimeira dos Açores. Durão Barroso, que prometeu salvar o país da crise, mas que desistiu a meio. Enfim.

Fátima Felgueiras continua a gozar com a justiça, e a justiça deixa-se gozar. Enfim.

19 março 2006

Oração (2)

Primeira carta do poeta aos seus leitores:

Em verdade vos digo: mais simples é beber a vida por um verso, que sonhar a água pelo vento. A felicidade está nas pétalas, e não nos dedos que as acariciam.
Assim seja.

Oração (1)

Naquele dia, abriu devagar o livro, desdobrou o canto da folha, e leu desmesuradamente. A luz foi baixando. Quando se fez noite, permaneceu deitado, com o pequeno candeeiro aceso, livre das horas e da fome.

Dia requentado

Domingo é um dia retardado.
Prefiro a segunda,

mesmo sendo o primeiro.

A velocidade da luz

Acabei de ler “A velocidade da luz” de Javier Cercas. Gostei muito, tanto como de “Soldados de Salamina”.

Embora sejam livros completamente diferentes, a estrutura narrativa e o modo como se desenrola a acção são semelhantes.

Em ambos se parte de um acontecimento obscuro que se tenta conhecer e interpretar, essencial para a coerência de uma história que, de algum modo, se mistura e confunde com a vida do narrador/escritor, e que evolui em círculos, estando no fim a chave decisória da existência do livro.

Em ambos a narrativa é feita em tom de confidência, como quem tenta decifrar a sua própria alma, com fluidez e sofreguidão, em que os diálogos são escassos e simples, mas importantes na compreensão das personagens.

Neste último livro o tempo de leitura varia, primeiro vagaroso, como que aquecendo motores, e depois adquirindo uma velocidade vertiginosa, superior à da luz. Gostei muito.


(Só não gostei da capa do livro.)

18 março 2006

Sueño con serpientes


Não sei porquê, mas ultimamente, ao ver imagens de tantos bocados desse mundo, vem-me à lembrança a voz de Mercedes Sosa, no disco Sentinela, com Milton Nascimento – “Sueño con serpientes”:



“Hay hombres que luchan un día

y son buenos,

hay otros que luchan un año

y son mejores,

hay quienes luchan muchos años

y son muy buenos,

pero hay los que luchan toda la vida,

esos son los imprescindibles”

(Bertolt Brecht)

 




(pintura de B.F. Postel: snake)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...