25 fevereiro 2006

Justiça


Então e o tal inquérito rigorosíssimo e urgentíssimo a propósito da lista dos telefones das entidades, enviada (por engano?) pela PT? Tudo o que se viu foi a apreensão do material informático do “24 horas”.

Por muito que eu queira acreditar no nosso sistema judicial, ele teima em demonstrar que não existe.

A impunidade que paira sobre tudo e sobre todos, por um lado, a ameaça de ser perseguido quando se diz ou faz o que não convém, mesmo que de forma encoberta, por outro, corroem a nossa democracia.

Aguardamos, sem qualquer esperança, a ultimação deste inquérito, e o da Casa Pia, e o de Fátima Felgueiras, e o de Isaltino, e o Eurominas, e o “apito dourado”, e o…

MIT (ou mito?)

Hoje, na página 39 do “Público”, num cantinho, e no “Jornal de Notícias” on-line, vem a notícia da assinatura do acordo entre o governo português e o MIT, no CCB, com a presença do primeiro-ministro José Sócrates, e do chanceler do MIT, Phillip Clay.

Ainda bem. Mas dá que pensar: com a poderosa máquina de propaganda que o governo governa, após tantas cerimónias a propósito de investimentos de milhões em vários projectos que “relançarão” a nossa economia, que é feito da bandeira do Plano Tecnológico? Merece apenas esta pequena e enfiada lembrança?

24 fevereiro 2006

O Mal


Reflexões sobre o Mal, ou seja, perguntas sobre o Bem e o Mal.

Discurso do Presidente da República por ocasião das Conferências de São Domingos "O Cérebro entre o Bem e o Mal" - 28 de Outubro de 2003

(…) Tempo de dúvidas mais do que de certezas, este. (…) como é possível haver Mal, havendo Deus? Quem criou o Mal, se Deus é, por definição, Omnipotente e Bem Absoluto? Será que há Mal, como dizem alguns, para que o homem possa ter livre arbítrio e escolhê-lo? E não haveria outra maneira de o homem poder escolher?
(…) não havendo Deus, como encontrar fundamento absoluto para o Bem e para o Mal; ou tal fundamento deixa de ser possível? Será que o relativismo ético é consequência inevitável e inelutável da morte de Deus? E se o Bem e o Mal são construções culturais e sociais, como alguns pensam, como podem então ser conceitos universais, sobre os quais assenta uma ordem? (…) que nos diz a neurobiologia sobre o Bem e o Mal? É possível encontrar no cérebro aquilo que poderíamos chamar uma sede para o Bem e outra para o Mal?
O Mal reside no corpo ou na alma? Que atracção mórbida tem o homem pelo mal que o leva a gostar de ver, fascinado, filmes e noticiários violentos e cruéis, que são a evidência do Mal? Há uma estética do Mal, uma beleza perigosa no Mal, como se revela em certas obras de arte? E que nos diz a psicanálise do Mal e do Bem? Como os relaciona com o inconsciente? E como se exerce assim a responsabilidade moral de escolher o Mal?
(…) Kant teria razão quando disse que há Mal que gera o Bem e Bem que gera o Mal (…)? Ou: a linha da demarcação que passa entre o Bem e o Mal é clara? Há males menores que podem funcionar como catarse para não se chegar ao Mal maior? Terminando: se o Mal muda, a justiça deve mudar com ele? E qual o significado ético dos casos limites com que a justiça tem de lidar: os criminosos inimputáveis? (…)

(pintura de Ben J. Knegt: Evil)

Crianças (2)


Coitado de quem não pode – assim se diz em bom português, com o trinado do fado na voz.

Mas assim se faz em Portugal.

Que fazemos, todos nós, a quem chamamos Estado, a todos os que, por infortúnio da sorte, deles e das suas famílias, são órfãos, de vivos e de mortos, sujeitos a maus tratos, pobres, sem referências, sem pais ou mães, ou sem substitutos que se dignem ser pais e mães?

Que fazemos, todos nós, que tanto nos preocupamos com o bem estar, a roupa, os jogos, os computadores, os “hamburgers”, os telemóveis, as chupetas, os rabinhos assados, os banhos, os talcos e as fotografias dos nossos filhos?

Para que servem estas Oficinas de S. José, e os Centros Juvenis de Campanhã, e os Tribunais de Menores, e os Centros de Reinserção Social?

Como alimentamos, tratamos, ocupamos, ouvimos, defendemos, motivamos, disciplinamos, exigimos, amamos estas crianças que nos têm a nós, ao estado, apenas a nós, nos compridos braços dos Directores, Técnicos, Psicólogos e demais profissionais?

Será que lhes ligam, que lhes apertam os sapatos, limpam os narizes? Será que lhes perguntam onde estiveram, conhecem os seus companheiros, sabem os seus dias de aniversário? Será que lhes ralham, lhes pedem mimos, lhes dão mimos?

Que fazemos, todos nós, às nossas crianças, aquelas que são filhos de quem não os quer?

(pintura de Adam Saiter: all the children are insane)

23 fevereiro 2006

Crianças


Menores suspeitos de homicídio no Porto ficam à guarda de pais e instituições
23.02.2006 - 21h06, Lusa, PUBLICO.PT

Todos os criminosos já foram crianças. E quando os criminosos ainda são crianças?

Que grupo, que prazer, que objectivo neste crime? Como podem crianças não recuar perante os gritos, o sangue, o fedor? Como podem crianças serem fisicamente capazes de eliminar, matar, acabar com a vida de alguém? Foi uma brincadeira, um ritual de iniciação?

Que vida para eles, depois desta morte?

(pintura de Danièle Jaquillard)

22 fevereiro 2006

O Guardador de Rebanhos (IX)


Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

(poema de Alberto Caeiro; fotografia do seu caderno, na página deste poema)

Para os amantes de Fernando Pessoa e de Alberto Caeiro, descobri um site fascinante e viciador.

Há algumas pessoas que são, ou foram, geniais: Leonardo da Vinci, J. S. Bach, Antoni Gaudí, Salvador Dali, Fernando Pessoa, só para citar alguns.

Alberto Caeiro é um dos meus heterónimos favoritos. Este site é indispensável e comovente. (http://purl.pt/1000)

21 fevereiro 2006

Estradas


Abro os olhos devagar,
palavras atropelam e misturam
os últimos suspiros do sono.
Saio de casa a navegar,
entre o céu e a terra as nuvens
despejam a náusea.
Entro no carro e deslizo,
além da estrada
a luz do sol.

(pintura de Wendy White)

Outra vez os professores e os sindicatos e as aulas de substituição. É penoso ouvir os que se dizem representantes de uma classe profissional dizer tantas banalidades, tantas palavras seguidas sem significado.

Os defensores da autonomia das escolas e dos projectos educativos não são capazes de conceber e organizar actividades, lectivas e não lectivas, que ocupem os estudantes durante os “furos”? Ou será que entendem a escola como um lugar onde se está, ocasionalmente, a debitar ou a receber aulas?

Estes são problemas repetitivos e enfadonhos. Dá a sensação que não se aprendeu nada! Espero que a Ministra da Educação não ceda.

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...