07 setembro 2019

Um beijo de súbito

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El Greco


 


Um beijo de súbito e ao fundo uma régua inteira de rio


Foi o dia em que perdi tudo quase tudo as chaves do carro


até o chão Não teve importância alguma porque


sequer me lembrava onde deixara o carro


Acontece-me muito de manhã esquecer-me do lugar


onde à noite estacionei a realidade


 


O melhor por vezes é sermos mesmo despojados de tudo


quanto menos tivermos menos perdemos


por exemplo o tempo Quanto menos juntarmos


menos desarrumamos por exemplo a vida


sem quinquilharia barata ao fundo da carteira


mais facilmente as coisas nos sobrevêm à mão


por exemplo a solidão


 


Até esse beijo súbito preso na moldura de um rio inútil


se terá perdido no meio das bugigangas todas que juntámos,


os filhos os livros os brincos (tantos brincos se perdem numa vida)


as ferramentas as casas a papelada a mobília as


roupas as tralhas e as palavras as memórias os bibelots


que já eram dos avós: os velhos guardam sempre tanto lixo


tantos fios eléctricos embaraçados tanta meia sem par


tanto amor desirmanado por aí


por onde?


 


Nesta confusão de tudo recolhermos em desalinho


Como encontrar, então, de súbito


o beijo ao precisarmos dele


ou a moldura


ou mesmo o tejo imóvel lá por dentro?


 


Rita Taborda Duarte

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