16 setembro 2017

As caravanas


Chico Buarque


 


 


É um dia de real grandeza, tudo azul


Um mar turquesa à la Istambul enchendo os olhos


E um sol de torrar os miolos


Quando pinta em Copacabana


A caravana do Arará - do Caxangá, da Chatuba


 


A caravana do Irajá, o comboio da Penha


Não há barreira que retenha esses estranhos


Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho


A caminho do Jardim de Alá - é o bicho, é o buchicho, é a charanga


 


Diz que malocam seus facões e adagas


Em sungas estufadas e calções disformes


Diz que eles têm picas enormes


E seus sacos são granadas


Lá das quebradas da Maré


 


Com negros torsos nus deixam em polvorosa


A gente ordeira e virtuosa que apela


Pra polícia despachar de volta


O populacho pra favela


Ou pra Benguela, ou pra Guiné


 


Sol, a culpa deve ser do sol


Que bate na moleira, o sol


Que estoura as veias, o suor


Que embaça os olhos e a razão


E essa zoeira dentro da prisão


Crioulos empilhados no porão


De caravelas no alto mar


 


Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria


Filha do medo, a raiva é mãe da covardia


Ou doido sou eu que escuto vozes


Não há gente tão insana


Nem caravana do Arará

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