09 novembro 2016

Acordemos

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Hillary Clinton


 


Depois do enorme duche de água gelada após a inimaginável vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA, vale a pena acalmar e pensar em várias questões:



  1. Não podemos assumir que as únicas razões para a votação em Donald Trump são a estupidez, a ignorância, a xenofobia e o sexismo, embora essas razões também devem ter estados presentes.

  2. Temos que tentar perceber que a insatisfação, a desigualdade, o desemprego e a crise económica desenvolveram uma crise social que afasta as pessoas dos políticos e da política, levando-as a acreditar em alguém que as convence estar fora do sistema.

  3. Os políticos, nomeadamente os de esquerda, menorizam e inferiorizam os eleitores, tratando-os com desdém e com sobranceria, em vez de tentarem compreender os seus anseios e procurarem soluções para os seus problemas.

  4. A constante afronta aos políticos e à política, falando-se continuamente de corrupção, com suspeitas constantes, acusações, faltas de respeito e desvalorização das funções públicas, são contraproducentes e só alimentam a desconfiança das populações em relação aos seus representantes.

  5. É urgente perceber o que causou os erros das projecções e das sondagens - as pessoas mentiram? Os autores das sondagens não valorizaram ou não contabilizaram com rigor as intenções de voto em Trump? Foram deliberadamente alteradas?

  6. É urgente perceber a crescente irrelevância dos media na cobertura das campanhas e na forma como, deliberadamente ou não, condicionam os leitores, provavelmente levando-os a fazer o contrário daquilo que advogam.


Este é um sinal, mais um depois do BREXIT, que deve acender todas as lanternas vermelhas em todos os cantos da Europa. As ondas populistas continuam e crescem e, enquanto as instituições nacionais e internacionais, como por exemplo a União Europeia, mantiverem o estado de negação e não olharem para os seus povos, para as suas angústias e temores, sem paternalismos nem juízos morais, para tentarem resolver os reais problemas das pessoas, a lenha continuará a ser lançada para estas fogueiras.


 


Não vale a pena lamentarmo-nos. A democracia funcionou e funciona. Mas se esta é a vontade da maioria, por algum motivo essa maioria tem esta vontade. O combate tem que ser frontal, diário e com actos, não apenas com intenções e discursos retumbantes.


 


Esperemos que o Trump Presidente não cumpra as promessas do Trump candidato. De resto, o futuro afigura-se-me bastante incerto e com cores bastantes escuras.


 

3 comentários:

  1. Anónimo21:38

    Gostei. Uma análise lúcida e objectiva num momento em que quase toda a gente está mais emotiva do que outra coisa.

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  2. A vontade não foi da maioria, trump em termos de votos contagem direta não ganhou. Contudo ganhou na maioria dos Estados com maior representatividade...aí está um dos grandes males.... O voto direto não valeu de muito porque nem todos os estados tem a mesma importância. E isso para mim não é democracia.

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  3. Jaime Santos18:00

    Não foram os mais pobres que elegeram Trump, é bom que se perceba. Trump até teve menos votos que Romney em 2012, mas Hillary não conseguiu sobretudo mobilizar o eleitorado das minorias étnicas que deu as vitórias a Obama. Os que elegeram Trump consideram que o presente é pior que o passado, mas se a sua insegurança não é económica, ou não é sobretudo económica, não sei o que a Esquerda lhes pode oferecer sem renegar aos seus valores inclusivos. Não se trata de menosprezar o código de valores moralmente conservadores dos eleitores de Trump, ou de Le Pen em França, etc, trata-se simplesmente de o rejeitar, mesmo que fiquemos em minoria... Os factores sócio-económicos não explicam tudo e a Esquerda recorre demasiado a teorias sociológicas implicitamente baseadas no Marxismo para explicar tudo. Pode estar de regresso uma política de identidades, mas eu francamente não quero nada com ela...

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