Hillary Clinton
Depois do enorme duche de água gelada após a inimaginável vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA, vale a pena acalmar e pensar em várias questões:
- Não podemos assumir que as únicas razões para a votação em Donald Trump são a estupidez, a ignorância, a xenofobia e o sexismo, embora essas razões também devem ter estados presentes.
- Temos que tentar perceber que a insatisfação, a desigualdade, o desemprego e a crise económica desenvolveram uma crise social que afasta as pessoas dos políticos e da política, levando-as a acreditar em alguém que as convence estar fora do sistema.
- Os políticos, nomeadamente os de esquerda, menorizam e inferiorizam os eleitores, tratando-os com desdém e com sobranceria, em vez de tentarem compreender os seus anseios e procurarem soluções para os seus problemas.
- A constante afronta aos políticos e à política, falando-se continuamente de corrupção, com suspeitas constantes, acusações, faltas de respeito e desvalorização das funções públicas, são contraproducentes e só alimentam a desconfiança das populações em relação aos seus representantes.
- É urgente perceber o que causou os erros das projecções e das sondagens - as pessoas mentiram? Os autores das sondagens não valorizaram ou não contabilizaram com rigor as intenções de voto em Trump? Foram deliberadamente alteradas?
- É urgente perceber a crescente irrelevância dos media na cobertura das campanhas e na forma como, deliberadamente ou não, condicionam os leitores, provavelmente levando-os a fazer o contrário daquilo que advogam.
Este é um sinal, mais um depois do BREXIT, que deve acender todas as lanternas vermelhas em todos os cantos da Europa. As ondas populistas continuam e crescem e, enquanto as instituições nacionais e internacionais, como por exemplo a União Europeia, mantiverem o estado de negação e não olharem para os seus povos, para as suas angústias e temores, sem paternalismos nem juízos morais, para tentarem resolver os reais problemas das pessoas, a lenha continuará a ser lançada para estas fogueiras.
Não vale a pena lamentarmo-nos. A democracia funcionou e funciona. Mas se esta é a vontade da maioria, por algum motivo essa maioria tem esta vontade. O combate tem que ser frontal, diário e com actos, não apenas com intenções e discursos retumbantes.
Esperemos que o Trump Presidente não cumpra as promessas do Trump candidato. De resto, o futuro afigura-se-me bastante incerto e com cores bastantes escuras.
Gostei. Uma análise lúcida e objectiva num momento em que quase toda a gente está mais emotiva do que outra coisa.
ResponderEliminarA vontade não foi da maioria, trump em termos de votos contagem direta não ganhou. Contudo ganhou na maioria dos Estados com maior representatividade...aí está um dos grandes males.... O voto direto não valeu de muito porque nem todos os estados tem a mesma importância. E isso para mim não é democracia.
ResponderEliminarNão foram os mais pobres que elegeram Trump, é bom que se perceba. Trump até teve menos votos que Romney em 2012, mas Hillary não conseguiu sobretudo mobilizar o eleitorado das minorias étnicas que deu as vitórias a Obama. Os que elegeram Trump consideram que o presente é pior que o passado, mas se a sua insegurança não é económica, ou não é sobretudo económica, não sei o que a Esquerda lhes pode oferecer sem renegar aos seus valores inclusivos. Não se trata de menosprezar o código de valores moralmente conservadores dos eleitores de Trump, ou de Le Pen em França, etc, trata-se simplesmente de o rejeitar, mesmo que fiquemos em minoria... Os factores sócio-económicos não explicam tudo e a Esquerda recorre demasiado a teorias sociológicas implicitamente baseadas no Marxismo para explicar tudo. Pode estar de regresso uma política de identidades, mas eu francamente não quero nada com ela...
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