31 agosto 2012

Nevoeiro

 



Sittikorn Pokpong


 


Recolho-me em nevoeiro no todo cinzento da negação


no presente mais que passado sem futuro.


Recolho-me atrás do mundo no todo ausente de inspiração


no limite da selva para além do muro.


 


Tal como em ilhas de isolamento prisioneira de mim e da rotina


espaço-me despojo-me em sono lento


afasto desejos


desço a cortina.


 

30 agosto 2012

Um dia como os outros (116)


(...) Mas se é assim tão evidente, porque nunca se deu este passo como deve ser? Porque será que a concretização se revela tão difícil? Porque será que as famílias e os alunos evitam esta escolha? A resposta está no projeto macabro de Nuno Crato. De acordo com o ministro, quem irá para estes cursos? Ora bem, além dos voluntários - coitadinho, tem 14 anos, mas não dá para mais... -, os que chumbarem duas vezes no ensino secundário também têm o destino traçado. É um castigo: és uma besta, vais já para jardineiro; sim, terás mais uma oportunidade para voltar ao ensino regular, mas para já ficas-te por aqui. Depois, se passares os exames do 9.º ou 12.º anos, logo veremos. (...)




André Macedo






Portugal vai pôr em experiência no terceiro ciclo do ensino básico o regresso à concepção do ensino de há meio século. A experiência-piloto anunciada no DN de hoje, que de facto só pode ser um teste à aceitação social da medida, contém todos os erros das concepções ultrapassadas de ensino vocacional:
1. Diz aos jovens que ir aprender uma profissão é sinal de insucesso escolar, em vez de promover as aprendizagens vocacionais de todos os alunos;
2. Cria a ilusão de uma certificação profissional sub-escolarizada, numa Europa em que já nenhum jovem é diplomado profissionalmente antes da conclusão do ensino básico;
3. Reforça a ideia de que o ensino profissional é "fácil" e é para jovens que não têm sucesso escolar, apesar do insucesso escolar ser essencialmente nas disciplinas que, por serem fundamentais, terão que continuar a existir nesses cursos. Ou imagina-se um diplomado do 9º ano que não saiba português e matemática por ser "profissional"? Dito de modo mais cru, já é bom certificar a ignorância se for numa via profissional? (...)




Paulo Pedroso



26 agosto 2012

À porta

 



Ai Weiwei


 


Ficar à porta sempre à porta.


Vislumbrar contornos sombras


ouvir sons indistintos familiares


o morno em coisas conhecidas seguras


perfumes vagos de conforto.


Ficar à porta como ladrão faminto


ansiando por migalhas de carinho.

Que não se nos apague a memória

 



Salvador Dali 


 


Na próxima semana o governo será de novo avaliado pela Troika quanto ao cumprimento da última versão do memorando de entendimento.


 


Tendo em conta que a Troika é co-responsável pela situação em que estamos e que Portugal é a última oportunidade para que esta política se justifique, a avaliação, por muito que todos saibamos que é negativíssima, será positiva.


 


Convém que não nos esqueçamos da instabilidade política que levou à queda do governo de Sócrates, eleito em 2009, empurrado por toda a oposição, que tinha a receita milagrosa para o crescente desemprego, a depressão económica, enfim, a resposta para a crise instaurada por Sócrates.


 


Da extrema-esquerda à direita mais reaccionária, de tudo se usou para assassinar as políticas entretanto defendidas pelo PS. A irresponsabilidade do BE e do PCP, que continuam a defender o paraíso na terra, sem que para isso se sintam obrigados a explicar a forma de o atingir, para além das promessas de ataque ao capital que explora os indefesos trabalhadores, assim como a irresponsabilidade do PSD e do CDS, cuja ideia de sociedade não inclui o serviço público, o estado como garante da igualdade de oportunidades, os direitos dos cidadãos à saúde e à educação, fizeram aprofundar o binómio crime / castigo para quem ousou aspirar à ascensão social e aos bens materiais, disponíveis apenas para quem tem berço.


 


Convém não nos esquecermos de todas as promessas desfiadas na campanha eleitoral, em que a mais emblemática foi a desvergonha da negação de redução dos rendimentos das famílias. Mas também convém lembrar o que foi dito que se faria e que está a ser feito por esta maioria, como a destruição do estado social, da escola e da saúde públicas, o esvaziamento das funções do estado, o empobrecimento da população mais carenciada e da classe média, a alienação de tudo o que pode ser privatizado, o assalto aos cargos públicos, o desrespeito pelo papel fulcral que uma informação liberta dos interesses económicos representa para o regime democrático.


 


Convém lembrar que a estabilidade política é, de facto, um bem, que a demissão deste governo e deste ministro das finanças não traria melhores soluções, pois não há alternativas. O PS de António José Seguro está mais preocupado em negar, mesmo que pela omissão, a existência de um passado recente, do que em demarcar as diferenças. Foi o PS que negociou, como governo demissionário e com os partidos desta maioria, o memorando de entendimento com a troika. Está obrigado a honrar esse compromisso e a apoiar as medidas que constam desse memorando ou das que são indispensáveis para que se cumpra. Mas o PS deve pugnar porque a sua voz, para além da troika, se oponha a tudo o que tem vindo a ser feito, a reboque da crise, da austeridade e da sua auto flagelação.


 


Convém lembrar que esta maioria foi votada em liberdade, para constituir governo e salvar Portugal, nas inspiradas palavras do nosso herói mais recente. Tem quatro anos para o fazer e nós todos, os eleitores, deveremos somar os prejuízos para apresentar a nossa conta, na tentativa de saldar a imensa dívida de que já somos credores.


 


É bom que não nos permitamos esquecer.


 

19 agosto 2012

Do viço da esquerda

 



 


Requisitos mínimos para se pertencer à esquerda enérgica: 


Nunca usar gravata


Falar sempre com as sílabas muito abertas e bem soletradas


Abrir muito os olhos


Dizer sempre companheiras e companheiros, homens e mulheres, pessoos e pessoas


Utilizar sempre superlativos de quantidade


Acentuar BANca, BANQUEIros, capiTAL, eNORme, esQUERda


Ter muitos dentes na boca


Induzir envelhecimento precoce a quem ouvir a militância

À beira da sublevação

O verdadeiro desastre nacional, pelo qual a sublevação popular é certa, está na hipótese de cessarem os jogos de futebol todos os santos domingos.


 


Ignomínia desta jamais se admitirá. E logo após a torpe cena de mau teatro, protagonizada pelo árbitro do jogo entre o Benfica e o Dusseldorf, insinuando maldosamente uma agressão da parte de um jogador que apenas mostrou a sua indignação inocente e mansa, tal como o Presidente do mesmo clube, herói que não deixa que se ataque tão respeitador e desportivo homem.


 


Que se acautele o governo. Não há nada pior que o povo ficar com tempo para pensar.

Esquerda transbordante

 



 


A esquerda grande, enérgica e presente, a tal que tem como objetivo um governo de esquerda, tem uma visão de democracia interna peculiar, visto que até indica sucessores e formas de sucessão.


 


Mas parece qua há algumas companheiras da esquerda enorme, que não estão assim tão confortáveis com esta solução da esquerda gigante.


 


18 agosto 2012

Novo amor


Maria Rita



A luz apaga porque já raiou o dia
E a fantasia vai voltar pro barracão
Outra ilusão desaparece quarta-feira
Queira ou não queira terminou o carnaval.


Mas não faz mal, não é o fim da batucada
E a madrugada vem trazer meu novo amor
Bate o tambor, chora a cuíca e o pandeiro
Come o couro no terreiro porque o choro começou.




A gente ri
A gente chora
E joga fora o que passou
A gente ri
A gente chora
E comemora o novo amor.




15 agosto 2012

Doze sardinhas

 


Olhou para a travessa com doze sardinhas. Um exagero e um desperdício. Deveriam ter pedido uma dose para os dois. Dava e sobrava. Bem, sempre poderiam levar as que sobrassem para casa. Com um molho qualquer de cebolada dava uma refeição para um deles.


 


Deu-se conta de uma figura meio amarfanhada, uma sombra à sua frente. Um Homem um tanto curvado, de estatura média, a nadar dentro de uma camisa acinzentada e de umas calças puídas. Salmodiou algo incompreensível, num eslavo mesclado de sons portugueses, com gesto brando apontou para as sardinhas. Tinha fome.


 


Indicaram-lhe a cadeira ao lado e acenaram-lhe que se sentasse. Deram-lhe a salada e as sardinhas que restavam. O Empregado pôs-lhe na mesa um prato, um garfo e uma faca, aqueceu-lhe as sardinhas e encheu-lhe a travessa de batatas.


 


Levantou-se e agradeceu-lhes da mesma forma ininteligível. Deixou o prato totalmente limpo, apenas com os restos das cabeças das sardinhas. Encostados às ombreiras da porta, os Empregados comentavam que já há algum tempo que não aparecia e que, por vezes, era muito mal-educado. Mas desta vez, não tinha sido.

A crise no feminino

 



Chiara Bigatti


 


Elas deitam-se a fazer contas, dormem a sonhar com números e acordam a dividir.


Elas dividem-se entre a frutaria, o talho, os mercados, as marcas brancas.


Elas despedem as empregadas domésticas e impregnam-se do ser doméstico.


Elas aprendem a fazer pão, a demolhar feijão, a planear a refeição.


Elas inventam receitas, repartem a comida, enchem as lancheiras.


Elas desistem do cabeleireiro, do verniz das unhas, das águas-de-colónia.


Elas reciclam a roupa, lavam a roupa, passam a roupa.


Elas fazem bolos, compotas e carinho.


Elas transpiram, conspiram e suspiram.


Elas revoltam-se e resignam-se, resignam-se e revoltam-se.


Elas não têm trabalho e fartam-se de trabalhar.


Elas não têm salário nem direitos a reivindicar.


Elas deitam-se derrotadas e levantam-se esperançadas.


Elas perdem o que tinham e dão o que têm.


Elas deprimem-se, calam-se, entristecem.


Elas desenfeitam-se e enfeiam.


Elas desintegram-se.


 

14 agosto 2012

Preparativos para a época de Outono

 



 


Paulo Portas já começou a preparar a época pós férias da política nacional. Os dados do INE de hoje vão alimentando os sinais de crise governamental e da coligação, pois é cada vez mais evidente que os objectivos traçados por Passos Coelho e Vítor Gaspar, apesar da imposta austeridade, não serão atingidos. Pelo contrário, agravaram-se as condições, já de si bastante precárias, da população.


 


O Ministro dos Negócios Estrangeiros vai promovendo contactos (pouco) secretos com o líder da (inexistente) oposição. Virá aí (mais uma vez) um governo de salvação nacional/ bloco central?


 

13 agosto 2012

Lava

 



 


 


Sabemos das verdades que incomodam


mesmo sem consciência.


Impõem-se com uma perna amputada.


Podemos revolver a carne da alma


soterrar o fel e a lama


que elas permanecem


como a lava de um vulcão adormecido.


 

12 agosto 2012

Dar a cara

 



João Vasconcelos


Os objetivos foram atingidos, embora o sr. primeiro-ministro, na prática, tenho tido a mesma atitude que o sr. Presidente da República, ontem à noite, porque não quis dar a cara


 


Multiplicam-se estas manifestações totalmente injustificáveis em democracia. A intimidação seja de quem for, nomeadamente dos governantes, impedindo-lhes uma vida privada em segurança, como o que, nos últimos anos, tem acontecido, é uma afronta. Não se pode aceitar que, de cada vez que o Presidente, Passos Coelho ou qualquer outro ministro aflorem a rua, sejam vaiados, enxovalhados e ameaçados por gangs de pseudo activistas políticos, obviamente pertencentes a partidos de raiz e de práticas antidemocráticas.


 


Os cidadãos têm o mesmo direito de se manifestarem em liberdade que os governantes têm de se deslocarem na via pública, em paz e sossego. Quando são chamados a julgar os seus representantes, muitos dos que se calam agora e que murmuram bem-feito esquecem-se de ir votar, ou pura e simplesmente não se dão ao trabalho de o fazer.


 


A direita que nos governa deverá ser responsabilizada pelas opções e pelas medidas a que temos assistido, pela destruição do estado social, pelo empobrecimento do país, pelo aumento das desigualdades e pela recessão, mas nas urnas, de forma adulta, firme e inapelável.

11 agosto 2012

Brasileirinho

 



Waldir Azevedo & Yo-yo Ma


A derrota da crise (8)

 



 


Depois de uma caminhada Avenida da Liberdade abaixo, desde o São Jorge, em tarde de Verão a sério, nada melhor que ouma visita ao ministério da finanças, bem mais simpático no acolhimento da história da cerveja em Portugal, acompanhada da prova da dita, a Bohémia da casa.


 


Antes da caminhada Avenida da Liberdade acima, paragem para revigorar o espírito e a gula e lamber um delicioso gelado, a meio da Rua Augusta.


 


A crise também está na nossa cabeça. O melhor é não lhe dar confiança.


 


Segredos

 


Gosto imenso destes almoços secretos, escancarados nas páginas dos jornais.

Sabemos

 


O que mais revolta é que todos sabemos das manipulações, das guerras de informação, das recicladas ideologias e valores pretensamente morais. O apontar de responsáveis para que todos olhem numa só direcção. A enorme enchente de evidências diariamente retratadas nos media, naqueles que não se importam de ser correias de transmissão acéfalas.


 


Não podemos dizer que não sabemos. Sabemos de tudo.

06 agosto 2012

Não pessoa

 



Paula Rego 


 


Ser uma boa pessoa usada


amantíssima da existência


cumprir as tarefas da sobrevivência.


Bastar-se com a dormência


do dia a dia ocupar-se


ser uma boa pessoa.


Ser uma não pessoa.


 

Sobressalto

 



Cai Guo-Qiang


 


Até na morte procuramos o que não somos


mas quereríamos ter sido.


Incessantemente tentamos a originalidade


um sentido um qualquer desígnio que nos afaste da mole idêntica


normalizada trivialidade.


Até na morte desejamos ser únicos.


 


Talvez assim todos os dias que a vida nos traz


sempre iguais e sem qualquer fulgor


possam produzir um simulacro um travessão


um pequeno sobressalto na massa do tempo.


 


 

05 agosto 2012

Chama

 



Chris Uyehara & Stan Kolonko


 


Tudo já foi dito como os dias que sucedem


às horas que desmontam aos minutos que desgastam


tudo foi vivido como os corpos que se despem


as penumbras que afastam os desenhos que afagam


tudo mesmo tudo mesmo a misteriosa inflexão na voz que nos chama


mesmo a súbita chama


mesmo a fugaz e inútil chama.


 

01 agosto 2012

Abandono

 



Charles Umlauf


 


 


Apressada cheguei-me à Senhora que tinha uma cara de quem vai esperar horas, para a fazer entrar, com as desculpas prestes a escaparem-me da boca. Ao lado da Senhora, silencioso e muito composto, um Rapazinho pequenino, cabelo revolto, costas direitas e pés bem acima do chão, segurava um guardanapo ligeiramente avermelhado que pressionava contra o nariz, emprestado pela sua companheira de espera. Quando indiquei à Senhora o caminho para o gabinete, apercebi-me que o Rapazinho estava só. A Secretária que, entretanto, me vinha dar uns papéis para assinar, disse-me que iria passando para ver dele, pois a Mãe estava a fazer um exame.


 


Acerquei-me do Rapazinho e perguntei-lhe o nome, com a intenção de esperar com ele que a mãe regressasse. Tentei perceber o que tinha no nariz, e fiquei mais descansada ao ver uma pequenina crosta levantada, que já não sangrava. O Rapazinho murmurou o nome dentro dos seus 5 anos, muito direito e muito sisudo, com os olhos a brilharem, até que desatou a chorar, primeiro devagarinho, depois aos soluços, deixando desabar as forças de contenção que até àquele momento o tinham mantido sereno. Envolvi-o num abraço que encontrou um corpinho tão pequenino, morno e tremente, num choro manso e tão desesperado que eu própria tive vontade de chorar.


 


Assim ficou até a porta da sala se abrir, saindo de lá a Médica que, olhando para aquele quadro, lhe disse que já podia entrar. Aí foi ele, a medo, agarrar-se à Mãe, abrindo ainda um pouco mais as lágrimas, finalmente mais soltas, finamente acreditando que não tinha ficado sem ela.

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Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...