31 janeiro 2011

Em falta

 



 João Jacinto


 


Cortaram os ramos da árvore


em frente à minha janela.


Sei que apenas eu a via


filtrando luz e vento


estendendo folhas e pássaros.


 


Terei que desenhar verdes e troncos


usar os dedos como moldes


semear a imagem que falta


em frente da minha janela.


29 janeiro 2011

Holocausto

 











 

 


Já não são corpos já não são gente


bonecos desarticulados em posições angulosas


sem cabelos dentes carne.


São ossos que nos furam a alma


palhaços tristes trapos imundos


daqueles que se erguem como máquinas


impenetráveis aos nossos olhos


daqueles para quem a morte se engole


com o pão de todos os dias.


 


Já não são corpos já não são gente


são vozes que de todos os cantos do mundo


gritam e choram para sempre.


 

Com que voz









Luís de Camões & Alain Oulmain


Amália Rodrigues


 

 

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, poi se mudou
em tisteza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.


 

 

Do apuramento de responsabilidades

 


Passou uma semana desde o dia das eleições presidenciais. A demissão de Rui Pereira tem sido pedida todos os dias, com aumento de tom e de intensidade.


 


Como disse no próprio dia das eleições, considero lamentável que tenha havido pessoas, muitas ou poucas, que tenham tido dificuldade em votar por incúria dos respectivos departamentos estatais, seja por problemas técnicos, seja por não terem previsto e acautelado a situação, seja por não terem efectuado o que se lhes tinha determinado. Como é óbvio, é urgente que se apurem responsabilidades para que se possa actuar em conformidade.


 


Quando se fala de responsáveis tem que falar-se no Ministro da Administração Interna, responsável por tudo o que acontece sob a alçada do seu ministério, de bom e de mau. Mas acho estranho que, para além do CDS que pediu de imediato a sua demissão, o PSD tenha vindo, primeiro sugerindo depois exigindo a mesma demissão.


 


Em primeiro lugar seria importante saber se houve pessoas verdadeiramente impedidas de votar, e quantas, ou se houve dificuldade em votar, sentindo-se as pessoas dissuadidas por não quererem o desconforto da espera, etc. Não só porque é diferente, mesmo em termos de legalidade do acto eleitoral, como pelo possível significado em termos de resultados eleitorais. Já ouvi falar Paulo Rangel de dezenas de milhar de eleitores impedidos de votar. Se assim foi ainda mais me espanta que os partidos políticos não peçam a repetição do acto eleitoral. Porque se houve pessoas impedidas de votar, para além de tornar a eleição inválida é um problema gravíssimo que, aí sim, exigiria a demissão imediata do Ministro.


 


No entanto, se o caso foi o desconforto da espera e da confusão, levando as pessoas a desistirem de votar, embora o pudessem ter feito, apesar de grave e lamentável, não me parece que seja obrigatória a demissão do Ministro. É obrigatória a urgente conclusão do inquérito (e todos desconfiamos das urgências dos inquéritos) para que, posteriormente, o Ministro Rui Pereira analise a melhor forma de assumir a sua responsabilidade política.


 

Flexi-segurança

 


Em tempo de elevado desemprego, predominantemente de gente nova e qualificada, apercebemo-nos de que são necessárias alterações à forma como entendemos a segurança no trabalho, a produtividade, a formação, a avaliação de desempenho. É incompreensível que se sacrifique a possibilidade de ter pessoas empenhadas, trabalhadores qualificados e motivados, a uma noção de emprego vitalício independente da prestação de quem o detém, tão caro ao nosso sindicalismo.


 


No entanto não consigo perceber o objectivo de reduzir as indemnizações aos trabalhadores despedidos, em número de dias pagos por mês de trabalho e no máximo de meses pagos (12). Da parte dos empregadores mantém-se o paradigma de pagar pouco, cada vez menos, investir pouco, cada vez menos, reivindicar os apoios do estado, apelidando-o de gastador e demasiado interventor, reivindicar redução de impostos e, por fim, poder despedir pessoas com muitos anos de casa com uma indemnização simbólica.


 


Não entendo como é possível dinamizar assim o mercado laboral. Deve ser uma redundância da flexi e um downgrade da segurança.


 

Janeiro

 



Joseph Farquharson: Winter Breakfast


 


 


O corpo pede-me cama. Sábado pede-me preguiça. Janeiro pede-me cobertores, modorra e torradas.


 


Faço-lhes a vontade.


26 janeiro 2011

Que o privado se mantenha privado (de dinheiros públicos)

 


Sobre os protestos dos professores, pais, alunos e donos dos colégios privados, vou citar o Besugo:


 


Tenho cismas mais ou menos semelhantes sobre o Ensino Privado e os Cuidados de Saúde Privados: se são privados e se gostam - e se há tanta gente que gosta deles assim - que façam o favor de prosseguir nessa privada senda e continuem a fazer justiça ao seu bom nome, que se mantenham privados (sobretudo privados de dinheiros públicos).


 

24 janeiro 2011

Manuel Alegre

 


 







 


Manuel Alegre assumiu com clareza a derrota da noite. Sem ambiguidades nem desculpas, Manuel Alegre mostrou também o seu carácter. É nestes momentos que sabemos quem são as pessoas de bem. Podemos discordar violentamente delas, mas não deixamos de as aplaudir. E é também nessas horas amargas que a solidão deve doer mais. A sala do Altis estava muito vazia e a noite acabou demasiado cedo.


 


Não estive com Manuel Alegre nesta campanha, mas estive com ele na emoção de ontem, e presto-lhe a minha homenagem pela coragem e pelo serviço que prestou ao país.


 


Adenda: Que fique claro que considero um serviço ao país o facto de haver pessoas a candidatarem-se a cargos públicos. Tal como Fernando Nobre, Francisco Lopes, José Manuel Coelho e Defensor de Moura.


 

Sophia de Mello Breyner Andresen

 



 


Exposição na Biblioteca Nacional de Portugal (26 de Janeiro) e Colóquio Internacional (27 e 28 de Janeiro) na Fundação Calouste Gulbenkian. A complexidade na luz e na claridade, a simplicidade da grandeza e da profundidade de alguém que era todos os nomes num só.


Assapada

 


Hoje fui assapada pelo sapo. Mesmo não compreendendo a razão, só posso agradecer o destaque (penso que imerecido).


 


Urnas fechadas

 


 


Cavaco Silva mostrou, no seu discurso de vitória, o carácter e a disposição com que assume, de novo, o cargo de Supremo Magistrado da Nação. Palavras de ressentimento e azedume, para com os perdedores, palavras demagógicas e populistas, como muito bem assinalou D. Januário Torgal Ferreira, ao anunciar-se o Provedor do povo.


 



Temos um Presidente que, durante o ano de 2009, manipulou ou mandou manipular informação, fabricando um caso que denegrisse o governo, o famoso caso das escutas de Belém. Temos um Presidente que se dirigiu ao país por três vezes, mantendo-o em suspenso, para falar do desrespeito que o Parlamento lhe mostrou ao aprovar o Estatuto dos Açores, para justificar não justificando o triste episódio em que, em plena campanha eleitoral, tentou condicionar o voto contra o PS, encenando uma ofensa atroz (o caso das escutas já citado), e para falar da promulgação da lei do casamento entre homossexuais, que ele assinou não concordando.


 


Todos dizem que o Presidente não tem qualquer importância, que não tem qualquer papel, que não tem qualquer poder. Mas tem o poder de congregar a vontade da sociedade, de optimizar as ideias, de animar os que se desistem. Com este Presidente vamos continuar a nossa saga de coitadinhos, de não arriscar, de falta de desígnios e de alegria, de pobrezinhos mas honestos. Falta uma centelha a este Presidente, a centelha do visionário, do bobo ou do sábio, falta-lhe a sensibilidade do artista, a prioridade dos direitos, o arrepio em em vista da caridadezinha.


 


Os eleitores do PS estilhaçaram-se por vários candidatos e pela ausência de participação, divididos entre a recusa a Cavaco Silva por um lado, e a Manuel Alegre por outro, tal como aconteceu há 5 anos, em que o PS apoiou oficialmente Mário Soares em detrimento de Manuel Alegre.


 


É destes desencontros que se vai construindo o desinteresse dos eleitores. Qualquer dia o desinteresse pelo regime democrático.


 

23 janeiro 2011

Sing, sing, sing









The Benny Goodman Orchestra


 

Presidente Cavaco Silva

 


 




 


Cavaco Silva é, de novo, Presidente da República. Foi eleito democraticamente, pelo que democraticamente aceitamos a vontade expressa livremente nas urnas.


 


Embora não seja surpresa é, para mim, uma desilusão. Manuel Alegre, como se esperava, não entusiasmou o eleitorado do centro-esquerda. A sua postura e prestação durante os últimos anos ditaram este resultado. O PS fez mal em ter apoiado a sua candidatura.


 


Temos, portanto, a vitória de uma visão de Portugal e dos portugueses, quanto a mim minimalista, conservadora e ultrapassada. Venceu o imobilismo e o Portugal bolorento. Esperemos que, daqui a 5 anos, haja uma verdadeira disputa eleitoral. Espera-nos um ano de instabilidade, com o PSD e o CDS a fazerem os cálculos para uma próxima legislatura. Veremos se o PCP e o BE estão dispostos a viabilizar os anseios do PSD.


 

Abstenção

 


É lamentável que a mudança para o Cartão do Cidadão não tenha acautelado o conhecimento imediato e fácil do número de eleitor. Mas mais lamentável ainda é tentar usar-se essa ineficiência, porque de ineficiência se trata, como argumento e desculpa para o aumento da abstenção.


 


Só não vota quem não quer votar e é bom que cada um de nós assuma a sua decisão. Mas para quem vê filas enormes para entregar o totoloto, para comprar bilhetes para concertos ou jogos de futebol, é ridículo invocar as filas para conhecer o número de eleitor como dissuasoras do voto.


 


É sempre mais fácil acusar o governo, o Estado, Deus ou "eles" do que alguém assumir que não tem opinião ou que não a quer ter.


 

Votar


 


Não há frio, vento, chuva, sol abrasador ou nevoeiro pesado que me impeça de votar. Votar é uma festa, um orgulho, um acto de cidadania. Votar é ter uma palavra a dizer sobre o nosso destino colectivo.


 


A democracia tem como base o poder das pessoas, do povo, do todo e de cada um de nós. As eleições são um dos momentos chave do regime democrático. Cada voto conta.


 


ADENDA: Não se enerve se não souber o seu número de eleitor. Basta:



  • ir ao site: http://www.recenseamento.mai.gov.pt

  • enviar um SMS para o nº 3838 com a seguinte mensagem: RE nº do Bilhete de Identidade/Cartão do Cidadão data de nascimento=AAAAMMDD

  • telefonar para 808 206 206

  • ir à Junta de Freguesia.

22 janeiro 2011

Da compra e uso de chapéus

 



 




Olhando para este chapéu, diria que










View Results
Create a Blog Poll



Pequenos gestos


 


 


Ontem, quando estacionei o carro em Lisboa e me aproximei da caixa para adquirir o ticket de parqueamento, ouvi umas buzinadelas e uns gritos de Hei! Senhora!


 


Virei-me espantada, sem perceber muito bem se o chamamento me era dirigido. Dentro de um carro muito velho, um homem dizia-me que não tirasse o ticket, porque o dele ainda dava para mais 1:15h. Aproveite! Quase não tive tempo de agradecer.


 


Aproveitei. Alguns pequenos gestos devolvem-nos, ainda que momentaneamente, a fé na verdadeira generosidade.


 

Café Progresso

 


 


Manhã no Porto, sem destino nem rumo. Deambulando pela Praça Carlos Alberto e pelas ruas à volta.


 


Entro no Café Progresso, com a penumbra dos cafés a sério, das tertúlias, dos habituais cafés com jornais, pastelinhos a acompanhar, vida a meio ou a escorrer para tantos olhos pensativos sobre as mesas.


 


Um aviso aos novatos - provem o café de saco, o verdadeiro, à portuguesa. E eu provei. Café que cheira a sem tempo, com letras e com poemas, café demorado nas palavras, no sabor de não ter compromissos.


 


Manhã no Porto, sem destino nem rumo. Entro na Poetria, pequena, cheia de gente secreta que aqui encontra o seu lugar.


 

Meditando


Addis: North Wind and South Wind


 


E aqui estamos nós no meio de um sábado glorioso a matar horas para chegar o dia de amanhã. Como não podemos falar no assunto, podemos pensar, olhar, rir e suspirar pela enorme e monumental realidade que cairá nas nossas cabeças. Na realidade ela já caiu, mas é sempre bom pensar que poderemos ser salvos por algum desígnio divino ou terreno, no último segundo do último minuto, que na penumbra cósmica as forças se congregam e tudo tende ao momento zen.


 


E aqui estamos nós, preguiçosamente meditando no que já está muito meditado.


 


21 janeiro 2011

Qualquer coisa

 



 Tiago Taron: soprado 3


 


Vidros algas qualquer coisa de neve


qualquer coisa de espelho


qualquer coisa de leve.


 


Febre gelo qualquer coisa que corre


qualquer coisa de velho


qualquer coisa que morre.


Sinal

 



Tiago Taron: a preto e branco


 


Não são precisos os teus passos


nesta estrada que constróis.


Mas a areia que se acumula no caminho das horas


que transportas e nas plantas que percorres


erguem fragmentos de vida que de ti esperam


um sinal.


 

Cumes


Tiago Taron: soprado


 


Verdes sumos


dormentes lumes


sementes húmus


repentes cumes


pendentes


carentes


rumos.


 

Votar no Domingo


  


Nós não podemos prolongar esta campanha por mais três semanas. Os custos seriam muito elevados para o país e seriam sentidos pelas empresas, pelas famílias, pelos trabalhadores, desde logo, pela via da contenção do crédito e pela subida das taxas de juro.


 


Arrastar esta campanha mais três semanas, por desviar as atenções daquilo que é essencial, lançaria custos acrescidos sobre todos os cidadãos portugueses. E é por isso que tenho apelado aos portugueses para que não fiquem em casa.


 


Cavaco Silva


 


Custa a acreditar que o actual Presidente da República e candidato à reeleição use estes argumentos para cativar os eleitores. Para Cavaco Silva os custos da democracia podem ser evitados.


 


Amanhã é dia de meditação e de contenção, um silêncio tornado ainda mais necessário para tentar acalmar a triste campanha a que assistimos, desde o BPN/SLN às ameaças de morte, à defesa dos animais e à candidatura de um colectivo partidário, tudo tem contribuído para dar a razão a quem reitera que não vale a pena votar.


 


Não concordo, nem nunca concordei, com boicotes eleitorais. A ausência de votos na região de Coimbra em protesto por causa do Metro parece-me totalmente deslocado, sem qualquer consequência. Nem a visibilidade da notícia fará qualquer diferença, enquanto que a demissão do acto eleitoral tem consequências directas nos próximos 5 anos.


 


A falta de poderes presidenciais é outro dos argumentos que sustentam a abstenção. No entanto, mesmo que sejam poucos, esses poderes podem ser cruciais e para os exercer é bom que o Presidente, mandatado pelo povo, esteja à altura de quaisquer circunstâncias.


 


O Presidente é também uma figura simbólica e de referência. Cavaco Silva é o símbolo do que passou, de um Portugal atrasado, pequenino, comezinho. O Portugal da minha senhora, do tenho que a sustentar, das manobras de bastidores, da manipulação dos media, da desonesta criação de factos políticos. Cavaco Silva é alguém que demonstrou que não é confiável.


 


É claro que só podemos escolher alguém de entre os que se apresentam para ser escolhidos. É nosso direito e nosso dever participarmos nessa escolha, nesse afirmar colectivo do que queremos ser.


 


Por isso no Domingo irei votar. Não me revejo em nenhum dos candidatos, mas ainda me revejo menos no candidato Cavaco Silva. No Domingo irei votar para que haja uma 2ª volta, para que seja possível derrotar Cavaco Silva.


16 janeiro 2011

Investigação Científica


 


Nos últimos dois dias decorreu, na Fundação Champalimaud, o 2011 Champalimaud Cancer Research Symposium, em homenagem trabalho de Judah Folkman, organizado por James Watson (foi quem, juntamente com Francis Crick, descobriu a estrutura da molécula de DNA) e Raghu Kalluri.


 


Foi um acontecimento científico do mais alto nível. Estiveram presentes cientistas cujo trabalho se tem centrado em perceber os mecanismos do microambiente tumoral, mais precisamente da angiogénese, com o objectivo de desenvolver terapêuticas que impeçam o fenómeno da mestastização.


 


Apesar da simplicidade dos palestrantes, do entusiasmo dos interlocutores e das perguntas dos participantes, não pude deixar de me aperceber, com alguma angústia e muita humildade, a enorme quantidade de descobertas que diariamente são feitas, a perseverança e persistência dos cientistas, o quanto não sei e gostaria de saber.


 


No meio da transcrição genética, dos supressores dos factores de crescimento vascular, dos indutores da hipoxia e da diferenciação celular, reverente e esperançosa como numa catedral, senti um imenso orgulho por poder assistir a este meeting, num auditório belíssimo, repleto de gente nova e faminta de novidades.


 

13 janeiro 2011

Um dia como os outros (79)

 Carlos Castro não me era indiferente. Pelo contrário, personalizava muitas coisas de que não gosto e que se tornaram muito populares (a histeria mundana; a vulgaridade mediática e a coscuvilhice de sarjeta promovida a jornalismo). Mas o modo condescendente como tem sido tratado o seu bárbaro assassinato, com reflexo nos media e nesse esgoto a céu aberto que são as caixas de comentários e os diversos fóruns, é um fiel retrato do país. (...)


 


Pedro Adão e Silva


 


 


Na mesma semana em que foi assassinado um cronista social faleceu um capitão de Abril, ao primeiro a comunicação social dedica horas, ao segundo dedicou minutos, para o primeiro são ouvidas dezenas de “personalidades”, do segundo nada se diz, do primeiro até temos de saber por onde vão ser distribuídas as cinzas, do segundo soube-se que o corpo esteve algures em câmara ardente, do primeiro traça-se um perfil de grande lutador pelas liberdades, do segundo pouco mais se diz que era um oficial na reserva. (...)


 


Jumento


12 janeiro 2011

Sem disfarce

 



 


Cavaco Silva largou o disfarce para assumir, mas disfarçadamente, a liderança da oposição.


 


Por muito que todos os comentadores encartados da sua área política de apoio todos os dias gritem que o FMI está mesmo a ultrapassar a fronteira, as coisas têm corrido mal à oposição. Parece que, afinal, o défice vai ser cumprido e que o leilão da dívida correu bem, tendo havido muito mais compradores do que títulos de dívida.


 


Passos Coelho, no fim-de-semana passado, avisou que o governo se deveria demitir caso o FMI fosse chamado a salvar Portugal. O que, aliás, é um disparate, porque é a Assembleia que deve demitir o governo. Segue-se a grave crise política, qual bandeira do Presidente e candidato presidencial, que só existirá se ele próprio a provocar, pois as razões de Passos Coelho começam a esvaziar-se.


 


É preciso votar no dia 23, é imperativo que se force Cavaco Silva a uma segunda volta.


 


10 janeiro 2011

Vítor Alves


 


Estou totalmente fora de moda. Até na vontade que tenho de homenagear Vítor Alves, um dos militares que devolveu a liberdade e a democracia a Portugal.


 


Mas, com é costume dizer-se, o clássico nunca sai de moda. E os heróis, os verdadeiros, têm lugar cativo na nossa memória.


 

09 janeiro 2011

Do desdobramento do eu

 



Costa Pinheiro: Fernando Pessoa 


 


Tenho direito a um número de anos que não chegarão para o que queria fazer, para o que queria ser. Pudesse eu ter outras em mim que se multiplicassem, observassem o mundo, vivessem intensamente e soubessem transmiti-lo em dor e prazer.


 


Umas das vidas que gostaria de viver em paralelo e simultaneamente, era a de estudiosa de Fernando Pessoa. Pessoa inventou-se múltiplas vezes, foi nascendo e morrendo, foi médico, engenheiro naval, camponês, louro e moreno, alto e baixo, sonhador e observador, sentimental e rigoroso.


 


Breve o dia, breve o ano, breve tudo.


      Não tarda nada sermos.


Isto, pensado, me de a mente absorve


      Todos mais pensamentos.


O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,


      Que, inda que mágoa, é vida.


 


Ricardo Reis


 


E no entanto, entre Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos há um traço comum, que está para além do próprio Fernando Pessoa, ele mesmo – a eterna e constante interrogação, o olhar de fora para dentro, dissecando o pensamento nas possíveis moléculas, a viagem interior de quem tenta entender o mistério de ser um e muitos, a maravilha da criação – a dele e a do universo, a passagem do tempo e a irreversibilidade de ser o que passou, a inevitabilidade do que passou e do que virá.


 


Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define.
A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que
distingue, uma...


 


Alberto Caeiro


 


A morte como objecto da poesia de Fernando Pessoa. Destacando-a de sentido, retira sentido também à vida, à vida que prepara a morte, pois tudo vai morrendo e passando ao longo da vida.


 


Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam…


 


Depois de escrever, leio…
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…


 


Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?


 


Álvaro de Campos


 


A separação do eu para o eu, o não reconhecimento do que foi, no imediato instante de o ter sido. Mais uma vez tudo é finito, tudo existe para além de si mesmo, criação de um ser ou ente que é ele e é outro exterior a ele.


 


Verdadeiramente
Nada em mim sente.
Há uma desolação
Em quanto eu sinto.
Se vivo, parece que minto.
Não sei do coração.


 


Outrora, outrora
Fui feliz, embora
Só hoje saiba que o fui.
E este que fui e sou,
Margens, tudo passou
Porque flui.


 


Fernando Pessoa


 


Vive-se sempre ao contrário do que se vive. O ser e a sua negação, o uno e o divisível.


 

Manual de sobrevivência

 



 Bailey Doogan: The Hard Place


 


Agarro as pontas do mundo, por baixo do fundo ou de cima das nuvens, sempre distante. Observo cientificamente os humores, os sentidos, as vontades, os desesperos, de uma forma mais ou menos ténue, como se nada me tocasse.


 


Trato a decrepitude do corpo, as pernas enroladas por veias nodosas, as articulações preguiçosas, os músculos doridos, as insónias constantes, a desidratação do cérebro, como um pequeno detalhe na roda dentada da vida. Mais entalhes e mais dentes, o tempo decorre aos soluços e eu desprendo-me dos restos do mundo para um fundo só meu, muito meu.


 

08 janeiro 2011

Danza ritual del fuego









Manuel de Falla: El amor brujo


Daniel Barenboim

Da incompetência

 



 


A entrevista de Judite Sousa a José Manuel Coelho é um monumento à inacreditável incompetência, soberba, enviesamento do que é o serviço público de informação.


 


Vale a pena ouvir. É vergonhoso.


 


Adenda: (...) Não tive vergonha por Coelho: não serei eu a julgar os estranhos meios a que é preciso deitar mão para resistir a tiranetes insulares. Mas tive vergonha por aquela jornalista, na televisão pública, a tentar ser mais ridícula do que um candidato que usa o ridículo como forma de guerrilha.
Quem só se agiganta perante os pequeno é por que é ainda mais pequeno.


 

Da diferença das campanhas negras

 



 


Após a releitura do post anterior torna-se necessário um esclarecimento. Não considero idênticas as campanhas de ataque ao carácter pré eleições legislativas e presidenciais. Na verdade, Sócrates foi alvo das mais descabeladas acusações, insinuações, desconfianças e insultos, a propósito de um caso fabricado por adversários políticos, versado à exaustão pelos meios de comunicação social. Esteve no centro de uma pornografia judiciária mas, mesmo depois de todo o esforço, não foi possível associá-lo a qualquer actividade criminosa. Estou a falar do Freeport. Depois veio o Face Oculta, mais uma triste actuação da nossa justiça, mais uma batalha suja entre os jornalistas independentes, mais assassinatos de carácter.


 


Em relação a Cavaco Silva, que se apresenta ao eleitorado como uma pessoa cuja integridade moral não é questionável, tanto em termos de valores como de excelência profissional, colocando-se num plano distinto dos outros actores políticos, descredibilizando a própria actividade política, abre todo o espaço para que se questione a veracidade dessa imagem.


 


Mais importante e interessante do que as acções do BPN/SLN, porque não se fala dos responsáveis pela administração do BPN? Quem são, o que fizeram, onde estão, o que têm a dizer? Não há quem investigue esses factos, ligações, comprometimentos e actos de gestão? E as instituições de supervisão, empresas de auditoria, Banco de Portugal? Não há jornalistas que se interessem por essas faces ocultas e silenciosas?


 

07 janeiro 2011

Da necessidade de uma segunda volta nas presidenciais

 


 



 


A campanha para as presidenciais não tem nada a ver com opções políticas, ideologia, desígnios nacionais e motivação. Tem a ver com ataques de carácter, tal como a anterior campanha para as legislativas, em 2009. Quem se indignou perante as suspeições levantadas sobre Sócrates, a asfixia democrática, as inventadas escutas do governo ao Presidente, as alegadas manobras do PS e dos assessores, é quem, neste momento, se refastela com as acusações e insinuações sobre a falta de honestidade de Cavaco Silva. Pelo contrário, quem protagonizou a indigna campanha contra Sócrates, indigna-se agora pela negrura da campanha contra Cavaco Silva.


 


O que a mim mais me incomoda é o que a situação das acções compradas e vendidas por Cavaco Silva, o BPN e a SLN, demonstra, se precisas fossem mais provas, que a comunicação social está totalmente a soldo dos vários poderes, neste caso dos políticos. A independência da informação não existe. As histórias do Freeport apareceram precisamente antes das eleições legislativas. A história das acções do BPN foi repescada precisamente antes das eleições presidenciais, apesar de ter sido divulgada, pelo Expresso, após a saída de Dias Loureiro do Conselho de Estado.


 


O veto político do Presidente ao diploma para simplificação dos procedimentos de mudança de sexo e de nome próprio, apenas se entende como uma manobra eleitoralista, visando agradar ao eleitorado da direita, completamente incoerente depois de, o mesmo Presidente, ter promulgado a legalização do casamento entre indivíduos do mesmo sexo.


 


Cavaco Silva pode e deve ser avaliado pela sua actuação política enquanto Presidente da República. E foi, e é, um péssimo Presidente. A sua visão da sociedade, arcaica, machista, de cunho religioso, conservador, caritativo, a sua falta de distanciamento partidário, a sua hipocrisia e maquiavelismo, que não passam desapercebidos a ninguém, são razões para a absoluta necessidade de levar Cavaco Silva a uma segunda volta.


 


Os eleitores do PS que não se revêem na candidatura de Manuel Alegre, deverão olhar para os outros candidatos e votar, em Defensor de Moura, Fernando Nobre, Francisco Lopes ou José Manuel Coelho, mas votar, para que seja possível uma outra hipótese de escolha, uma segunda oportunidade para derrotar Cavaco Silva. Deverão ainda ponderar se é este o Presidente que estão dispostos a aceitar por mais cinco anos.


 

06 janeiro 2011

Janeiras


 


 


Todo o ano cantaremos


dor, espanto, alegrias


janeiremos, dezembremos


pela vida, todos os dias.


 


Se esta porta fechar


rasgaremos uma janela,


entraremos pelo pomar,


plantaremos uma estrela.


 


Pelos lutos do futuro


rezaremos pelo Natal,


sempre em luta, pelo muro


saltaremos, a bem ou a mal.

03 janeiro 2011

Entrevista com Defensor de Moura

 


A entrevista a Defensor de Moura, que acabou agora mesmo na RTP1, foi medíocre, por culpa da entrevistadora. Para Judite Sousa não foi importante tentar esclarecer os eleitores sobre as ideias que Defensor de Moura tem ou não tem. As perguntas focaram-se nas divergências com as candidaturas de Cavaco Silva e Manuel Alegre, sobre os anos de autarca e sobre os baixos custos da campanha, mas sempre com pendor pessoal, na tentativa de transformar a entrevista numa sucessão de escárnio e mal dizer.


 


Pela primeira vez tive ocasião de ouvir Defensor de Moura e gostei. Gostei até muito.


 


Uma coisa é certa. É absolutamente necessário tentar que haja uma segunda volta. Tudo é preciso para mobilizar os votantes. Embora não me reconheça em nenhum dos candidatos, reconheço-me ainda menos na presidência protagonizada por Cavaco Silva. Em democracia, com eleições livres, não há inevitabilidades.


 

02 janeiro 2011

Primeiros meses

E agora que terminamos as pequenas tréguas nas nossas preocupações bem melancólicas, com a primeira semana do ano à nossa frente, regressamos aos assuntos suspensos entre o Natal e o Ano Novo.


 


As eleições presidenciais deixaram de ser uma disputa para ser uma certeza. De interessante apenas há a presença de um candidato que não teve direito a debates. A nossa comunicação social não esperou pela decisão do Tribunal Constitucional. Espero a resolução que se impõe para restabelecer o respeito pela igualdade de oportunidades a todos os elegíveis.


 


Na próxima revisão constitucional seria de ponderar a alteração dos mandatos presidenciais para um, de 7 anos, pois a reeleição do Presidente da República tem sido uma constante, esvaziando esta eleição de conteúdo.


 


Aguardamos a decisão do Parlamento em relação ao governo, após as presidenciais. Passos Coelho está convencido que ganhará as próximas legislativas e quererá precipitá-las. Entretanto deverá desencadear-se a luta pelo poder, dentro do PS, numa tentativa de minimizar os estragos eleitorais.


 


Entretanto a crise continuará a justificar e a desculpar todas as decisões, suspensões, recuos e austeridades. Os mercados continuarão a ser invocados, reagindo seja quais forem as medidas entretanto tomadas.


 


E a nós cabe-nos trabalhar, protestar, desconfiar, debater, perguntar e exigir. Não só aos outros mas sempre, e sobretudo, a nós próprios. A revolução começa dentro das nossas cabeças.

01 janeiro 2011

Mapa de uma orquestra

 


Não sabia como se organizava uma orquestra. Fiquei a saber que os músicos têm uma forma específica de se colocarem à volta do maestro.


 


Começar com música


  


Concerto de Ano Novo, CCB


 


Orquestra Metropolitana de Lisboa


  


Direcção musical - Mark Laycock

 


JOHANN STRAUSS II 
Abertura de O Morcego, op. 367; Abram alas, polca rápida, op. 45; Na floresta de
Krapfen
, op. 336; Sejais abraçado, milhões!, op. 443

JOSEF STRAUSS 
Amor Ardente, polca-mazurca, op. 129
JOHANN STRAUSS II 
Galope dos Bandidos, op. 378
JOSEF STRAUSS 
Valsa Delírio, op. 212
ALMICARE PONCHIELLI 
Dança das Horas, bailado da ópera La Gioconda
JOHANN STRAUSS II 
Danúbio Azul, valsa, op. 314
JOHANN STRAUSS I 
Marcha Radetzky, op. 228


 


 




Versão da Orquesta Filarmónica de Viena - Concerto de Ano Novo (2011)

Do novo ano

 


 



 


Precisamos de rituais, mesmo que saibamos a inutilidade das garrafas de champanhe, a pobreza dos alegres votos de felicidade, repartidos e partilhados com quem, em nenhuma outra ocasião, mereceu alguns segundos de atenção.


 


Repentinamente, por muito que honestamente sonhemos com autenticidade e simplicidade, vemo-nos arrastados pelos balanços próprios e alheios, pelos receios veiculados por futuristas profissionais, sem percebermos exactamente a futilidade das introspecções por decreto.


 


Tenho os meus rituais, ridículos ou sublimes, confortáveis ou inevitáveis, que passam pelo preenchimento da nova agenda Moleskine, alternadamente encarnada ou preta, pela assistência ao Concerto de Ano Novo, e pela solene resolução de ser feliz.


 


Passeio pela casa, abro as janelas para o dia solarengo e brilhante, vestindo lentamente o dia, igual aos anteriores e aos seguintes que, pelas barreiras que nos vamos colocando e pelas metas que vamos alcançando, se transforma numa divisória.


 


Recomecemos. E talvez a minha relação difícil com as vozes que se investem duma autoridade que ninguém lhes outorgou, me leve à firme intenção de fazer deste ano um conjunto de dias, projectos e felicidades muito melhores e maiores que os anteriores.


 

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...