09 janeiro 2011

Do desdobramento do eu

 



Costa Pinheiro: Fernando Pessoa 


 


Tenho direito a um número de anos que não chegarão para o que queria fazer, para o que queria ser. Pudesse eu ter outras em mim que se multiplicassem, observassem o mundo, vivessem intensamente e soubessem transmiti-lo em dor e prazer.


 


Umas das vidas que gostaria de viver em paralelo e simultaneamente, era a de estudiosa de Fernando Pessoa. Pessoa inventou-se múltiplas vezes, foi nascendo e morrendo, foi médico, engenheiro naval, camponês, louro e moreno, alto e baixo, sonhador e observador, sentimental e rigoroso.


 


Breve o dia, breve o ano, breve tudo.


      Não tarda nada sermos.


Isto, pensado, me de a mente absorve


      Todos mais pensamentos.


O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,


      Que, inda que mágoa, é vida.


 


Ricardo Reis


 


E no entanto, entre Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos há um traço comum, que está para além do próprio Fernando Pessoa, ele mesmo – a eterna e constante interrogação, o olhar de fora para dentro, dissecando o pensamento nas possíveis moléculas, a viagem interior de quem tenta entender o mistério de ser um e muitos, a maravilha da criação – a dele e a do universo, a passagem do tempo e a irreversibilidade de ser o que passou, a inevitabilidade do que passou e do que virá.


 


Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define.
A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que
distingue, uma...


 


Alberto Caeiro


 


A morte como objecto da poesia de Fernando Pessoa. Destacando-a de sentido, retira sentido também à vida, à vida que prepara a morte, pois tudo vai morrendo e passando ao longo da vida.


 


Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam…


 


Depois de escrever, leio…
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…


 


Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?


 


Álvaro de Campos


 


A separação do eu para o eu, o não reconhecimento do que foi, no imediato instante de o ter sido. Mais uma vez tudo é finito, tudo existe para além de si mesmo, criação de um ser ou ente que é ele e é outro exterior a ele.


 


Verdadeiramente
Nada em mim sente.
Há uma desolação
Em quanto eu sinto.
Se vivo, parece que minto.
Não sei do coração.


 


Outrora, outrora
Fui feliz, embora
Só hoje saiba que o fui.
E este que fui e sou,
Margens, tudo passou
Porque flui.


 


Fernando Pessoa


 


Vive-se sempre ao contrário do que se vive. O ser e a sua negação, o uno e o divisível.


 

2 comentários:

  1. e o não ser00:03

    Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010Desemprego
    O meu Ano está a acabar em força, em tudo !
    Segundo as últimas notícias vou ser mais uma que irá fazer parte da estatística de desemprego no próximo ano.
    E não sou única, mais uma "pequena-média" empresa que não resiste ao poder que o fisco tem, para deitar abaixo as empresas que eles não consideram rentáveis, mas que dão de comer neste caso a mais 50 pessoas do distrito de Setúbal.
    Linda prenda de Natal que estou a ter, sem subsídio e sem previsão para salários de fim de mês.
    Não é ainda facto consumado, mas a caminhar a passos largos para se consumar no final deste mês.
    Aceito a proposta que me foi feita de trabalhar sem remuneração e ficar no barco ou deixo o barco afundar e depois de inundado tento vir ao de cima e sobreviver.
    Questão de sobrevivência já é ... por quanto tempo...não sei!
    Sem discernimento para conseguir tomar uma decisão neste momento, só consigo pensar em duas hipóteses:
    1ª Aceito o despedimento sem compensação por ser efectiva, pelos anos que trabalhei e vou para o desemprego.
    2ª Não aceito e fico a trabalhar sem salário até se tentar resolver esta crise (se fôr resolvida).

    Na primeira hipótese espero dois ou três meses pelo pagamento do subsídio e tenho alguma coisa não sei se dois se três anos.
    Na segunda aguento os mesmos dois ou três meses sem receber nada e posso ou não continuar com o meu local de trabalho assegurado.

    Estes meses próximos já sei que não irão ser fáceis, seja qual fôr a decisão tomada.
    O subsídio termina ao fim do tempo legal e aí fico sem nada, que como o País está e com a minha idade não vou arranjar emprego de certeza.
    Na segunda hipótese fico na mesma sem nada num futuro próximo, mas caso as coisas se recomponham (só milagre), mantenho o meu posto de trabalho.

    Depois existe a ligação à Empresa que me deixa triste por abandonar o barco numa altura difícil e em que sei que faço falta.

    Que faço ? Não consigo pensar ... não consigo nada ... parece mentira mas nem chorar consigo !
    Publicada por Luar em 06:17

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