Costa Pinheiro: Fernando Pessoa
Tenho direito a um número de anos que não chegarão para o que queria fazer, para o que queria ser. Pudesse eu ter outras em mim que se multiplicassem, observassem o mundo, vivessem intensamente e soubessem transmiti-lo em dor e prazer.
Umas das vidas que gostaria de viver em paralelo e simultaneamente, era a de estudiosa de Fernando Pessoa. Pessoa inventou-se múltiplas vezes, foi nascendo e morrendo, foi médico, engenheiro naval, camponês, louro e moreno, alto e baixo, sonhador e observador, sentimental e rigoroso.
Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensado, me de a mente absorve
Todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que, inda que mágoa, é vida.
Ricardo Reis
E no entanto, entre Fernando Pessoa, Ricardo Reis, Alberto Caeiro e Álvaro de Campos há um traço comum, que está para além do próprio Fernando Pessoa, ele mesmo – a eterna e constante interrogação, o olhar de fora para dentro, dissecando o pensamento nas possíveis moléculas, a viagem interior de quem tenta entender o mistério de ser um e muitos, a maravilha da criação – a dele e a do universo, a passagem do tempo e a irreversibilidade de ser o que passou, a inevitabilidade do que passou e do que virá.
Creio que irei morrer.
Mas o sentido de morrer não me ocorre,
Lembro-me que morrer não deve ter sentido.
Isto de viver e morrer são classificações como as das plantas.
Que folhas ou que flores tem uma classificação?
Que vida tem a vida ou que morte a morte?
Tudo são termos onde se define.
A única diferença é um contorno, uma paragem, uma cor que
distingue, uma...
Alberto Caeiro
A morte como objecto da poesia de Fernando Pessoa. Destacando-a de sentido, retira sentido também à vida, à vida que prepara a morte, pois tudo vai morrendo e passando ao longo da vida.
Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam…
Depois de escrever, leio…
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?
Álvaro de Campos
A separação do eu para o eu, o não reconhecimento do que foi, no imediato instante de o ter sido. Mais uma vez tudo é finito, tudo existe para além de si mesmo, criação de um ser ou ente que é ele e é outro exterior a ele.
Verdadeiramente
Nada em mim sente.
Há uma desolação
Em quanto eu sinto.
Se vivo, parece que minto.
Não sei do coração.
Outrora, outrora
Fui feliz, embora
Só hoje saiba que o fui.
E este que fui e sou,
Margens, tudo passou
Porque flui.
Fernando Pessoa
Vive-se sempre ao contrário do que se vive. O ser e a sua negação, o uno e o divisível.
Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010Desemprego
ResponderEliminarO meu Ano está a acabar em força, em tudo !
Segundo as últimas notícias vou ser mais uma que irá fazer parte da estatística de desemprego no próximo ano.
E não sou única, mais uma "pequena-média" empresa que não resiste ao poder que o fisco tem, para deitar abaixo as empresas que eles não consideram rentáveis, mas que dão de comer neste caso a mais 50 pessoas do distrito de Setúbal.
Linda prenda de Natal que estou a ter, sem subsídio e sem previsão para salários de fim de mês.
Não é ainda facto consumado, mas a caminhar a passos largos para se consumar no final deste mês.
Aceito a proposta que me foi feita de trabalhar sem remuneração e ficar no barco ou deixo o barco afundar e depois de inundado tento vir ao de cima e sobreviver.
Questão de sobrevivência já é ... por quanto tempo...não sei!
Sem discernimento para conseguir tomar uma decisão neste momento, só consigo pensar em duas hipóteses:
1ª Aceito o despedimento sem compensação por ser efectiva, pelos anos que trabalhei e vou para o desemprego.
2ª Não aceito e fico a trabalhar sem salário até se tentar resolver esta crise (se fôr resolvida).
Na primeira hipótese espero dois ou três meses pelo pagamento do subsídio e tenho alguma coisa não sei se dois se três anos.
Na segunda aguento os mesmos dois ou três meses sem receber nada e posso ou não continuar com o meu local de trabalho assegurado.
Estes meses próximos já sei que não irão ser fáceis, seja qual fôr a decisão tomada.
O subsídio termina ao fim do tempo legal e aí fico sem nada, que como o País está e com a minha idade não vou arranjar emprego de certeza.
Na segunda hipótese fico na mesma sem nada num futuro próximo, mas caso as coisas se recomponham (só milagre), mantenho o meu posto de trabalho.
Depois existe a ligação à Empresa que me deixa triste por abandonar o barco numa altura difícil e em que sei que faço falta.
Que faço ? Não consigo pensar ... não consigo nada ... parece mentira mas nem chorar consigo !
Publicada por Luar em 06:17
por vezes somente por vezes
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