29 julho 2007

Mude-se a lei

A falta de justiça, em sentido lato, e a impunidade são dos mais graves sintomas de falência de um estado de direito democrático e, infelizmente, o que se passa em Portugal está muito próximo disso.

Como me lembravam algumas pessoas numa conversa de café, a justiça foi dos únicos sectores em que não houve profundas mudanças após o 25 de Abril, até parece que por um pacto não escrito entre os dois principais partidos, antecessor do pacto para a justiça celebrado entre o PS e o PSD, já na vigência desde governo.

Vem isto a propósito da notícia de destaque do Público de hoje (Reforma negada em cinco minutos e quatro linhas, pág. 2 do caderno 1), que conta o caso de uma funcionária pública que após ser submetida a vários tipos de tratamentos por cancro intestinal, muitos anos de trabalho e pouca qualidade de vida, inclusivamente sequelas que não lhe permitiam ter uma vida profissional normal, decidiu pedir a reforma, apoiada por pareceres médicos assinados pelo Oncologista que a assistia e exames de vários tipos. A reforma foi recusada sem que eles tivessem sido apreciados, sem que a doente fosse ouvida, sem que a recusa fosse fundamentada, oralmente ou por escrito, por uma junta em que os médicos que a constituíam nem sequer se deram ao trabalho de cumprimentar a senhora.

Este caso refere-se a juntas médicas mas podíamos falar dos serviços camarários ou quaisquer outros serviços, do Estado ou particulares. É claro que é muito melhor e mais fácil, em vez de verificar se a aplicação das leis está a ser feita correctamente, por profissionais competentes, idóneos e interessados, em vez de se responsabilizar os eventuais prevaricadores, é muitíssimo melhor e mais fácil alterar as leis.

A actividade legislativa substitui a actividade de regulamentar e fiscalizar, nunca se exigindo responsabilidades, competência e dignidade no exercício da profissão.

Neste caso a lei já mudou. Será que a sua aplicação também vai mudar?

4 comentários:

  1. quintino21:40

    É claro que é muito melhor e mais fácil, em vez de verificar se a aplicação das leis está a ser feita correctamente, por profissionais competentes, idóneos e interessados, em vez de se responsabilizar os eventuais prevaricadores, é muitíssimo melhor e mais fácil alterar as leis - voê tem razão, sim senhor.
    Mas nestas coisas já se sabe como é... por exemplo, onde trabalho temos 8 juristas.
    Quem lá manda é o PSD.
    Contas feitas, 3 jovens são abnegadas militantes que entraram agora. 1 é um verme sem coluna vertebral que no dia em que a coisa mudou passou a ser "desde ontem" do PSD e hoje é Chefe de Divisão.
    Outro é PP mas moderado, sensato e competente.
    Um outro é indepedente e cá o escriba é PS.
    Quem dá no duro, quem dá?
    Os três últimos. Mas no Urbanismo estão duas das meninas e nas Contra-Ordenações outra. Et poir cause...

    ResponderEliminar
  2. quintino21:41

    Desculpe, citei-a sem colocar entre aspas.
    Já agora, acho que a vou linkar.

    ResponderEliminar
  3. Filipe Tourais16:57

    Sobretudo sente-se que a aplicação da lei e o acesso à justiça não são iguais para todos. Veja-se o caso que faz notícia hoje nos jornais, sobre a operação furacão e compare-se com o caso da velhota do creme do Lidl. Ainda hoje escrevi sobre isto, a aplicação da lei aos ricos e aos pobres não se faz da mesma forma. No primeiro, o Ministério Público disponibiliza-se para perdoar a acusação aos arguidos que foram constituídos no decurso do processo, no segundo a senhora foi acusada e teve que aparecer uma factura que documentasse a sua absolvição.

    ResponderEliminar
  4. Sofia Loureiro dos Santos21:33

    Filipe Tourais, tem todaa razão.
    Quintino, infelizmente já senti isso. Obrigada pelo link.

    ResponderEliminar

Ao décimo terceiro dia do mês de outubro

  Isabel baralha as cores Dos seus mundos preferidos Partilha dias e flores Como sonhos prometidos   Isabel fala com as fadas Ra...