30 novembro 2018

Prosas Bíblicas - Livro 1

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23.


 


Pus-me ao sol a depurar


Em busca da tua essência


Sentimentos a crestar


Em rios de decadência


 


Passam noites passam dias


O tempo corre e dilata


Corpos sofrem agonias


As almas viram sucata


 


Sacudi estrelas e pó


Resíduo do que ficou


Na verdade estou só


Nada de novo mudou


 


in Prosas Bíblicas, Livro 1 (pág. 35)


na Ler Devagar

29 novembro 2018

Prosas Bíblicas - Livro 1

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10.


 


Bebi a água sagrada


Junto à fonte da verdade


A minha face banhada


Êxtase de santidade


 


Subi ao trono bem alto


Degraus firmeza rigor


A vida sem sobressalto


A alma sempre em fulgor


 


Pensei que me era devido


O ouro o mel e o pão


O paraíso perdido


Na palma da minha mão


 


Caí do meu pedestal


Estilhacei os espelhos


Condenada afinal


A caminhar de joelhos


 


in Prosas Bíblicas, Livro 1 (pág.22)


na Ler Devagar

Caminhos magnéticos

27 novembro 2018

Ausência

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Ouvi dizer que se apagou uma das luzes


de outrora.


Mas na verdade não havia luzes que se apagassem.


Elas permaneciam mudas ou deslumbrantes


como agora


e mesmo que não se mostrem ardem em silêncio


e alumiam os cantos escuros das ausências


eternamente quedas e cintilantes


de transparências.


 

24 novembro 2018

Intrusos

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Jonathan Callan


 


Os óculos abandonados sobre a secretária, os papéis cobertos de anotações, números e letras ilegíveis, os jornais espalhados pela mesa, uma manta, o pijama passado a ferro e dobrado, a sensação constante de que vai aparecer à porta um vulto quase sem espessura, quase transparente, o som da voz ainda forte, a silabar os nomes. Os despojos, os artefactos que representam os dias, as pequenas tarefas quotidianas, os gestos que fazem o ritual de viver, o alimento do corpo e do espírito. Uma casa que repentinamente se despiu e esfriou, recolhendo os intrusos que devassam sem querer um santuário.


 


Papéis e livros, livros e papéis, assim se vai construindo uma história, uma tão exígua amostra de tantos anos de mudanças, vitórias, dúvidas, derrotas, pensamentos elevados e mesquinhos, amores e desamores, alegrias e tristezas, companhia e solidão. Tão pouco resta de nós, tão pouco significativos e importantes somos à luz do que nos julgamos.


 


Não é fácil encarar a ausência definitiva. Temos que esperar o dia em que o tempo faz as pazes para conseguirmos aceitar a nossa própria incapacidade de esquecer.

17 novembro 2018

Hoje

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Há sempre uma hora que tememos e que sabemos inevitável, aquela que teremos que viver. Todas as árvores morrem e o meu pai, qual árvore de tronco rijo, com as raízes bem presas nas suas convicções e na bravura do que conseguiu, partiu com o silêncio e a certeza do dever cumprido.


 


Foi muitas coisas, tantas como tanto já disseram e escreveram, mas para além de todas as coisas foi um homem honrado que honrou a sua vida e o seu País. Foi um modelo e uma razão, um exemplo e uma inspiração, com todos os defeitos e qualidades que todos os pais têm aos olhos dos filhos.


 


Por isso, hoje, sabendo que ninguém será nunca insubstituível, tenho a certeza de que, para mim, ele não é substituível.

11 novembro 2018

Romãs

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Dmitriew George


 


Descasquei uma romã


e desfiz os bagos


como se aprendesse do sangue


a vontade de acabar.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...