24 novembro 2018

Intrusos

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Jonathan Callan


 


Os óculos abandonados sobre a secretária, os papéis cobertos de anotações, números e letras ilegíveis, os jornais espalhados pela mesa, uma manta, o pijama passado a ferro e dobrado, a sensação constante de que vai aparecer à porta um vulto quase sem espessura, quase transparente, o som da voz ainda forte, a silabar os nomes. Os despojos, os artefactos que representam os dias, as pequenas tarefas quotidianas, os gestos que fazem o ritual de viver, o alimento do corpo e do espírito. Uma casa que repentinamente se despiu e esfriou, recolhendo os intrusos que devassam sem querer um santuário.


 


Papéis e livros, livros e papéis, assim se vai construindo uma história, uma tão exígua amostra de tantos anos de mudanças, vitórias, dúvidas, derrotas, pensamentos elevados e mesquinhos, amores e desamores, alegrias e tristezas, companhia e solidão. Tão pouco resta de nós, tão pouco significativos e importantes somos à luz do que nos julgamos.


 


Não é fácil encarar a ausência definitiva. Temos que esperar o dia em que o tempo faz as pazes para conseguirmos aceitar a nossa própria incapacidade de esquecer.

2 comentários:

  1. Anónimo16:07

    Muito bem, Sofia. É isso mesmo.

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  2. Pois é... Sabes que também tenho essa sensação? Parece tão irreal!

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