24 novembro 2013

E pur si muove

 


Ele aí está. Não sei o que quer, mas já não é mau que queira qualquer coisa. Isto é Política. E faz tanta, tanta falta.


 



 

Da defesa do regime

 



 


Apesar de ter passado alguns dias autocentrada por causa do lançamento do livro, não estive de todo alheada do que se passava na actualidade do país. E os motivos de preocupação e tristeza aumentam.


 


O que se passou na manifestação da polícia, com o assalto à escadaria do Parlamento sem reacção por parte de quem deveria ter impedido esse assalto, foi um atentado ao estado de direito e à própria democracia, um sinal de alarme a que todos os democratas e amantes da liberdade devem estar atentos.


 


Começo por não concordar com a existência de sindicatos e associações profissionais de forças militares ou militarizadas, magistrados ou juízes. Muito menos concordo com cercos ou assaltos ao Parlamento, arruaças, grandoladas ou comícios nas galerias da Assembleia da República. A democracia tem regras e num estado de direito essas regras são para serem cumpridas.


 


O que se passou na 5ª feira foi gravíssimo. Ou temos uma força de intervenção cúmplice dos manifestantes por corporativismo, ou temos uma força de intervenção que só é forte com os fracos. O sinal é evidente, em qualquer das circunstâncias – o regime não tem quem o defenda. E isto é um passo de gigante para a violência generalizada e para a destruição da democracia.


 


As razões que assistem à revolta dos polícias são um outro assunto. Os deputados que têm assento na Assembleia, o Presidente da República e o governo resultaram de eleições democráticas e livres. Qualquer destas instituições têm que ser defendidas e preservadas até serem substituídas por meios democráticos. As forças de segurança terão que exercer a sua função porque são para isso mandatadas pelo poder que se originou no voto dos cidadãos.


 


O que me leva às declarações de Mário Soares e ao pedido de demissão de Cavaco Silva. Convém que não nos esqueçamos das manifestações, da recessão, dos salários em atraso, da fome, etc., que aconteceram na altura da intervenção do FMI, quando Mário Soares era Primeiro-minostro. Convém que não se confundam manifestações e apelos, por muitos e clamorosos que sejam, com a vontade do povo. Essa expressa-se em eleições.


 


A liderança do maior partido da oposição anda desaparecida em parte incerta. António José Seguro tanto se faz de morto que já ninguém espera que ressuscite.


 

Da caminhada (2)

  


 


 


 


 


 


 


 

23 novembro 2013

Da caminhada (1)

 



 Carlos Lopes


 


 



 Fernando Pinto do Amaral


 


 



 Nelson Ferreira


 


 



 Natália Luíza


 

Caminho dos ossos

 


 


 


 


É com o tempo que me enredo entre os campos da memória e dos afectos.


 


Lá fora caminhamos sobre escolhos de sonhos que foram, e ainda não sabemos como salvar a vastidão de perguntas que nos restam. Sobram meses sem estação definida, tudo numa mistura sem sabor nem cor que se deseje.


 


Dizemos lá fora para que a fronteira definida pelo corpo alastre e guarde todos os que são as nossas projecções, de carne ou apenas de vontade.


 


Dizemos lá fora para explicar o agreste rumorar dos ruídos estranhos e azedos, o amargo do desperdício.


 


Dizemos lá fora como bandeira de resistência e paixão, como se fosse essencial separar, quebrar o enguiço deste tempo sem cerejas mas com caroços, deste caminho de pedras.


 


É este o tempo da insensível e mórbida mesquinhez. Cada vez mais isolados neste abrigo de névoa, tendemos ao esquecimento das estradas que abrimos e dos sonhos que nos visitam, tentações de felicidade.


 


É este o tempo da revolta, em que as barricadas que erguemos se somam aos abismos cíclicos, aos socalcos do retrocesso.


 


É por isso, meu amor, que em ti me centro, como rocha inamovível de segurança e perfeição, como amparo de ombro e de chão. É por isso meu amor que te detenho, fresco oásis e sombra em dias de solidão.


 


Claros são estes sentidos, claros como as portas que esperam o renovar da terra e o acordar deste sono imenso que nos tolhe e nos aquieta. Ao pó que somos havemos de chegar, de ossos ou de cinza, mas moldados na dignidade de quem tem uma relação de posse com a vida.


 


E assim seremos.


 



Casa Fernando Pessoa, 22 de Novembro de 2013


 


Obrigada a todos os que quiseram partilhar comigo o lançamento do meu livro. Apesar do caos do trânsito, da chuva, do frio, do cansaço de uma semana de trabalho, tive o privilégio de contar com os meus amigos num espaço emblemático.


 


Agradeço especialmente ao Tiago Taron, que transformou um livro numa pequena obra de arte, ao Nelson Ferreira, que emprestou à sessão a delicadeza e a profundidade de Bach, à Natália Luíza, que deu aos poemas uma magia que eu lhes desconhecia, ao Prof. Fernando Pinto do Amaral, cuja intervenção resultou numa brilhante palestra sobre poesia e, finalmente, ao Carlos Lopes que, mais uma vez, assumiu o risco de publicar um livro de poesia.


 


Em Lisboa, o livro estará disponível nas livrarias Barata e Pó dos Livros e, directamente através do site da Edita-Me.


 

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