23 novembro 2013

Caminho dos ossos

 


 


 


 


É com o tempo que me enredo entre os campos da memória e dos afectos.


 


Lá fora caminhamos sobre escolhos de sonhos que foram, e ainda não sabemos como salvar a vastidão de perguntas que nos restam. Sobram meses sem estação definida, tudo numa mistura sem sabor nem cor que se deseje.


 


Dizemos lá fora para que a fronteira definida pelo corpo alastre e guarde todos os que são as nossas projecções, de carne ou apenas de vontade.


 


Dizemos lá fora para explicar o agreste rumorar dos ruídos estranhos e azedos, o amargo do desperdício.


 


Dizemos lá fora como bandeira de resistência e paixão, como se fosse essencial separar, quebrar o enguiço deste tempo sem cerejas mas com caroços, deste caminho de pedras.


 


É este o tempo da insensível e mórbida mesquinhez. Cada vez mais isolados neste abrigo de névoa, tendemos ao esquecimento das estradas que abrimos e dos sonhos que nos visitam, tentações de felicidade.


 


É este o tempo da revolta, em que as barricadas que erguemos se somam aos abismos cíclicos, aos socalcos do retrocesso.


 


É por isso, meu amor, que em ti me centro, como rocha inamovível de segurança e perfeição, como amparo de ombro e de chão. É por isso meu amor que te detenho, fresco oásis e sombra em dias de solidão.


 


Claros são estes sentidos, claros como as portas que esperam o renovar da terra e o acordar deste sono imenso que nos tolhe e nos aquieta. Ao pó que somos havemos de chegar, de ossos ou de cinza, mas moldados na dignidade de quem tem uma relação de posse com a vida.


 


E assim seremos.


 



Casa Fernando Pessoa, 22 de Novembro de 2013


 


Obrigada a todos os que quiseram partilhar comigo o lançamento do meu livro. Apesar do caos do trânsito, da chuva, do frio, do cansaço de uma semana de trabalho, tive o privilégio de contar com os meus amigos num espaço emblemático.


 


Agradeço especialmente ao Tiago Taron, que transformou um livro numa pequena obra de arte, ao Nelson Ferreira, que emprestou à sessão a delicadeza e a profundidade de Bach, à Natália Luíza, que deu aos poemas uma magia que eu lhes desconhecia, ao Prof. Fernando Pinto do Amaral, cuja intervenção resultou numa brilhante palestra sobre poesia e, finalmente, ao Carlos Lopes que, mais uma vez, assumiu o risco de publicar um livro de poesia.


 


Em Lisboa, o livro estará disponível nas livrarias Barata e Pó dos Livros e, directamente através do site da Edita-Me.


 

12 comentários:

  1. ana afonso17:53

    Sofia, louvo a tua coragem e persistência e agradeço-te teres-me convidado para estar presente. Foi muito bonito. Nunca desistas.

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    1. Obrigada, Ana, por teres lá estado. Ainda bem que gostaste.

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  2. Ana Marques Pereira19:03

    Sofia,
    Tenho pena de não poder ter estado presente.
    Fico feliz por ter corrido bem.
    Desejo-te sucesso, um caminho tão difícil de percorrer neste tempo de superficialidades para pessoas como tu.
    Um bj

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    1. Ana, obrigada, também tenho pena que não tenhas assistido. Marcamos encontro para o teu próximo?

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  3. Sofia,
    Parabéns... e que seja lido !

    Vou comprar e ler, isso é certo.

    Abraço

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    1. Porfírio, obrigada. Sim, que seja lido é o mais importante!

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  4. Cristina Loureiro dos Santos23:09

    São momentos como estes que nos fazem sentir mais felizes. Obrigada, Sofia, por teres feito desta sexta-feira invernosa um dia tão lindo :)

    Beijinhos :**

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    1. Obrigada, Cristina. São Pedro estava do contra...
      As fotos já estão publicadas.
      Bj

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    2. Cristina Loureiro dos Santos00:29

      Não gostaste das tuas?
      Uma delas está bem gira ;)
      Beijos!!

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  5. ACÁCIO LIMA20:53

    UMA NOTA SOBRE “CAMINHO DOS OSSOS” E “CAMINHADA”

    01- A Sessão de Apresentação do livro de poemas de Maria Sofia Magalhães Loureiro dos Santos, “Caminho dos Ossos”, teve uma Sala Cheia.
    Quem lá foi veio largamente recompensado por um Espetáculo Cativante e de muita Qualidade.

    02- Como ponto alto, a dissertação brilhante e formalmente inovadora do Professor F. Pinto do Amaral. A leitura singularmente ordenada dos poemas do livro, congeminada por Natália Luísa foi uma excelente recriação. Tudo no envelope estimulante de Bach trazido por Nelson Ferreira, que bem enlaçou os “ossos”. E o editor, Carlos Lopes, que saudou a poetisa e o livro de poemas num tom do melhor recorte intelectual.

    03- Este livro de poemas é marcado pelo “Tempo”, continuo, universal, e também postulado por Einstein; e essa postulação abre a porta à Liberdade, por contraditório que pareça.

    04- Maria Sofia Magalhães fragmenta tudo, “os ossos”, e na extrema delicadeza, nunca cita “o esqueleto” que ela escrupulosamente concebeu.
    Preferiu a delicadeza de dar o espaço ao leitor para o animar, no duplo registo da vénia e do abanar a cabeça, no “Não”, firme, e no “Sim” do estimulo.
    O respeito pelos outros.

    05- A poetisa e cidadã Maria Sofia Magalhães, ao fechar a Sessão, não perdeu a ocasião de assinalar a presença do PRESIDENTE Ramalho Eanes, que acaba de criar um Prémio de Cidadania e que será amanhã homenageado.
    Ela e a Assistência, foram, assim os primeiros a Homenagear o Presidente Eanes.

    06- Regresso ao Porto, estimulado e com mais uma obrigação : a de apoiar esta geração de Maria Sofia Magalhães, bem mais nova que a minha, com outra formação, uma outra experiência de vida, mas onde sempre encontro grandes afinidades.

    Parabéns à poetisa e cidadã Maria Sofia Magalhães Loureiro dos Santos.

    Boa Noite.
    Bom Serão.

    ACÁCIO LIMA

    P.S.- Este é o quarto livro publicado por Maria Sofia Magalhães.
    Chegou o momento de ser feita uma “análise crítica comparada” dos quatro livros de poemas.

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    1. Acácio, muito obrigada apelas suas palavras e, principalmente, pela sua presença. Sinto-me extremamente honrada pela sua generosidade e pela sua apreciação crítica. Ainda bem que gostou.
      Um grande abraço.

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  6. Ana Luisa Silva03:38

    Parabéns tia, tenho a certeza que foi mais bonito ainda do que os comentários que li aqui. Quem sabe para a próxima estarei presente!

    Muitos beijinhos de longe,
    Ana Luísa

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