BOM ANO para todos
pelo menos
se for possível
com bom humor
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Ouvi vários comentadores espantarem-se com a serenidade de Manuel Alegre e suspirarem por um candidato de esquerda mais agressivo contra Cavaco Silva.
Para mim, que acabei de ouvir agora o debate, ainda bem que Manuel Alegre não o fez. Para meu espanto, Manuel Alegre portou-se como um verdadeiro Presidente, contido, sereno, tolerante, democrático.
Pelo contrário, Cavaco Silva foi agressivo, evasivo, intolerante, sem respostas às perguntas colocadas. Não sabe o que é o Estado Social, confundindo os direitos de dignidade com a ajuda dos moralmente puros. Não falou da Escola Pública, porque não lhe interessa. Esganiçou-se quando deixou ao governo a responsabilidade da eventual chegada do FMI, quando criticou a administração do BPN, quando se refugiou no site da presidência no momento em que lhe lembraram o caso das escutas, enervou-se quando falou das suas justificações aquando das promulgações de diplomas, deu lições de cavalheirismo internacional quando tentou demonstrar que agradar e ter respeitinho pelos mercados era indispensável a Portugal.
Preparamo-nos para ter mais cinco anos de um Presidente da República que é o espelho da caridadezinha, das mulheres a fazer a lida da casa, da hipocrisia social e institucional.
(...) Venho a este debate não para falar, mas para ouvir. Entrego todo o meu tempo ao Presidente da República, aqui presente, para me ajudar a compreender quem é o candidato presidencial Cavaco Silva, igualmente aqui presente. Porque sem os esclarecimentos do primeiro não podemos saber quem é, nem o que quer, o segundo. Infelizmente, a imprensa do meu país não fez o que agora vou fazer. E, desgraçadamente, Vossa Excelência não se dignou contar aos portugueses o que aconteceu, pelo que vou ser eu a exigir de si que cumpra o juramento que prestou ao aceitar o cargo. Revele sem margem para dúvidas: qual é a sua responsabilidade nas notícias que saíram em Agosto de 2009 descrevendo suspeitas de espionagem e escutas cujo alvo era a Presidência da República? (...)
Hoje reforcei a minha convicção de que o recurso aos fundos de emergência europeus, FMI ou qualquer coisa de semelhante, não depende da melhor ou pior performance do governo português, deste ou de qualquer outro. Depende da decisão política e/ou económica de países exteriores ao nosso, nomeadamente da Alemanha. A União Europeia não tem qualquer poder para conter as pressões, nem sei se está verdadeiramente interessada.
A austeridade deve avançar ou não se e só se internamente assim se decidir, por governos legitimados em eleições nacionais. O agradar aos mercados ou aos países de primeira, não tem qualquer resultado.
A propósito, vale a pena ler este post.
Mikhail Larionov: Mulher com leques
esboço de traje para o ballet Histórias Naturais (1916)
Enfrento o dia em que quase fecho a porta a meio século de vida. Tantos anos acompanhados de sabores e dissabores, amigos e inimigos, vitórias e derrotas, dias bons e dias maus. Já passei cabos de tormentas, cabos de esperança e estou a ultrapassar o cabo dos afrontamentos. Aviso quem ainda não chegou lá que a travessia é lenta e caprichosa, estando as munições secretas sempre no local errado da hora certa.
Festejei ao jantar n’A Tasca da Esquina. Fui lá parar através do blogue Mesa Marcada, ao qual fui parar a partir do Mainstreet, agradecendo a ambos.
É um local mesmo à esquina, como o próprio nome indica, quando se sai da Rua Ferreira Borges, (Campo de Ourique) e se vira imediatamente à direita, para a Rua Domingos Sequeira. Quem me conhece sabe que isto até parece ficção, mas decorei os nomes e o mapa, para além de ter um motorista com sentido de orientação.
A Tasca é pequena, com uma temperatura um pouco acima do confortável. Para isso também contribuiu a garrafa do excelente tinto alentejano Casa Santa Vitória de 2008, que nos foi aquecendo à justa medida do avançar dos pratos e da noite.
Escolhemos um menu de degustação composto por sopa e 4 pratinhos. Como é habitual nesta nova era culinária, os nomes dos pratos e a explicação do que vamos comer é muito maior e mais complicada do que a comida em si mesma. Mas estava tudo muito bom. A sopa de tomate com requeijão era deliciosa, nem quente de mais nem fria; a entrada de paté de caça com tostinhas besuntadas com azeite e alecrim, acompanhadas de picles de pêra, deliciosa; a seguir veio camarão com molho de pimentos, extraordinário; depois atum meio cru com molho de coentros, que era bom, mas nada de especial (atum não é prato da minha predilecção); por fim uns filetezinhos de vazia, também muito mal passados, com farófia de milho, batatas fritas e molho de manteiga de alho que sabia muitíssimo bem.
A meio da refeição fomos surpreendidos por um mini rancho folclórico da Casa do Minho, que estava com tanta vontade de acabar o ano que cantou as janeiras. Mas cantou-as muito bem!
Finalmente escolhemos creme queimado e farófias como sobremesa, rematando com café – divinal.
Bem reconfortada, o próximo ano será de lutas e desafios. De leque(s) em punho, com o vigor e a sapiência de uma verdadeira matrona, espero chegar aos cinquenta. E isto é mesmo uma ameaça.
Tal como Ana Matos Pires diz, penso que é altura de discutir a existência, nos termos actuais, das ordens profissionais, a sua orgânica, competências e funções.
No caso da Ordem dos Médicos não entendo a necessidade de existir uma única Ordem como Associação de Médicos. Penso que se deveria abrir a possibilidade de criar Associações de Médicos cuja adesão fosse voluntária. Essas associações zelariam pela qualidade e pela certificação e requalificação médicas, de acordo com os requisitos internacionais tal como são definidos pelo estado da arte. O reconhecimento das competências básicas para o exercício da profissão deveria ser dado pela homologação das respectivas licenciaturas e especialidades, de acordo com os curricula definidos e exigidos pelo estado, após audição de associações médicas e das sociedades científicas.
A verdade é que a Ordem dos Médicos se tem comportado mais com um sindicato, com os problemas do movimento sindical português nos dias de hoje, do que uma associação que zele pela deontologia, pela ética e pela credibilidade da profissão médica. Como estrutura pesada que é, não tem capacidade de resposta, por exemplo, para as queixas dos doentes em relação aos médicos, cuja prioridade me parece absoluta, na defesa da prática de uma medicina de qualidade, deixando pairar a suspeição de um corporativismo que defende tanto quem merece como quem não merece ser defendido.
Os próprios médicos não se sentem motivados a participar numa Ordem em que não se reconhecem. As críticas do Bastonário ao Ministro Mariano Gago são exageradas e não fundamentadas. Apenas se percebe, mais uma vez, a resistência à abertura de novos cursos de Medicina, levantando suspeitas de má preparação, não se sabendo quais as bases para o fazer. Esquece-se a Ordem dos Médicos da sua responsabilidade no que diz respeito ao fecho de vagas para Medicina ao longo dos anos, defendendo a manutenção da redução de vagas com o argumento do desemprego médico e da sua má distribuição territorial. O elevado número de Médicos estrangeiros a trabalhar em Portugal demonstra a falácia desses argumentos.
Seria muito importante que os representantes que forem proximamente eleitos tivessem a coragem de abrir este debate. Seria um estímulo a todos os médicos para se olharem criticamente, questionando o seu papel como grupo profissional, as suas prioridades, as suas carreiras, o Serviço Nacional de Saúde, as formações pré e pós graduada e o seu estatuto laboral, sem preconceitos.
Nesta altura do ano, que é tão boa como qualquer outra mas na verdade o fim e o início dão sempre jeito para balanços, multiplicam-se as listas de livros, filmes, músicas, cantores, figuras e blogues do ano. Todas estas listas dependem do gosto e dos interesses de quem as faz, como é lógico.
O problema é sempre de amostragem. Parece-me até soberba escolher os blogues do ano num universo tão infinito como os universos o são, por definição, quando eu apenas visito uma ínfima parte desse mundo. Mas mesmo assim, de todos aqueles que leio, uns com gosto, outros com raiva, uns com curiosidade, outros com indiferença, há alguns a que eu dou particular destaque.
Quase sempre prefiro blogues individuais, talvez porque têm uma linha mais coerente, uma personalidade mais marcada. No entanto há, nesta lista, dois blogues colectivos que conseguem essa coerência com múltiplos colaboradores. Obrigada a todos pelas horas de entretenimento, informação e questionamento que me proporcionaram.
*Há que dizer que a imparcialidade em relação a este blogue é sempre tentada mas, se calhar, não conseguida. A. Teixeira é alguém que me é muito chegado...
Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...