28 abril 2010

E nós?

A formação deste governo minoritário foi a única alternativa a uma esquerda que, desde a campanha eleitoral, se demitiu de assumir as suas responsabilidades. A mesma demagogia folclórica e deprimente do BE e do PCP manteve-se nas atitudes parlamentares, ao fazerem sempre que surgiu uma oportunidade, coligações negativas contra o governo PS. A última de que me lembro foi a recomendação parlamentar para reabrir o SAP de Valença do Minho. Para não falar na comissão parlamentar de inquérito ao caso TVI, que ninguém sabe o que é mas que ocupa os nossos ilustres deputados.


 


Obviamente que o governo não é isento de responsabilidades. O recuo em determinadas reformas iniciadas na legislatura anterior, a falta de política em muitas áreas, nomeadamente na saúde, que parece agónica, a má gestão política e a encenação das negociações para as coligações parlamentares, para o orçamento de estado e, por fim, para o PEC, enfraqueceram o governo e o PS.


 


A oposição do PSD não existiu durante anos. A luta política baseada na desconfiança, nas suspeitas e na profecia das desgraças, ao contrário de serem certeiras e premonitórias, foram de certeza indutoras e catalisadoras. (Havia um “adivinho” célebre que todos os anos previa a morte do Papa. Houve um ano em que acertou.)


 


A reunião de emergência entre Pedro Passos Coelho e José Sócrates é o Bloco Central em todo o seu esplendor. E é mesmo o que sobra – a esperança no bloco central, já que a maioria de esquerda não soube nem quis governar o país.


 


E nós? Estaremos dispostos a olhar para o que está em causa? As constantes greves marcadas e cumpridas como reivindicação de aumentos salariais, as sugestões dos patrões em acabar com o subsídio mínimo de desemprego (€419,22), o total desrespeito pelas orientações do governo quanto às remunerações e prémios dos gestores públicos, o nosso individual egoísmo e falta de solidariedade para quem mais precisa parecem indiciar que não.

27 abril 2010

Um dia como os outros (54)



(...) De tudo o que aconteceu o que fez a S&P?



Valorizou os comportamentos, as teses e as análises dos investidores e dos analistas norte-americanos e desprezou todas as medidas adoptadas pro Portugal.




Com estas ajudas os investidores financeiros passam de facto a acertar nas suas previsões, grandes profetas das desgraças com a ajuda de quem tem medo de errar de novo.




As agências de 'rating' estão cada vez mais prisioneiras dos mercados e a contribuir cada vez para a instabilidade e não para a informação mais perfeita e rigorosa, razão da sua criação e existência. (...)

O que mudou?

Helena Garrido na RTPN.

O fim da União Europeia

Não sabemos se Portugal terá que sair da moeda única, se será a Grécia ou se será a Alemanha. Não sabemos se a saída do euro levará à bancarrota ou se o euro se vai, pura e simplesmente, desfazer.


 


Sabemos que a Alemanha não tem vontade nenhuma de apoiar a Grécia, como sabemos que não terá nenhuma vontade de apoiar Portugal, Espanha ou Itália. Constatamos que, na primeira grande crise séria que afecta os pilares da União Europeia esta se demite de ser união, assumindo que apenas alguns países são Europa.


 


E sabemos que, independentemente da eventual morte do euro, estamos a assistir ao funeral da União Europeia.

25 abril 2010

Estrela da tarde











Carlos do Carmo


José Carlos Ary dos Santos & Fernando Tordo


 


 


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia


 


Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia


 


Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza


 


Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram


 


Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram


 


Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto


 


Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

Do que somos


Loel Barr: Waiting for the world


 


Nasce um dia brilhante filho de dias de chumbo


há poucas crianças para correr.


Olho os campos de flores vadias


crescem porque são flores e porque são vadias.


Saboreio a antecipação das pétalas


mas não me movo – metáfora quase sagrada


do que somos e do que desejamos.

Um tempo que passou






 


Chico Buarque & Sérgio Godinho


Canta Sérgio Godinho


 


Vou
uma vez mais
correr atrás
de todo o meu tempo perdido
quem sabe, está guardado
num relógio escondido por quem
nem avalia o tempo que tem


 


Ou
alguém o achou
examinou
julgou um tempo sem sentido
quem sabe, foi usado
e está arrependido o ladrão
que andou vivendo com meu quinhão


 


Ou dorme num arquivo
um pedaço de vida
a vida, a vida que eu não gozei
eu não respirei
eu não existia


 


Mas eu estava vivo
vivo, vivo
o tempo escorreu
o tempo era meu
e apenas queria
haver de volta
cada minuto que passou sem mim


 


Sim
encontro enfim
iguais a mim
outras pessoas aturdidas
descubro que são muitas
as horas dessas vidas que estão
talvez postas em grande leilão


 


São
mais de um milhão
uma legião
um carrilhão de horas vivas
quem sabe, dobram juntas
as dores colectivas, quiçá
no canto mais pungente que há


 


Ou dançam numa torre
as nossas sobrevidas
vidas, vidas
a se encantar
a se combinar
em vidas futuras


 


Enquanto o vinho corre, corre, corre
morrem de rir
mas morrem de rir
naquelas alturas
pois sabem que não volta jamais
um tempo que passou

Quebradiço

A voz do mar na boca O gume afiado do horizonte Na curva infinita do esquecimento   Reconheço nos ossos A aridez da vontade Queb...