30 junho 2007

O dia seguinte

O dia seguinte, sonolento, tranquilo, em câmara lenta.

Ainda se ouvem os ecos das conversas, o tilintar dos copos, os risos, ainda se sente o calor e o aconchego dos abraços, dos olhares, da cumplicidade, da alegria dos reencontros, o agridoce das despedidas.

Saboreio o dia seguinte.

27 junho 2007

O vazio

Por vezes de repente há um vazio
nem um gesto nem voz nem pensamento
terrível como a foz do grande rio
onde vai dar algures o esquecimento.

Nem branco ou negro nem sequer cinzento
um calor sem calor. Frio sem frio.
Não há nada por fora. E nada dentro.
Não é menos nem mais. É só vazio.


(poema de Manuel Alegre; fotografia de Jonathan Day-Reiner: emptiness)

26 junho 2007

O dono

Joe Berardo é notícia todos os dias e a toda a hora. É fácil perceber porquê: é rico e pensa que pode dizer e fazer o que lhe apetece. E faz. O poder anda cheio de salamaleques à nova coqueluche.

Ele é irreverente e rico, tem muitos quadros, é muito rico, é muito bom para a cultura e para os negócios, é rico, filho, pai e neto do omnipresente e omniscente mercado. Ele lança OPAs, ele abre museus, ele exige a demissão de Mega Ferreira da sua Fundação, ele exige a demissão de Mega Ferreira do Centro Cultural de Belém.


Algures a meio do caminho, alguém o deixou pensar que era dono. Ele assume-se, para já, como dono do Centro Cultural de Belém. Dentro em pouco, quem sabe?

24 junho 2007

Transformarei o tempo

Transformarei o tempo.

Não te perderei
por entre as sombras
do que falta de nós
pois já guardei
esse longínquo sabor
da memória.

(pintura de
Arnaud Juncker: evasion)

e, se me vires

e, se me vires

saber-me-ás de arcabouço forte
cingido por laçadas de corpete assente sobre uma pele de cambraia fina
adivinhar-me-ás meias de seda enrugadas na dobra da liga
o vulto armado de negro merino
coberta a curva do pescoço, a linha do colo, a cintura roliça
cerrada a largura da anca
expostos que se encontram os ossos dos tornozelos, as mãos demasiado grandes
os pés arqueados.

e, se me vires
encontrar-me-ás de cabeça descoberta e cabelo desgrenhado
as faces demasiado pintadas, os lábios bem desenhados
dos lóbulos brancos pendentes filigranas, arestas perfumadas.

mas, se me olhares,
despido estará apenas este meu desencontrado
descarnado olhar.

(poema de Cláudia Santos Silva; pintura de Henri Matisse: Nu Bleu II)

Reform Treaty

A construção europeia faz-se com os europeus, incentivando os cidadãos a discutirem, pensarem, votarem e aprovarem as grandes opções políticas para a Europa.

Mais uma vez se prepara um tratado, agora reformado, que ainda não tem corpo que se leia, o denominado reform treaty, não sei se retirado à força da reforma ou se reformado compulsivamente mas, seguramente, um tratado reformatado.

Mais uma vez, como explicar, defender e discutir com o povo é muito cansativo, demorado e arriscado, porque o povo pode escolher o que a elite não quer, o melhor mesmo é não referendar a reforma do tratado constitucional. Os outros tratados também não foram referendados, portanto não há problema. E o facto de ter sido uma promessa eleitoral… fez-se exactamente para não se cumprir, como a maioria das promessas eleitorais.

Talvez fosse interessante, alguém começar a pensar na reforma da democracia. Mesmo que, depois, não se referende.

22 junho 2007

Manipulação

Aqui há uns tempos mudei a estação de rádio com que acordo: estava sintonizado na TSF, passou a estar no RCP. A voz de João Adelino Faria é menos gritante e sobressaltada que as dos locutores da TSF.

Mas o estilo e o rigor noticioso, infelizmente, são os mesmos.

Ninguém entende porque é que o Ministro da Saúde não divulga o famoso relatório, que encomendou, sobre a sustentabilidade financeira do SNS. É um documento com certeza fundamental para a definição de uma política sustentada de saúde, uma base para a reorganização do SNS, estabelecimento de prioridades de modelos de funcionamento.

Mas, tal como o gato escondido com o rabo de fora, o estudo não se publica mas há muita gente que o vai publicando, aos bocadinhos, orientando a discussão política para onde mais lhe interessa.

Através do que raio de saúde a nossa tive acesso ao documento, cuja primeira página está pouco legível. Ainda não li o documento todo, mas li o sumário executivo. Vou transcrever a parte final (realces meus):


L. A discussão de possíveis alterações à forma como o financiamento do SNS se encontra organizado gerou duas grandes conclusões:

Conclusão 1: Para garantir a sustentabilidade financeira do SNS é necessário adoptar diversas medidas simultaneamente, não sendo identificável uma que, por si só, a assegure.

Conclusão 2: Há uma grande dependência da sustentabilidade financeira do SNS em relação a factores exógenos ao sector da saúde, como sejam a evolução da restante despesa pública e das receitas do Estado.

M. Após a apreciação das várias alternativas de financiamento do SNS, a Comissão recomenda ao Governo:

  1. Manutenção do sistema público de financiamento do SNS, como garantia do seguro básico público, universal e obrigatório, assente no pagamento de impostos.

  2. Adopção de medidas que assegurem maior eficiência na prestação de cuidados de saúde, traduzidos por menor despesa pública em saúde e menor taxa de crescimento.

  3. Utilização abrangente de mecanismos de avaliação clínica e económica para estabelecimento de prioridades e definição das intervenções asseguradas pelo seguro público.

  4. Revisão do regime vigente de isenção das taxas moderadoras, com uma sua redefinição baseada em dois critérios: capacidade de pagamento e necessidade continuada de cuidados de saúde.

  5. Actualização do valor das taxas moderadoras, como medida de disciplina da utilização do SNS e de valorização dos serviços prestados.

  6. Redução dos benefícios fiscais associados às despesas em saúde, aproximando a realidade portuguesa da observada na generalidade dos países da OCDE.

  7. Retirar do espaço orçamental os subsistemas públicos, sendo evoluções possíveis a sua eliminação ou a sua auto-sustentação financeira.

N. Numa situação extrema de insustentabilidade financeira do SNS, a Comissão faz uma recomendação especial, que se traduz na imposição de contribuições compulsórias, temporárias, determinadas pelo nível de rendimento, utilizando o sistema fiscal e direccionando as verbas obrigatoriamente para o SNS.

Por isso qual não foi o meu espanto ao ouvir, logo pela manhã, João Adelino Faria informar o auditório que o relatório recomendava um novo imposto para a saúde, seguido de declarações indignadas do pai do SNS, António Arnaut, dizendo que antes dos impostos talvez fosse melhor rentabilizar o que há.

Como tenho a certeza que João Adelino Faria sabe ler, só posso concluir que não leu o relatório e que acreditou naquilo que alguém lhe soprou, sem ter tido o cuidado de verificar a informação.

Mais uma vez ficamos com a sensação de sermos totalmente manipulados, ou porque nos dão informação enviesada (caso do RCP), ou porque tentam não nos fornecer a informação (caso do Ministro da Saúde).

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...