11 dezembro 2023

Quadras de Natal (10)

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Salvador Dalí (1971)


 


Não apagues essa luz
Que a noite não se detém
E eu quero ver Jesus
Com o brilho que ele tem


Não apagues a lareira
Que a noite não se detém
E no lume da fogueira
Nasce a estrela de Belém


Não feches o cortinado
Que a noite não se detém
E este fogo ateado
Reconforta quem lá vem


Não desfaças já a mesa
Que a noite não se detém
E quem chegar de surpresa
Será servido também


Não temas a solidão
Que a noite não se detém
Na concha da tua mão
O mundo sabe tão bem

02 dezembro 2023

20ª Competição Internacional de Piano de Leeds


Alim Beisembayev (1º prémio)


Sergei Rachmaninov – Rhapsody on a Theme of Paganini

Um dia como os outros (193)

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"(…) Costa estava para durar e mesmo aqueles que sonhavam 24 horas por dia em derrubá-lo reconheciam isso. E, de repente, Costa cai não porque os seus inimigos políticos o tivessem derrubado, nem pela luta política normal, mas por uma política anormal em democracia, uma mistura grande de incompetência e irresponsabilidade e uma ideologia corporativa antidemocrática, o justicialismo.


É por isso que se devia falar, e muito, deste evento, porque ele transcende a prática normal da democracia e é relevante para todos, sejam da situação ou da oposição. Porque o justicialismo não é redutível ao confronto partidário, não é do PSD contra o PS, ou vice-versa, não é da direita versus a esquerda, ou vice-versa. É uma intervenção no terreno da política democrática de uma concepção corporativa que encontra legitimação numa ideia de superioridade do seu poder assente numa bondade, honestidade e integridade atribuídas a uma casta, que precisa de ter inimigos para se justificar como superior. E esses inimigos são os políticos em democracia, o “outro” poder.

(…) O justicialismo é uma forma mais sofisticada de populismo, mas muito próxima da substância do populismo que alimenta o Chega. Como se verifica no caso actual, os resultados da sua acção podem ser instrumentalizados, o que faz a direita radical e o lucrativo jornalismo de escândalos, retaliação e vingança, cuja ideologia também mergulha nas mesmas fontes. Mas o mecanismo do justicialismo actua para além dos seus efeitos no equilibro político, no reforço da imagem da casta e na intangibilidade dos seus poderes, sempre apresentados como sendo em nome de um valor maior que superaria os estragos menores que provocam.

(…) Estou consciente que há muitas vezes uma linha fina entre criticar o MP e querer estar acima da lei e não ver os seus crimes expostos e sujeitos a sanção. Mas aqui não há uma linha fina, há até uma bastante grossa que deveria existir entre a justiça e a política, e o justicialismo apaga-a todos os dias."



Público, José Pacheco Pereira (02/12/2023)

12 novembro 2023

A democracia encontrará um caminho


Jurassic Park


Os acontecimentos da última semana em Portugal, em que um Parlamento eleito há cerca de 1 ano, com uma maioria absoluta que suporta um governo, é dissolvido por causa da queda do mesmo, são muito preocupantes.


António Costa pede a demissão após as diligências resultantes de investigações a membros do seu governo, envolvidos em supostos casos de corrupção, assim como a existência de suspeitas relativas ao seu próprio comportamento, por ter sido mencionado em escutas telefónicas.


O Presidente aceita a demissão, resolve dissolver a Assembleia da República e marcar novas eleições, mantendo o governo e o Primeiro-ministro em funções, até à aprovação do OE para 2024.


Era mesmo necessário que fosse António Costa a assegurar o governo, já demitido? Não seria possível a Ministra Mariana Vieira da Silva, Ministra da Presidência, ou qualquer outro dos Ministros, assumir o governo até às eleições?


O comportamento e a morosidade da Justiça em todo o nosso período democrático não é de molde a tranquilizar ninguém. Seja qual for o desfecho, o facto é que houve uma intervenção da Justiça no normal funcionamento das Instituições.


Não havia alternativa às eleições antecipadas. Resta-nos esta esperança: a democracia encontrará um caminho (*).


(*) Life finds a way

09 novembro 2023

No embalo

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Camille Allen


Vou tentar uma balada
No embalo da menina
Que a minha voz sussurrada
Tranquilize a pequenina


Vou cantar a melodia
Com que o colo se arredonda
Um carinho que alumia
Qualquer noite que se esconda


Vou calar a voz que canta
No aconchego da ternura
Envolvendo numa manta
Esta vida em miniatura

14 outubro 2023

Ao décimo terceiro dia do mês de Outubro

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Camille Allen


 


Que nos teus olhos brilhe


a curiosidade de observar


que na tua voz se sinta


a sabedoria do canto


que as tuas mãos segurem


a força de construir


que a tua alma se dê


na felicidade de amar

30 setembro 2023

Enquanto

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Enquanto


 


Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio


e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé


para ver como é;


enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas


e correr pelos interstícios das pedras,


pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;


enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,


órfãs de pais e de mães,


andarem acossadas pelas ruas


como matilhas de cães;


enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto


com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,


num silêncio de espanto


rasgado pelo grito da sereia estridente;


enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio


cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas


amassando na mesma lama de extermínio


os ossos dos homens e as traves das suas casas;


enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser verdade,


enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,


o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:


ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA


António Gedeão

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...