03 julho 2022

Romaria


Renato Teixeira


 


É de sonho e de pó


O destino de um só


Feito eu perdido em pensamentos


Sobre o meu cavalo


É de laço e de nó


De gibeira o jiló


Dessa vida cumprida a sol


 


Sou caipira pirapora


Nossa Senhora de Aparecida


Ilumina a mina escura


E funda o trem da minha vida


Sou caipira pirapora


Nossa Senhora de Aparecida


Ilumina a mina escura


E funda o trem da minha vida


 


O meu pai foi peão


Minha mãe, solidão


Meus irmãos perderam-se na vida


A custa de aventuras


Descasei, joguei


Investi, desisti


Se há sorte eu não sei, nunca vi


 


Sou caipira pirapora


Nossa Senhora de Aparecida


Ilumina a mina escura


E funda o trem da minha vida


Sou caipira pirapora


Nossa Senhora de Aparecida


Ilumina a mina escura


E funda o trem da minha vida


 


Me disseram, porém


Que eu viesse aqui


Pra pedir de romaria e prece


Paz nos desaventos


Como eu não sei rezar


Só queria mostrar


Meu olhar, meu olhar, meu olhar


 


Sou caipira pirapora


Nossa Senhora de Aparecida


Ilumina a mina escura


E funda o trem da minha vida


Sou caipira pirapora


Nossa Senhora de Aparecida


Ilumina a mina escura


E funda o trem da minha vida


 


Sou caipira pirapora


Nossa Senhora de Aparecida

Tenderly


Chet Baker

Do ensimesmamento

Não sei se é resultado da pandemia se é apenas do passar dos anos e do encolher do corpo, das ideias, do mundo à nossa volta, do ensimesmamento a que nos votamos, da cada vez maior incapacidade de cumprir o assumimos como dever, a verdade é que sinto um cada vez maior isolamento.


A todos os níveis – familiar e profissional – e com todas as gerações. Vamos trocando mensagens, alguns telefonemas ou vídeo conferências, mas a vontade de estar junto, os abraços que foram banidos do nosso quotidiano, a moralização da pandemia com a instalação da culpa, tudo contribui para que estejamos cada vez mais sós.


E por isso as raras ocasiões em que se quebra esse hábito, viciante e desolador, fica um gosto bom de aconchego e carinho, aquele sentimento que perdura quando estar com alguém é um bem muito importante.


E como acontece desde tempos imemoriais, as refeições são uma boa razão para o convívio, a troca de ideias, o riso, a partilha de histórias. Começa-se por uma sangria de champanhe com frutos secos, continua-se com uma sardinhada, um naco na pedra, uns lagartos grelhados, os diversos e profusos brindes com os obrigatórios copos a baterem uns nos outros, melodia inconfundível de um almoço entre amigos.


Vivemos tempos em que aquilo que é mais essencial ao Homem, a sua sociabilidade, a sua necessidade de amar e ser amado, o toque das mãos, o sorriso, o olhar, a expressão facial, é agora uma memória que teima em ser enterrada, em nome de uma assépsia e de uma incrível nova ordem da esterilização da pele, do ar, do mundo.


Para além das ameaças bem reais que nos cercam, fabricamos mais medo e terror para nos transformarmos em gente que não se atreve a amar e que já se esqueceu do que era pensar nos outros e não em si mesmo.

Serena

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Tal Golan


 


No dia em que perder este cansaço


em que a angústia e a solidão


não forem mais que um barco afundado


poderei enfim desatar os soluços


e a terra onde me afundar será mais serena.


 

28 junho 2022

E o mar aqui tão perto

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E o mar aqui tão perto.


Mesmo com a angústia da guerra, com o tempo que vai escasseando para a realização dos sonhos, com a tristeza das várias nostalgias, resta-nos o mar, a fuga e o encontro da lonjura, dos outros, de mais.


E o mar aqui tão perto.

13 junho 2022

Santo António de Lisboa

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Teresinha Sousa


 


Santo António de Lisboa


Vem cá ver o que isto é


Comer sardinha com broa


Beber vinho e água-pé


 


Não há febra nem sangria


Que nos cure a tradição


De lamentar a alegria


E louvar a maldição


 


Dar vivas ao vento agreste


Cantar como quem aguenta


Implorar ao pai celeste


Aprumo nesta tormenta


 


Somos bravos pacifistas


E guerreiros de um só dia


Solitários saudosistas


Bêbados de poesia


 


Oh meu querido santinho


Quero que sejas meu par


Ampara-me no caminho


Que ainda me falta andar


 

11 junho 2022

Discursos

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Peech Bubble XII


Jürgen Drescher


 


Discursam discursos


Orelhas de abano


Cornetas de guerra


Orelhas de terra


Não saem da boca


Os dados quadrados


Movem-se na boca


Os sons desbotados


 


Discursos discursam


O povo envelhece


Palavra a palavra


O povo empobrece


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...