28 junho 2022

E o mar aqui tão perto

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E o mar aqui tão perto.


Mesmo com a angústia da guerra, com o tempo que vai escasseando para a realização dos sonhos, com a tristeza das várias nostalgias, resta-nos o mar, a fuga e o encontro da lonjura, dos outros, de mais.


E o mar aqui tão perto.

13 junho 2022

Santo António de Lisboa

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Teresinha Sousa


 


Santo António de Lisboa


Vem cá ver o que isto é


Comer sardinha com broa


Beber vinho e água-pé


 


Não há febra nem sangria


Que nos cure a tradição


De lamentar a alegria


E louvar a maldição


 


Dar vivas ao vento agreste


Cantar como quem aguenta


Implorar ao pai celeste


Aprumo nesta tormenta


 


Somos bravos pacifistas


E guerreiros de um só dia


Solitários saudosistas


Bêbados de poesia


 


Oh meu querido santinho


Quero que sejas meu par


Ampara-me no caminho


Que ainda me falta andar


 

11 junho 2022

Discursos

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Peech Bubble XII


Jürgen Drescher


 


Discursam discursos


Orelhas de abano


Cornetas de guerra


Orelhas de terra


Não saem da boca


Os dados quadrados


Movem-se na boca


Os sons desbotados


 


Discursos discursam


O povo envelhece


Palavra a palavra


O povo empobrece


 

10 junho 2022

10 de Junho de 2022

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Oh Povo bom Povo


Tanto de ti se fala


Tão pouco por ti se faz


Tanto que o povo cala


Tanto que o silêncio trás


 


Oh Povo triste Povo


Tanto que de ti se pede


Tão pouco que a ti se dá


Vinho que não mata a sede


Os sonhos do que não há


 


Oh Povo grande Povo


Tão pouco de tanto guardas


Tanto do muito que perdes


Tanto em ser feliz tardas


Do tanto de ti que rendes


 

09 junho 2022

Paula Rego - exposição em Madrid

Salazar vomitando a Pátria – não se percebe bem o que é Salazar, o vómito ou a Pátria. Se calhar é esse mesmo o objectivo: não distinguir umas coisas das outras porque Salazar, a Pátria e o vómito, deviam ser sinónimos para Paula Rego.


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Salazar vomiting the Homeland – 1960


De um abstraccionismo estranho e aterrador, de um exílio de muitos olhos e muitas línguas, passa para uma pintura figurativa exímia, com proporções grotescas, intencionalmente absurdas, em que as mulheres são másculas, com braços curtos, cabeças e mãos enormes, expressões fechadas e, por vezes, quase demenciadas.


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The maids – 1987


As pinturas de Paula Rego vivem das histórias infantis, em que os personagens reais se transformam e adquirem animalescas figuras, animalescas atitudes e visões. Os adultos com a crueldade desses contos, com a ingenuidade simples e concreta das crianças. Em muitos quadros há várias cenas de uma peça que está a ser visionada, normalmente em planos diferentes, com dimensões diminutas ou cores esbatidas, escondidas em brinquedos ou peças de mobiliário.


Em raros quadros se nota alguma felicidade, com no quadro da dança ou no quadro da fuga para o Egipto. Neste último a figura masculina é preponderante e acolhedora, a feminina carinhosa, sem toque.


Os quadros que retratam as bailarinas são chocantes, pois as figuras a que estamos habituados a associar leveza e beleza, aparecem curtas, grossas, pesadas, desfeadas, em vestidos de cores fortes e escuras, tudo bizarro e violento.


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War – 2003


Os últimos quadros retratam a velhice nas suas facetas mais cinzentas, ridículas, dependências e decadências de corpos, amarguras e solidões de almas.


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O repouso na fuga para o Egipto – 1998


Interessantíssimos os estudos para os quadros, onde se percebem várias hipóteses antes da decisão, elas próprias séries espantosas, como as da dança, em que há alguns desenhos de corpos em dança satânica, tal como um quadro a preto e branco de diabos e outro sobre as bruxas e os seus bruxedos.



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Dancing Ostriches from Disney’s Fantasia - 1995


Não sei como Paula Rego convive com ela própria, mas a quem olha o que ela pinta, o estômago, os nervos e a cabeça revolvem-se e transtornam.

É uma pintura visceral, e que provoca reacções viscerais. É espantosa.


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Scavengers – 1994

07 junho 2022

Nesta carta que te escrevo

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Ivan Djidjev


 


Nesta carta que te escrevo


Com tantas letras de espanto


Abro os dedos com enlevo


Como os versos que te canto


 


Mas a voz que me emudece


Numa angústia esculpida


Confiança que estremece


Como folha ressequida


 


Não aprende a esvoaçar


Enfrentando a ventania


Que pressinto nesse olhar


Que desfaz a poesia


 


Recolho então de mansinho


E dissolvo-me no ar


Das palavras faço um ninho


No vazio que é amar


 

16 maio 2022

Coral

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Conheci alguém que, de cada vez que fazia anos de casada, aparecia com uma joia nova, com muito ouro e muitas pedras preciosas, predominantemente brincos e anéis, que eram a prenda que o marido lhe dava pelo aniversario de casamento. Outra conhecida, bastante bem humorada e verrinosa, lançou o boato de que era a própria aniversariante que comprava as joias e não o marido, que não parecia nada o género comprador de ouros e que, para além do mais, tinha toda a pinta de nem se lembrar sequer da data.


Isto vem a propósito de hoje fazer 35 anos de casamento. É obra! 35 anos é já uma eternidade!


A internet diz-me que aos 35 anos se celebram as bodas de coral, nos sites brasileiros a que fui parar nesta importante pesquisa científica. E coral porque os corais marinhos levam anos a formar-se. Bem, de facto 35 anos já deve dar um belo coral terreno, já um ecossistema bem organizado e estável.


Decidi que este ano, para comemorar tanta construção e maturidade em união casamenteira, era a altura certa para o meu espantado marido me ofertar um colar, um anel ou uns brincos de intenso, duro, e intrincado coral. E decidi ainda que, tal como o boato que circulava em relação à pessoa que conhecia, seria eu própria a comprar as ditas joias, já que o meu querido marido achou que eu tinha endoidecido, pois nunca em 35 anos de casamento me viu querer qualquer adorno desse tipo, sendo mesmo militantemente contra as arrecadas e semelhantes.


Ao passar em frente a uma loja que vendia artefactos com cristais coloridos, comprei um colar, uns brincos e um anel, não de coral mas multicolores, para compensarem todos os outros anos, para além de anteciparem todas as próximas bodas até às de ouro.


Ele gostou e eu estou muito contente.


O resto do dia foi típico de um casal com 35 anos, resolvendo assuntos domésticos e empresariais, sempre a dois, amparados pelos intervalos gastronómicos, olhares e cantaroladas de paz e harmonia, pois que em dia de aniversário outra coisa não se espera.


Céu azul com algumas nuvens, numa viagem sem grandes sobressaltos, com exceção daqueles que mantém o coral vivo e a crescer.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...