12 setembro 2021

Nós e os outros

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Passage


Jerzy Kalina


 


Às vezes vale a pena olharmos para nós e para os outros.


O que fizemos por nós? E pelos outros?


Quem somos nós? E os outros?


Que somos nós sem os outros?


Só valeremos nós se valermos os outros.


Só seremos nós se formos os outros.


 

Um dia como os outros (192)

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Há muitos anos atrás, cheguei cedo a uma sala de Teatro. Estava já um senhor sentado na plateia. Gosto de ser público, muito. Resolvi ir sentar-me ao seu lado. Era este SENHOR. Cumprimentámo-nos e conversámos sobre o Teatro e a vida, de tudo e de nada e voltámos a falar no final da peça do que tínhamos visto e sentido e refletido.


Passado uns meses, volto ao mesmo Teatro e na plateia estava o mesmo senhor, e a situação repetiu-se. Rimo-nos da coincidência e voltámos a falar de tudo e de nada, e do Teatro e da Vida. 


Ele foi o meu Presidente da Câmara de Lisboa e o meu Presidente da República que muito amo e respeito e tive o privilégio de ir com ele duas vezes ao Teatro, que é a vida que adoro e escolhi.


Acreditem ou não sempre que vou sozinha ao Teatro, penso neste SENHOR que em dois domingos à tarde, foi o meu amigo das mesmas plateias.


Natália Luiza



 

Uma Pequenina Luz

jorge sampaio


Cerimónias fúnebres de Jorge Sampaio (09:46)


 


Uma pequenina luz bruxuleante


não na distância brilhando no extremo da estrada


aqui no meio de nós e a multidão em volta


une toute petite lumière


just a little light


una picolla… em todas as línguas do mundo


uma pequena luz bruxuleante


brilhando incerta mas brilhando


aqui no meio de nós


entre o bafo quente da multidão


a ventania dos cerros e a brisa dos mares


e o sopro azedo dos que a não vêem


só a adivinham e raivosamente assopram.


Uma pequena luz


que vacila exacta


que bruxuleia firme


que não ilumina apenas brilha.


Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.


Muda como a exactidão como a firmeza


como a justiça.


Brilhando indefectível.


Silenciosa não crepita


não consome não custa dinheiro.


Não é ela que custa dinheiro.


Não aquece também os que de frio se juntam.


Não ilumina também os rostos que se curvam.


Apenas brilha bruxuleia ondeia


indefectível próxima dourada.


Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.


Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.


Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.


Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.


Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:


brilha.


Uma pequenina luz bruxuleante e muda


como a exactidão como a firmeza


como a justiça.


Apenas como elas.


Mas brilha.


Não na distância. Aqui


no meio de nós.


Brilha


 


Jorge de Sena


 

10 setembro 2021

Presidente Jorge Sampaio

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Jorge Sampaio


 


Silenciosa e dignamente, Jorge Sampaio, um homem sério, honesto, com princípios, com coragem, o nosso Presidente que não tinha vergonha das suas ideias nem das suas emoções, que acertou e errou, como todas as pessoas que o são por inteiro, morreu hoje.


Vão morrendo aqueles a quem tanto devemos a consolidação da liberdade e da democracia.

02 setembro 2021

Questões

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Moisés recebendo os 10 mandamentos


Enciclopédia Britânica


 


Há a questão do sol da pele


do curtir da paciência.


Há a questão do tempo do secar


do vento da resistência.


Há a questão do acre do sabor


da vida da desistência.


Há a questão do sumo do dilúvio


do sal da providência.


 

15 agosto 2021

Ser Mortal

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Atul Gawande


 


Somos mortais embora cada vez nos lembremos menos disso. E deixamos cada vez mais de aceitar essa inevitabilidade.


Para a nossa sociedade e principalmente para nós, médicos, que encaramos a profissão como a obrigação de vencer a morte e, quando já não é possível, de a adiar, o envelhecimento não é mais que uma soma de disfunções das várias partes do corpo que são encaradas cada uma por si e não como um todo, em vez do normal e inevitável processo de nos irmos aproximando do fim.


Por isso, à medida que os nossos familiares, amigos ou nós mesmos, começam a ter dificuldades na mobilidade, a lentificar as reacções, a perder a memória, a cair, quando os nossos órgãos e sistemas se começam a desligar, a gastar todos os backups existentes, não aceitamos essa realidade e, em nome da segurança e da necessidade de viver, sempre mais e mais, utilizamos os conhecimentos técnicos para fazer mais qualquer coisa sem cuidar que é disso mesmo que precisamos, que é isso mesmo que queremos.


Em nome da vida tornamos a vida daqueles de quem cuidamos, pessoal e/ ou profissionalmente, num somatório de entradas e saídas do hospital, infantilizamos as suas vidas e proibimos-lhes aquilo que mais define o ser humano - a sua liberdade, a tomada de decisão, a privacidade.


Lares e casas de repouso que tudo proíbem, que homogeneízam as refeições, as horas de levantar e deitar, os quartos, as mobílias, as companhias, intervenções médicas e cirúrgicas que muitas vezes são a forma de apaziguarmos o medo e a incapacidade de encarar o inevitável e de o preparar, esticando a possibilidade de estender a existência com o objectivo desta ser o que queremos, mesmo com limitações, mas sem nos transformarmos num fardo para nós e para os outros.


Atul Gawande escreveu Ser Mortal com a ternura e a coragem de quem quer ser mais do que um médico que informa, mas transformar-se num médico que ajuda. Talvez tenhamos que aprender a olhar o fim da vida de outra maneira, a escutarmos e a deixarmos falar quem queremos tratar. A felicidade tem muitos matizes e é diferente para cada um de nós. A sensação de utilidade, de um compromisso com os outros, de amar e ser amado, de poder manter a individualidade, a privacidade e a capacidade de decidir, deveria ser o próximo passo na humanização dos cuidados de saúde. 


Um livro indispensável.

11 agosto 2021

O vazio inicial

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Kim Hoa Tram


(2005)


 


O vazio


inicial o susto do indizível


o risco secreto o medo do gesto


a mão que hesita a sombra o fundo


o silêncio a terra em suspenso


o morno acordar da palavra


o poema.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...