11 dezembro 2020

Da nossa vergonha

"(....) Mas a triste sorte de Ihor Homeniuk não mereceu até agora nem a indignação geral nem sequer o interesse específico da Provedora de Justiça, que tanto tem denunciado as condições inaceitáveis dos CIT, aos quais chamou "terras de ninguém" e espaços de "não direito". Não mereceu a exigência de que o SEF seja mudado de cima a baixo - ou extinto. Não mereceu praticamente nada a não ser a obsessão de poucos jornalistas, entre os quais me incluo.


E no entanto pouco houve nos últimos anos que merecesse mais o nosso clamor. Porque se é isto uma polícia portuguesa do século XXI, se é assim que tratamos pessoas completamente desprotegidas, que país somos? Se não chega a diretora do SEF assumir que um homem foi torturado sob a sua guarda, a do Estado português - a nossa - para que lhe indemnizem a família, que falta? Que nos falta?"


É uma vergonha colectiva. Com raras excepções, como a de Fernanda Câncio (21/11/2020), calamos um inqualificável e gravíssimo atropelo a tudo o que tem a ver com leis, Direitos Humanos, decência.


Nem Cristina Gatões, nem Eduardo Cabrita, nem António Costa, em Marcelo Rebelo de Sousa, nem nós, cidadãos, que tantas indignações diárias temos por ninharias e tanto nos calamos por aquilo que de facto importa.


Sobrado

OWL - Simon Hempsell.jpg


Owl


Simon Hempsell


 


Arrumei o meu sapato


Procurei-lhe pelo par


Escondeu-se o ingrato


E eu saio a coxear


 


Tenho uma meia já posta


A outra por descobrir


Bem chamo mas a resposta


É que não se faz ouvir


 


Tivesse a roupa cem dedos


E o caminho cem luas


Inventava mil enredos


Com saias grandes e nuas


 


Tanta palavra que sobra


No sobrado da cabeça


Mesmo com tanta manobra


Não há verso que apeteça


 

07 dezembro 2020

Patria

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O livro de Fernando Aramburu é avassalador. Muitíssimo bem escrito, narra a vida de duas famílias, e com elas a vida dos bascos, durante a luta pela independência. De um lado os defensores da luta armada do outro as vítimas dessa luta.


O terrível rasgar das relações de amizade, de convívio, de respeito, a separação entre os que dão a vida pela causa e os que são assassinados pela utopia, a pobreza, as complicadas relações humanas atravessadas pela pobreza, pelas diferenças de classes que são como um rio lamacento que vai inundando as consciências.


Uma mãe que fala com Santo Inácio de Loyola, uma esposa que fala com a túmulo do marido, tudo de pedra, tudo frio, a fé que se desmonta e soçobra, o medo, a superação, a resistência e a perda de todas as ilusões.


Um livro tão bom como duro, que remexe nas feridas para as curar.


É raro que a adaptação cinematográfica faça justiça à literatura. Não é este o caso. A série da HBO é fiel ao relato de Fernando Aramburu e dá tons à rigidez da realidade, à crueza das feições torturadas, dos sentimentos afundados, das lágrimas bem fechadas.


Não percam nem um nem outro. À sua maneira é uma história de Natal.

06 dezembro 2020

Entre - Lugar


Prenda de Natal: Manuel de Oliveira

De palavras me alimento

misterious books sculptures.jpg


Scottish book sculptures


 


De palavras me alimento


Secas pobres resignadas


Ato-as nas bordas do vento


Sopro-lhes gumes de espadas


 


Orações de pão e vinho


Solitária companhia


Atapetam-me o caminho


De tristeza e alegria


 


Escolho pedras são sinais


Das esquinas que encontramos


Pelos mundos desiguais


Pelos sonhos que encerramos


 


Com palavras me renovo


Em silêncios incontidos


É no amor que me devolvo


É nos gestos dissolvidos


 


Conto os dias que me faltam


Escrevo versos ressequidos


Que as palavras já não voltam


Aos meus dedos esquecidos


 

Da irresponsabilidade criminosa

vacinas covid expresso.jpgTítulos do Expresso entre 26 e 27 de Nov/2020, por ordem cronológica


 


Vivemos tempos de perigo e populismo. A pandemia libertou fantasmas e o pior que há em nós.


A incerteza, o medo, o nascimento espontâneo de especialistas em virologia, epidemiologia, imunologia, saúde pública, vacinação e estatística, arrebatados e comandados pela enorme necessidade de ter audiências e pelo desnorte dos responsáveis políticos, leva ao descrédito e à desconfiança de quem tenta perceber o que se passa.


O Expresso deixou há muito de ser um jornal sério e de referência, mas vai-se superando a si próprio. O mais assustador é a falta de calma e ponderação de quem vai atrás dos títulos bombásticos e gera ainda mais pânico. Talvez um dia haja várias teses de doutoramento sobre o comportamento dos media na pandemia (refiro-me a esta - COVID-19).

Da demolha e cozedura do bacalhau

bacalhau.jpg


Com ou sem pandemia, o calendário aí está e a noite de Natal aproxima-se a largos passos. É tudo muito estranho pois este ano parece que não passou, que ficou suspenso desde Março e que não sabemos quando vai recomeçar.


Mas tudo continua nas profundezas dos movimentos de rotação da Terra e da órbita à vota do Sol. Portanto convém começar a fazer planos para a Consoada que vai ser uma realidade, independentemente do número de pessoas que pudermos e quisermos juntar.


E do bacalhau não nos escapamos. E como, de vez em quando, resolvo regressar à busca do básico mais básico para uma aprendizagem em etapas, nunca chegando às superiores e voltando ciclicamente às dos patamares, resolvi investigar o problema da demolha do bacalhau e do ainda mais importante tema da cozedura do mesmo.


Está tudo na internet. Depois de assistir a vários tutoriais no YouTube e a descrições mais ou menos exaustivas dos processos (até a DECO tem um artigo sobre este magno problema), cheguei à conclusão que nunca, mas mesmo nunca, cozi o bacalhau como devia. O mistério é ele não se ter queixado, nem nenhum dos comensais.


Vamos por partes: a demolha - não é mais que reidratar o bacalhau, ou seja, restituir-lhe a água que perdeu com a salga (para quem gosta de usar o bacalhau seco e salgado, claro, porque já há bacalhau demolhado e congelado à venda). Deve colocar-se sempre a pele para cima, as postas do bacalhau não devem assentar no fundo do alguidar, onde devem ficar a nadar, para que o sal não se deposite na carne do bicho, a água deve estar fria, sendo substituída frequentemente (não há consenso – nuns sítios dizem de 3 em 3 horas, noutros de 8 em 8 horas). Antes do alguidar deve passar-se o bacalhau por baixo da torneira para retirar de imediato o excesso que está à vista. O tempo da demolha é ditado pelo tipo de bacalhau que se tem.


tempo demolha bacalhau.PNG


Durante este processo o bacalhau deve ser mantido no frigorífico, pois à medida que perde o sal e ganha a água aumenta o risco de se deteriorar. Para se ter a certeza de que está bem, tira-se uma lasca de uma posta e prova-se.


A cozedura foi todo um novo abrir de olhos para segredos culinários, pelo menos para mim, que há anos que como bacalhau cozido com todos nas várias épocas do ano. Pois fiquei a saber que o bacalhau não deve ser fervido. Portanto põe-se um tacho cheio de água ao lume, perfumada (adoro estes preciosismos linguísticos) com um pouco de azeite, louro e alho. Quando a água ferver coloca-se o bacalhau no tacho (com a pele para cima), deixa-se levantar de novo fervura, retira-se o tacho do fogão (desliga-se o lume), tapa-se bem tapado e espera-se 15 minutos.


E pronto, aqui está o resumo da matéria estudada. O momento da verdade será o próximo dia 24 à noite. Eu adoro experimentar coisas quando não devo. É mesmo uma estranha atracção pelo abismo.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...