05 novembro 2020

Quinze (15) anos

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Quiet Whisper


Miertje Skidmore


 


Quinze anos se passaram desde que comecei este blogue. Quinze anos em que muito aconteceu e mudou, no mundo e em mim.


Olho para a realidade actual e pergunto-me em que medida fiz parte destes quinze anos, como terei eu participado, moldado ou sido moldada pelas torrentes que nos assolam diariamente, umas mais subterrâneas, outras mais transparentes.


Definhei, particularmente na cor com que olho para o presente e para o futuro. Vou emudecendo, de espanto e incapacidade de processar este novo anormal em que nos tornámos como comunidade. As convicções nos alicerces da liberdade e da democracia rudemente postas à prova perante tão avassalador ataque aos valores da justiça, solidariedade, independência, sabedoria, competência, humildade, todos aqueles que nos habituámos a associar à sociedade do novo milénio, em que o acesso à informação e à cultura, aos mais elementares meios de dignificação da vida seriam, pelo menos, mais alargados, em que a igualdade fosse mais espalhada.


Na verdade parece tudo estar a ruir. A inacreditável hipótese de reeleição de alguém como Donald Trump para a Presidência dos EU é assustadora. A falta de respostas dos sistemas democráticos, o deslaçar das sociedades, o aumento das desigualdades, da pobreza, da xenofobia, do racismo, com o consequente aumento dos populistas, é perigoso e parece não ter forma de ser detido. Os partidos da esquerda não têm sido capazes de dar respostas aos problemas cada vez mais urgentes e os totalitarismos já não são apenas larvares.


Na minha vida também aconteceram coisas muito boas. A internet tem lados negros mas é uma ferramenta poderosíssima no conhecimento, na informação, na criação de laços entre pessoas que, de outra forma, nunca se encontrariam. Conheci pessoas fantásticas, embrenhei-me em grupos, discussões, trocas de experiências, algumas negativas mas a maioria positivas. Estou mais velha mas fiz coisas diferentes e que nunca teria pensado fazer, tanto a nível profissional como pessoal. Publiquei 4 livros de poesia, mudei duas vezes de local de trabalho, participei na organização de vários eventos científicos, ri muito e chorei muito, zanguei-me muito, esperei muito.


Apesar do desânimo, sei que é passageiro. Espero ainda muito, de todos, mas principalmente de mim. Vai-se fazendo tarde e começa a faltar o tempo.

02 novembro 2020

Do atraso das bruxas

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Afinal até as vassouras estão com problemas, provavelmente devido à pandemia. E hoje chegaram as bruxas e os bruxedos a minha casa.


Começou logo de manhã, mesmo de manhãzinha. Como tenho treinos a toda a hora e momento, que se alteram consoante as possibilidades e as disponibilidades do serviço, é perigoso tomar por certo que os horários não precisam de ser confirmados diariamente.


Sendo assim, lá fui confiada e pontualmente às 07:30 para o ginásio, não sem antes andar de trás para a frente à procura de uma máscara que, pelos vistos, desapareceu durante a noite. É claro que a PT, que NUNCA se atrasa nem NUNCA falta não estava. Algo me disse que deveria confirmar o treino no calendário do telemóvel (agora até para entrar no ginásio é preciso a app no telemóvel) e, de facto, confirmei que NÃO havia treino.


Regressei a casa sem sequer fazer 10 minutos de passadeira. Há que aproveitar para descansar as perninhas.


Mas a manifestação das forças ocultas foi forte e avassaladora no momento em que quis calçar uns sapatos, dos poucos que se tinham salvo após a razia das mudanças. Ao andar deixavam uma estranha pegada negra. Decidi que estavam sujos e, depois de esfregar as solas com bastante entusiasmo, tentei de novo. Andar andei, mas os sapatos foram-se despedindo da vida aos pedaços, desfazendo-se à medida que dava passos decididos pela casa. Alguém foi lesto a comparar-me a um dos monstros do Exterminador Implacável, que se ia destroçando à medida que se deslocava, deixando pedaços de pés e pernas para trás. De facto os sapatos eram velhos. Na realidade não me lembro mesmo quantos anos já teriam, mas podiam ter escolhido uma forma mais discreta e menos abrupta de me avisarem da sua senescência.


Enfim, vamos ver o que ainda me aguarda. Mas que o dia está azarado, está.

22 outubro 2020

Os novos inquisidores

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Eugenio Lucas Velázquez


 


Fiquei a saber da existência de um grupo de médicos, enfermeiros e psicólogos que se intitula Médicos pela Verdade Portugal ao ler este artigo do Público, que dá conta do levantamento de processos disciplinares a 7 médicos pela Ordem dos Médicos, o que me deixou indignada.


Independentemente de concordar ou não com muito do que lá se diz, não consigo acreditar que no nosso país se levantem processos disciplinares contra quem discorde da linha oficial do combate à pandemia, com muitos e bons argumentos científicos.


O debate científico tem que ser isso mesmo - ciência e não ideologia. A politização da pandemia é de tal forma disparatada que não se consegue ter uma conversa normal e produtiva sobre o assunto. Se se concorda com o uso indiscriminado de máscaras, nomeadamente ao ar livre, confinamentos e restrições sociais, é-se de esquerda e do lado certo. Se se tenta discutir e levantar dúvidas a esta estratégia, está-se do lado errado e é-se de ultra-direita.


De vez em quando aparecem entrevistas que tentam remar contra a maré do pânico e do desnorte, como a de Jorge Torgal e a de Henrique de Barros. É indispensável que o governo se foque em desdramatizar e acalmar a população, de forma a tentar que as consequências do combate à pandemia sejam o mais possível minimizadas. O regresso à actividade é premente, numa tentativa de recuperar tudo o que ficou suspenso durante estes últimos meses. As cirurgias, tratamentos, rastreios, consultas de acompanhamento dos vários tipos de patologias, desde as oncológicas às cardio-vasculares, têm que ser retomadas sob pena de assistirmos à degradação dos indicadores de saúde do país.


Não desvalorizo a importância do combate à pandemia. Mas não podemos esquecer tudo o resto - outras patologias, o deslaçar dos laços sociais, a degradação do emprego, da economia, o aumento da pobreza e da desigualdade com o consequente e previsível aumento da conflitualidade social. Felizmente a realidade da gravidade do vírus é menor do que a que se previa, no início.


Não quero acreditar que, no meu país, esteja de volta a Inquisição, portadora da verdade indesmentível e indiscutível, calando a voz de quem, honesta e cientificamente, tenta dar alternativas.


Após este texto, ninguém precisa de me delatar nem de me acusar. Aguardo serenamente a ideia de ter um processo disciplinar à minha espera.

18 outubro 2020

Dos recursos humanos


"Não conseguindo descortinar o propalado reforço de recursos humanos médicos, o SIM está a dar orientações aos médicos seus associados para apresentarem o seu protesto e declaração de exclusão de responsabilidade", dirigida "aos seus superiores hierárquicos diretos".


Em 02 de setembro, a ministra da Saúde, Marta Temido, anunciou a publicação dos concursos para a contratação de 950 novos médicos para o Serviço Nacional de Saúde (911 da área hospitalar e 39 da saúde pública).



Gostava muito de saber quantos dos médicos que estão a concorrer a estes concursos, atrasados, não estão de facto a trabalhar já no SNS, ou seja, no local da vaga para onde vão concorrer. É que suspeito que em cerca de 99% dos casos é a formalização - importante e imprescindível, sem dúvida - de uma situação que não teve interrupções entre o fim do Internato Médico e a tomada de posse como Especialista.


Mas este tipo de informações nunca são prestadas.


Também gostaria muito de saber aonde os Bastonários - o presente e os passados - e os Sindicatos sugerem que se vá recrutar médicos - requisição civil aos privados?

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...