
Nota: O autor desta fotografia é controverso.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]

Afinal
já a dança nos afasta. Os lugares desconhecidos
assim mesmo permanecerão. Afinal já o tempo
importa e todas as pequenas frivolidades que
adiamos caberão noutras vidas. Afinal já a porta
se vai fechando e a perda dos afazeres da futilidade
pesa mais que todos os versos que ainda não
descobrimos.

Nunca julgaria possível ver na Presidência dos Estados Unidos alguém tão inqualificável como Donald Trump.
Todos os dias se excede em afirmações bombásticas, estúpidas, mentirosas, irresponsáveis. Não sei se estará demente ou se é apenas uma desculpa que arranjamos para aceitar que foi eleito, que o mesmo país que elegeu Obama foi capaz de o substituir por tamanho incapaz.
Estaremos ainda para assistir a piores desmandos, com a desavergonhada suspeição que levanta sobre as próximas eleições, com a inusitada classificação de ataque ao imenso desastre em Beirute.
Isto passa-se nos Estados Unidos da América, não numa qualquer República de um país de banda desenhada ou de filme do Woody Allen.

Não é por me afastar
que me aproximo
se o abraço me faltar
estendo os olhos
nas palavras a guardar
falta-me a boca
que me nego a calar
pois serei louca.
Se o silêncio me bastar
cavo um buraco
para quando me fartar
deste pedaço.

O ar completamente parado, sufocante, de uma luz amarelada e bafienta. As tardes de Verão na província, a obrigatória sesta nos quartos insuportavelmente quentes, com as portadas de madeira que abriam riscas de pó dançante, até que o sono vencia as mais resistentes pálpebras. Ao longe o canto das cigarras era a única coisa que se ouvia.
Outro dia surpreendi-me a ouvir cigarras no Jamor, enquanto me preparava para o treino. Repentinamente senti-me outra vez com 10 anos, naquelas imensas tardes suspensas, como se a vida sustivesse a respiração.

Se calhar já ninguém se lembra das previsões do tsunami da pandemia que estava prestes a atingir Portugal. Convém lembrar que a previsão mais benigna era de termos 16.395 casos a 30 de Março, e a mais negativa projectava 48.110 casos no mesmo dia. Felizmente apenas a 18 de Julho se atingiram os 48.390 casos (110 dias depois).
Ao contrário das muitas declarações que se multiplicam veiculadas por diversas entidades e personalidades com diferentes formações e responsabilidades, considero que, em Portugal, a situação nunca esteve descontrolada e até tem corrido bastante bem.
Se bem me recordo, o grande objectivo era achatar a curva, de forma a reduzir ao máximo a inundação dos serviços de saúde e a mortalidade, minimizando as infecções nas faixas etárias mais elevadas. Até hoje, mesmo após o desconfinamento, isso tem sido conseguido.
Espero sinceramente que se possam retomar todas as actividades o mais depressa possível, vencendo o alarmismo e o pânico que nos assolam. Não podemos manter alocados todos os recursos, nomeadamente os da saúde, a tratar uma doença que, apesar de tudo, atinge 0,5% da população do país, se considerarmos apenas os casos confirmados de infecção. Há imensas outras patologias que foram deixadas à sua sorte, muitos doentes que deixaram de ser acompanhados, ou porque não procuraram os serviços ou porque estes estavam impossibilitados de os atender.
É indispensável, sem que abrandemos os cuidados e a prevenção da infecção, que saibamos conviver com este vírus. Não me parece justificável a manutenção diária de notícias que nos convencem de uma magnitude que está desfocada da realidade.

Não desvalorizo a COVID-19, até porque muito há ainda para saber e descobrir sobre esta entidade. Mas a hipertrofia mediática do SARS-CoV-2 faz-nos desfocar de todos os outros problemas tão ou mais graves e muito mais prevalentes nas nossas sociedades. É altura de recuperarmos do susto e de reorganizarmos as prioridades.

(A Coruña)
E assim continuámos, entre as finalizações de pequenos pormenores de arranjos, como o descortinar um carpinteiro para compor e restaurar as portas, que ao longo dos anos tinham perdido o aprumo da juventude e se tinham despedido de alguns bocados de puxadores, embaçadas e retorcidas por humidades e sem exercerem a sua mais nobre função: fecharem-se.
Estas finalizações são daquelas que nunca mais finalizam e a tolerância deixa de funcionar. Já se gastaram todos os restos de compreensão para com os atrasos tradicionais neste tipo de trabalhos e para com os pequenos ajustes daquilo que já devia estar prontíssimo. Ainda por cima com a pandemia pelo meio, as obras esticaram-se até não se poder mais.
Ontem trocávamos impressões sobre esta e outras irritações minhas, olhando displicentemente para o que estava a dar na TV, com olhos pouco observadores e, repentinamente, voltaram os beeps. Comigo estava o representante mais novo da novíssima geração internáutica, perita em Zoom e notificações de gadgets passados e futuros, pelo que exclamei: Estás a ver? São estes os ruídos que, de vez em quando e sem ninguém perceber porquê, a TV grita excitadamente!
Senti sobre mim um olhar apiedado e ligeiramente impaciente: Mas isto não é a TV, é a caixa de música! Depois de emudecer uma resposta torta que assomou aos meus lábios, olhei melhor para a colectânea de coisas que se empilhavam na prateleira imediatamente inferior à da TV, onde estava uma caixa de música com muitos, muitos anos.
Tinha-a comprado em A Coruña, penso que em 1994, quando demos uma volta pelo norte da península passando por Vigo, Santiago de Compostela, A Coruña e Ferrol. Lembro-me que o tempo estava chuvoso e que, ao deambular pelas ruas junto ao mar, encontramos uma loja de brinquedos.
Os meus filhos eram pequenitos e eu fiquei bastante tempo a olhar para vários bonecos, carrinhos e caixas de música. Acabei por comprar uma que mimetizava um baú com brinquedos, linda, linda, mais apreciada por mim do que por eles, diga-se em abono da verdade. Dois anos antes, em Roma, tinha comprado outra, dessa vez uns palhaços bem garridos.

(Roma)
Pois era essa caixa de música, ninguém me pergunte como nem porquê, que estava a fazer aqueles ruídos. A corda está perra e, por vezes, não sei com que estímulo, dá um pouco de si e lá sai um beep. Animados de espírito científico demos corda à caixa e comprovamos que eram mesmo os ruídos da música repartida em sons isolados o que se ouvia.
Este nosso Sherlock riu-se perante o nosso espanto e a minha evidente frustração por não ter decifrado o mistério, devolvendo a caixa de música ao seu lugar ante-obras, na varanda-escritório, onde os beeps se produziam mas não eram ouvidos. Ficou patente a minha incapacidade de encarnar detectives amadores geniais. Estou mais perto dos polícias que só atrapalham as investigações.
Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...