12 setembro 2019

Ramos

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Tommy Craggs


 


Sobe a uma árvore irmão e ajeita os olhos entre as folhas


entreabre as janelas dos pássaros e esvazia devagar o medo.


Se ouvires murmúrios de silêncio e lágrimas de solidão


saberás que em segredo são outros os ramos que te olham.


As asas que abnegadamente constróis voam pelas luzes


com que palpitam os corações no escuro do mundo.


Parte um dos ramos irmão como partiste os muros da vida.

10 setembro 2019

Da misantropia

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Pode ser que sim, pode ser que esteja com um ataque de misantropia e que o meu tédio seja imenso e se estenda a vários géneros. Mesmo assim ainda não estou completamente enclausurada.


Vou vivendo a minha vidinha, espreitando as notícias, confesso que com a dita melancolia e muita desesperança, de vez em quando com sobressaltos e aumento de frequência cardíaca, afundada nas análises e nos compromissos vários que vou somando, mesmo querendo diminuí-los, omnipresentes treinos, algumas opíparas refeições, confecção de licores e experimentação de receitas de bolos.


Enfim, nada de queixas nem de lamúrias. Aproximamo-nos a largos passos das legislativas e, diga-se em abono da verdade, os debates e as entrevistas até têm sido civilizados, o que é muito bom sinal e decorre de alguns dos protagonistas e da descompressão a que se assistiu na nossa vida política, após estes 4 anos de Geringonça e de Presidente Marcelo.


Gostaria muito que a abstenção fosse menor que a que se tem verificado, mas não tenho grande fé. As sondagens que dão muitos votos ao PS e muito poucos ao PSD podem induzir à não participação eleitoral. Não estou assim tão convencida da irrelevância e incapacidade eleitoral de Rui Rio. Acho que tem feito muito boas entrevistas. Mas eu sou aquela que nunca acerta, portanto estarei, muito provavelmente, enganada.


Nunca conseguirei entender a razão de tantas páginas escritas sobre o pedido de maiorias absolutas pelos líderes partidários. É um enigma. Como se alguém votasse mais ou menos num partido por lhe ter sido pedido que se lhe desse uma maioria absoluta. E o raciocínio de não votar para impedir a dita maioria também me parece abstruso, pois no limite, esse partido até poderia perder.


O que é preciso é votar e estar atento a fenómenos populistas de direita e de esquerda, para não alimentar projectos mais ou menos totalitários, travestidos de boas intenções. E vigiar as inúmeras manipulações que se preparam ou que já estão em acção. Acreditemos que o voto ainda é aquele que traduz o nosso pensamento e a nossa vontade. Pelo menos a 6 de Outubro.

07 setembro 2019

Um beijo de súbito

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El Greco


 


Um beijo de súbito e ao fundo uma régua inteira de rio


Foi o dia em que perdi tudo quase tudo as chaves do carro


até o chão Não teve importância alguma porque


sequer me lembrava onde deixara o carro


Acontece-me muito de manhã esquecer-me do lugar


onde à noite estacionei a realidade


 


O melhor por vezes é sermos mesmo despojados de tudo


quanto menos tivermos menos perdemos


por exemplo o tempo Quanto menos juntarmos


menos desarrumamos por exemplo a vida


sem quinquilharia barata ao fundo da carteira


mais facilmente as coisas nos sobrevêm à mão


por exemplo a solidão


 


Até esse beijo súbito preso na moldura de um rio inútil


se terá perdido no meio das bugigangas todas que juntámos,


os filhos os livros os brincos (tantos brincos se perdem numa vida)


as ferramentas as casas a papelada a mobília as


roupas as tralhas e as palavras as memórias os bibelots


que já eram dos avós: os velhos guardam sempre tanto lixo


tantos fios eléctricos embaraçados tanta meia sem par


tanto amor desirmanado por aí


por onde?


 


Nesta confusão de tudo recolhermos em desalinho


Como encontrar, então, de súbito


o beijo ao precisarmos dele


ou a moldura


ou mesmo o tejo imóvel lá por dentro?


 


Rita Taborda Duarte

27 agosto 2019

O apodrecimento (2)

O que se está a passar na Amazónia é assustador. Mais assustador é ter alguém como Bolsonaro, um dos discípulos dilectos de Trump, à frente dos destinos do Brasil (e dos EUA).


Devastador é a onda de inacreditável boçalidade e incompetência, a mentalidade terrorista medieval que assola o mundo. Tudo é global e a estupidez dominante é globalmente arrasadora e destrutiva.

Concursos

Uma das informações que eu gostaria de ter, das várias notícias que saíram hoje em relação à ocupação de vagas no SNS abertas em Maio deste ano, era o número de candidatos por especialidade.


Saber que apenas 14 de 31 vagas de ginecologia/ obstetrícia foram ocupadas é importante, mas mais importante, na avaliação da atractividade e capacidade de retenção de profissionais no SNS, é saber o número de recém-especialistas em condições de concorrer e quantos o fizeram.

25 agosto 2019

O apodrecimento (1)

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Expresso - 24 de Agosto de 2019

Aprumo

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Thierry Bontridder


 


 


Terminaremos no poema a escalada da dor


um qualquer aprumo de dedos e cardos


com que as lágrimas semeadas negarão as rosas


e exauridos nos afadigaremos de vida e de mundo


depurados de sumos e de colheitas sem cor.

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...