20 junho 2018

De Dieppe a Dunkerque

 


A ideia era passar em Crecy, local da batalha do mesmo nome, um dos confrontos entre franceses e ingleses (que o ganharam) na Guerra dos Cem Anos (26 de Agosto de 1346). Sabíamos inclusivamente que havia um museu que gostaríamos de visitar.


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Sítio da batalha de Crécy 


 


Até lá percorremos quilómetros e quilómetros de terra plana, totalmente cultivada, em que não se via vivalma. Passámos por alguns agrupamentos de casas, de vez em quando, onde fomos obrigados a respeitar uma velocidade máxima de 50 ou 30 Km/h, até chegarmos ao poiso escolhido para a noite. Confesso que estava um pouco apreensiva, pois apesar do meu tão apregoado amor pelo campo, pelo silêncio e pela solidão, tanta solidão, tanto silêncio e tanto campo também me pareciam um pouco exagerados. Só me lembrava que de noite, se o céu estivesse limpo (o que não era o caso), poderíamos ver um céu totalmente estrelado, pois não se via uma única luz à volta, nem de casas nem pública. Ou como estava nublado, seria de uma escuridão assustadora.


 


Mas o sítio em que ficámos - La Nicoulette, em Saint Riquier, Gaspennes – era muito simpático, num quarto húmido, mas acolhedor e confortável. O rapazinho que nos recebeu, o filho do dono, aí com os seus 10 anos, totalmente desembaraçado, a explicar-nos as especificidades da chave e da abertura da porta, em francês e em inglês, era enternecedor.


 


Fomos então em busca do museu de Crécy, que encontrámos. Era composto de 3 salas, 1 dedicada à Batalha de Crécy, outra com a exposição de vários artefactos arqueológicos da Idade Média encontrados na zona, e outra dedicada à II Guerra Mundial, pois em Poitiers estavam localizadas as rampas de lançamento das bombas voadoras V1.


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Crónicas de Jean Froissart


 


O senhor que nos atendeu foi amabilíssimo, fartou-se de conversar sobre as batalhas de Crécy e Azincourt, sobre a Guerra dos Cem Anos e sobre bombas voadoras. A sua felicidade era evidente. Suspeito que não serão muitas as vezes em que um dos visitantes sabia tanto do assunto, dando-lhe oportunidade de trocar impressões e falar sobre as dinastias inglesas e francesas, dos Borguinhões e dos Armagnacs, das tácticas de batalhas medievais, etc. Acompanhava-o uma senhora, apresentada como sócia da Association EMHISARC, que estava verdadeiramente deliciada com o(s) visitante(s). Um muito pequeno núcleo museológico mas que nos deu um prazer imenso visitar.


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Museu de Crécy


 


No dia seguinte, depois de um pequeno almoço revigorante e completamente caseiro, partimos precisamente para Azincourt, onde partilhámos a visita ao museu com um grupo de miúdos de uma escola local, dos seus 8 ou 9 anos, que estavam divertidíssimos a experimentar a força que os besteiros tinham que fazer para poderem disparar as bestas, mas que se aborreceram mortalmente a ouvir excertos de Henrique V, de Shakespeare. A rapariga que guiava a visita, muito jovem, estava totalmente compenetrada do seu papel e desempenhava-o muito bem.


 


A seguir a 1944 (desembarque na Normandia) e a 1942 (Dieppe), só faltava uma batalha, ou o que dela resultara, de 1940 - Batalha de Dunkerque. Da praia foram depois evacuados cerca de 340.000 soldados, predominantemente britânicos mas também franceses (alvos fáceis de bombardeamentos inimigos), fugidos e cercados pelos alemães que, entretanto, tinham avançado pela França a uma velocidade avassaladora. Foram resgatados por milhares de barcos ingleses, numa operação chamada Dínamo (esta operação foi tema de um filme de que já aqui falei).


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A praia é grande, um areal imenso que é difícil imaginar pejado de homens, aguardando pelo seu resgate.


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 Finalmente, para descansar de tantas batalhas, fomos para Bergues, ao Bienvenue Chez Nous.


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Igreja de St. Martin


 


Sentimo-nos mesmo bem vindos, numa casa recuperada para turismo de habitação, com uma dona que adorava Portugal e nos contou as suas experiências gastronómicas em Guimarães, com cabrito assado.


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La vie en rose


Marianne Michel

19 junho 2018

Dieppe

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Em Dieppe o dia começou frio mas foi clareando pela tarde. Vimos o Sol a aparecer e a azular o céu, o que deu outras cores a todas as casas do porto. Muitos barcos, muita gente a passear, muito borbulhar de vozes, muitos cafés e muitas brasseries. Como era hora de almoço regalámo-nos com umas moules marinières e à la crème, acompanhadas de cidra e de cerveja.


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Depois deambulámos pela praia onde, em 19 de Agosto de 1942, houve uma tentativa de desembarque dos aliados, predominantemente com tropas Canadianas – operação Jubileu, que foi completamente repelida pelos alemães, tendo havido um enorme massacre: dos cerca de 8000 homens 1800 morreram. O comportamento dos locais foi perfeitamente neutral até perceberem o desfecho da operação quando passaram a colaborar com os alemães, na captura dos canadianos que tentavam fugir.


 


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Não é difícil imaginar o horror, mesmo olhando para aquela praia quase deserta, a enorme quantidade de militares a tentar desembarcar os equipamentos, a serem metralhados e bombardeados sem conseguirem avançar, amontoando-se uns em cima dos outros. Tenho lido várias vezes que se tratou de um teste ao desembarque na Normandia, talvez como forma de justificação de uma operação que correu tão mal.


 


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Entretanto, e já com Sol, começámos a ver um comboio de barcos todos engalanados com flores e bandeiras a encaminharem-se para o mar. Foi-nos explicado que era a fête de la mer. Não consegui encontrar a explicação nem a génese deste costume, que é bem o retrato de um domingo em paz.


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Maréchal, nous voilà!


Andre Dassary


(1941)

18 junho 2018

Rouen

Antes de chegarmos a Rouen passámos por Lisieux para tomar um café. Havia um mercado de rua (era sábado), do mesmo tipo das nossas feiras por todas as pequenas cidades e vilas de província. Encontrámos uma banca que vendia livros em segunda mão, tendo sido obrigatória a compra de alguns livros de banda desenhada de Achille Talon, muito apreciado por certas pessoas.


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Rouen é célebre por vários motivos, um deles a sua catedral, enorme, de estilo gótico, não só por ter sepultado o coração de Ricardo, Coração de Leão, mas também pelo facto de ter sido pintada por Monet numa série que retrata as suas diferentes luminosidades, com pelo facto de ter sido ficado bastante destruída pelos bombardeamentos aliados em 1944.


 


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Claude Monet


 


No centro histórico as casas têm cores acastanhadas e ocre e traves que se cruzam formando ângulos rectos. Encontrei uma num equilíbrio bastante instável, inclinada para o lado esquerdo, quase como se fosse desabar. Demos uma volta num daqueles pequenos comboios turísticos, aproveitando para descansar um pouco.


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A etapa seguinte levou-nos a Dieppe.



There'll Always be an England


Vera Lynn

Jeanne d'Arc

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Jules Lenepveu


 


Sempre tive uma grande curiosidade pela figura de Joana d’Arc. É uma história romântica, quase inacreditável, mais olhada como uma lenda do que como um facto histórico. Uma rapariga humilde, filha de agricultores que, guiada por Deus, se transforma numa guerreira que luta e ganha batalhas pela França, que consegue levar um rei à coroação e que é aprisionada, julgada e morta como herege por um tribunal religioso, sendo queimada viva.


 


Tem tudo para ser inacreditável e espantosa – a ascensão de quem nada pode e nada tem, uma rapariga que se veste de homem para passar segura entre homens, num tempo em que isso era visto como um atentado às leis dos homens e de Deus, a capacidade que tinha de galvanizar as pessoas, de todas as camadas sociais, a sua religiosidade – ouvia vozes de santos e santas – que convencia militares e reis (ou aspirantes a reis).


 


Por isso foi com todo o entusiasmo que fui ouvir e ver a história de Joana d’Arc, em Rouen. A história é contada com recurso a uma recriação do julgamento póstumo, 25 anos após a sua morte, que a inocentou dos crimes de que foi acusada e que levaram à sua condenação a morrer queimada. De facto interessante, mas tão prolongada e tão arrastada que, depois de ter subido uma interminável escada em caracol (íamos passando de sala em sala), decidi que já estava esclarecida.


 


Joana d’Arc foi canonizada já no séc. XX, 5 séculos depois de ter vivido (e morrido). A sua história inspirou muita literatura, filosofia, teatro, poesia e cinema, tendo havido já inúmeros filmes que se debruçaram sobre a sua personagem. Vi um deles, há bastantes anos, protagonizado por Ingrid Bergman, uma das minhas actrizes preferidas.


 


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É-me muito difícil compreender como foi possível a uma mulher tão jovem e tão simples e, muito provavelmente iletrada, que ouvia vozes, ter tido audiência junto de um pretendente ao trono e dos seus mais directos colaboradores. Mas a verdade é que quando o desespero impera, tudo vale e a fé pode mover montanhas. Ainda hoje é assim, mesmo com toda a ciência e toda a tecnologia existente.


 


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Igreja Santa Joana d'Arc - Rouen


 



Joanni


Kate Bush

Um dia como os outros (182)


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(...) E assim não nos darmos conta de esta ser também uma tragédia nossa. A de termos media que desde 2003 se especializaram nas acusações sem provas, coadjuvados por um cada vez maior grupo de comentadores para quem o Estado de Direito é uma maçada, uma desnecessidade até. A de termos um ministério público que continua a ostentar em alguns casos interpretações romanceadas, canalhas, voyeuristas e preconceituosas de "provas" e chegou agora ao ponto de permitir -- se nada faz para impedir nem punir, permite -- a exibição televisiva de vídeos de interrogatórios. A de termos uma justiça na qual algo como o que fizeram a Paulo Pedroso sucede e que não é capaz de o reparar, de tornar claro que é inadmissível, que tem de haver consequências e que, sobretudo, não pode mais acontecer. O que, claro, quer dizer que não temos justiça. Mas, está visto, não nos faz falta: temos a nossa opinião. Como aquela pessoa que em 2003 me disse: "Já viste que ele não tem barba? Tem mesmo cara de pedófilo."


 


Fernanda Câncio


17 junho 2018

De Bayeux a Utah Beach

Antes de chegarmos a Utah Beach passámos por Sainte-Mère-Église, uma das primeiras vilas a ser libertada no dia D, célebre pelo facto de um para-quedista americano – John Steele - ter ficado pendurado na igreja na noite de 5 para 6 de Junho de 1944. A igreja tem um pequeno largo, rodeado de cafés com mau aspecto, descuidados, tal como quem atende que, para além do descuido também é mal-encarado.


 


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A verdade é que já sabia um pouco desta história, tal como da operação Overlord, pois estive a ler um livro de Cornelius Ryan, O Dia Mais Longo, que conta mais de 10 anos de investigação histórica e de entrevistas aos protagonistas da invasão da Normandia. Desde os planos, aos desaires dos parquedistas, à resistência alemã predominantemente na Omaha Beach, está tudo lá, lendo-se quase como um romance. Não admira que tenha sido posteriormente adaptado ao cinema, resultando um filme com o mesmo nome.


 


Depois alcançámos Utah Beach. Não sei o que esperava encontrar. Uma praia enorme, de onde se podem adivinhar as restantes praias, quase sem ninguém, encimada por uma escultura alusiva ao desembarque. A sensação de que, tantos anos depois, é como se tudo o que sabemos ter acontecido parecer uma invenção de alguém com uma imaginação doentia, ao observarmos a paz e a tranquilidade que reina, o mar, o vento, o silêncio, ao contrário do ruído ensurdecedor das explosões e dos tiros, dos gritos dos homens, da morte e do sofrimento.


 


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Aqui começa a Via da Liberdade, com o marco 00, que termina em Bastogne.


 


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O museu, para além de várias salas dedicadas ao desembarque americano, tinha também uma sala dedicada aos prisioneiros alemães, submetidos a uma espécie de reeducação. O local onde estiveram aprisionados, as actividades que faziam, o envolvimento com as comunidades. Apercebi-me, inclusivamente, que muitos voltaram a França e cá ficaram a viver. Infelizmente os exemplos de maus tratos aos prisioneiros de guerra não são apanágio apenas dos alemães, pois todos os cometeram – americanos, ingleses, japoneses, soviéticos, etc.


 


A ocupação da França pelos alemães durou 4 anos. Durante todo esse tempo as populações, melhor ou pior, mais ou menos revoltadas, mais ou menos resistentes, tiveram que se adaptar a uma nova vida. Muitos conviveram com as tropas alemãs, compostas por gente tão solitária e saudosa da sua terra e da sua família, gente que se misturou com os locais. Grandes dramas se passaram após a libertação, quando se caçaram os colaboracionistas, uns verdadeiros traidores, outros que apenas continuaram a sua vida o melhor que puderam; julgamentos sumários e humilhações públicas. Verdadeiros dramas para todos.


 


E decidimos regressar a Caen sem passar pelas outras praias, com os olhos inundados das imagens do desembarque na Normandia. Com a gratidão de quem, como eu, deve a todos os que lutaram a sociedade em que agora vivemos - a cooperação entre todos os países da Europa em paz e liberdade.


 


 


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Marlene Dietrich


Lili Marlene

Bayeux

Bayeux é uma cidade no departamento de Calvados, na Normandia, célebre pela sua tapeçaria. É uma cidade muito bonita e tivemos sorte com o tempo, que não estava frio nem demasiado quente. Depois de estacionar o carro, demos logo com a Boutique Coquelicot, engalanada por papoilas. Desde que soube que as papoilas se transformaram num símbolo da I Guerra Mundial, parece-me vê-las por todo o lado, despontando em qualquer campo por onde passo, assinalando a esperança e o renascimento. Fiquei imediatamente conquistada.


 


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Iniciámos a visita dos 3 museus pelo da Tapeçaria de Bayeux. Fiquei verdadeiramente abismada. Ao contrário do que esperava, a tapeçaria de Bayeux (uma peça de linho bordada a lã) tem 70 metros de comprimento e 50 cm de altura! Conta a história, como se fosse uma banda desenhada, da conquista do trono de Inglaterra a Haroldo por Guilherme o Conquistador, nomeadamente a batalha de Hastings (em 1066). Esta tapeçaria foi encomendada por Odo, Bispo de Bayeux e meio-irmão de Guilherme, e provavelmente confeccionada numa oficina de bordadoras profissionais. Pudemos contar com uma espécie de telemóvel, em português, para a explicação da história, cena por cena. A tapeçaria era exposta regularmente para a população a ver, tendo sofrido várias andanças e bolandas, nomeadamente durante a II Guerra Mundial, em que escapou a ser rapinada pelos alemães, como tantas outras obras de arte. De facto, extraordinária!


 


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Fiquei a saber ainda que a dentelle de Bayeux é uma espécie de renda de bilros, típica desta cidade.


 


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A seguir decidimos visitar o Museu Memorial da Baralha da Normandia. Como a cidade é pequena pensámos que os museus eram todos no centro, mas foi um loooongo engano, pois andámos quilómetros até lá chegar. Percorremos as salas do museu, onde se conta com pormenor o desembarque nas praias da Normandia, no dia 6 de Junho de 1944, o que aconteceu em cada uma delas – as americanas com os nomes de código Utah Beach e Omaha Beach (onde houve maiores baixas no desembarque); as inglesas com os nomes de código JunoGoldSword – e a resistência alemã, naqueles dias e nos meses posteriores, que levou a que apenas a 19 de Agosto os Aliados chegassem a Paris. Cá fora, um pouco afastado, o cemitério militar Britânico com campos cheios de lápides de militares mortos durante a II Guerra. Em cada lápide o nome, a idade e a força a que pertencia o morto. Quando não se chegou a uma identificação, a lápide tem as inscrições um soldado, ou um marinheiro, morto na II Guerra Mundial. E são bastantes.


 


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Não saímos de Bayeux sem comprarmos Calvados – uma aguardente de cidra ou pêra, e Pineau de Charentes, um aperitivo que tínhamos descoberto o ano passado mas sem o encontrar em lado nenhum.


 


Já um pouco moídos, dirigimo-nos a Utah Beach.


 



Germaine Sablon


Le Chant des Partisans

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...