07 janeiro 2018

Das reflexões adiadas

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Não sei se se trata de salvar o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Somos pródigos em exclamações dramáticas e declamações catastrofistas. Mas a verdade é que a reflexão sobre o SNS há muito tempo que está a ser feita por várias pessoas e que esta afirmação de António Costa peca por pífia, vem a reboque de um livro de António Arnaut e João Semedo, e sabe a muito pouco, ou mesmo a nada.


 


Há anos, mesmo décadas, que sabemos que há reformas profundas a fazer no SNS, sob pena de este se tornar insustentável e obsoleto, onerando e discriminando as camadas da população mais vulneráveis. Sabemos que um SNS universal e gratuito reduz as desigualdades sociais, sustenta a democracia e é menos gastador que as várias misturas entre público e privado que se observam no Canadá, EUA, etc, para além do óbvio contributo para a melhoria da saúde e da qualidade de vida das populações.


 


Já várias vezes abordei este assunto. Infelizmente ainda não vi, da parte deste governo e desta maioria, uma séria vontade de mudar o que tem de ser mudado. Há múltiplas reflexões, estudos e livros brancos sobre o problema do SNS e da forma como a sua reforma é urgente. Mas não há decisões políticas que alterem, de facto, o que se está a passar.


 


Todos os anos, nas férias de Verão e no pico da gripe, se enchem as notícias com as horas de espera nas urgências hospitalares e com a falta de recursos humanos. E todos os anos assistimos ao poder político a aumentar pontualmente os horários de funcionamento dos Centros de Saúde (CS) e a contratar a peso de ouro profissionais sem qualquer ligação aos hospitais e/ou aos doentes, para atenderem urgências hospitalares que não têm indicação para isso.


 


Mais uma vez, e repetindo o que já disse por diversas vezes, a aposta nos cuidados de saúde primários é indispensável, deslocando a entrada no sistema de saúde para os CS, libertando os Hospitais para os casos que não podem ser resolvidos fora do âmbito hospitalar.


 


Porque não contratar especialistas para darem consultas nos CS, inclusivamente ressuscitar a figura da visita médica ao domicílio, de forma a impedir que os doentes se desloquem às urgências hospitalares? Porque não haver atendimentos permanentes nos CS, que deveriam ter recursos humanos e técnicos para diagnosticar e medicar os doentes, libertando-os de horas de espera, incómodos, riscos e gastos evitáveis?


 


Sr. Primeiro-ministro, a reflexão é boa em qualquer altura, mas a acção tarda, tarda, tarda! O SNS está anquilosado, com escassos recursos, quadros envelhecidos e desmotivados, equipamentos obsoletos, horas de trabalho a mais e remuneração a menos. Não é um  problema novo mas é cada vez mais difícil de resolver, porque ninguém tem coragem de o enfrentar.

31 dezembro 2017

Dois mil e dezoito

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dois zero um oito


 


Com ou sem contabilidade final, acaba-se um ano e começa outro. Não cruzamos o tempo nem o tempo nos espera à entrada do primeiro segundo da primeira hora do primeiro dia do resto das nossas vidas.


 


Mas não deixamos de nos olhar como se alguma pele se destacasse e renascêssemos reluzentes, um brilho novo dentro das nossas habituais e usadas roupagens.


 


Que 2018 nos apeteça mais ainda que 2017.

30 dezembro 2017

O admirável mundo novo

(...) Assim, determina-se o seguinte:


1 — Os contratos a celebrar, para concessão de espaços destinados à exploração de bares, cafetarias e bufetes, pelas instituições do Ministério da Saúde, sejam da administração direta ou indireta do Estado ou os serviços e entidades públicas prestadoras de cuidados de saúde que integram o Serviço Nacional de Saúde (SNS), designadamente os agrupamentos de centros de saúde, os estabelecimentos hospitalares, independentemente da sua designação, e as unidades locais de saúde, não podem contemplar a venda, nem a publicidade, dos seguintes produtos:


a) Salgados, designadamente rissóis, croquetes, empadas, chamuças, pastéis de massa tenra, frigideiras, pastéis de bacalhau, folhados salgados e produtos afins;


b) Pastelaria, designadamente, bolos ou pastéis com massa folhada e/ou com creme e/ou cobertura, como palmiers, jesuítas, mil -folhas, bola de Berlim, donuts, folhados doces, croissants ou bolos tipo queque;


c) Pão com recheio doce, pão-de-leite com recheio doce ou croissant com recheio doce;


d) Charcutaria, designadamente sanduíches ou outros produtos que contenham chouriço, salsicha, chourição, mortadela, presunto ou bacon;


e) Sandes ou outros produtos que contenham ketchup, maionese ou mostarda;


f) Bolachas e biscoitos que contenham, por cada 100 g, um teor de lípidos superior a 20 g e/ou um teor de açúcares superior a 20 g, designadamente, bolachas tipo belgas, biscoitos de manteiga, bolachas com pepitas de chocolate, bolachas de chocolate, bolachas recheadas com creme, bolachas com cobertura;


g) Refrigerantes, designadamente as bebidas com cola, com extrato de chá, refrigerantes de fruta sem gás, refrigerantes de fruta com gás, águas aromatizadas, preparados de refrigerantes, refrescos em pó ou bebidas energéticas;


h) «Guloseimas», designadamente rebuçados, caramelos, pastilhas elásticas com açúcar, chupas ou gomas;


i) «Snacks» doces ou salgados, designadamente tiras de milho, batatas fritas, aperitivos e pipocas doces ou salgadas;


j) Sobremesas doces, designadamente mousse de chocolate, leite-creme ou arroz doce;


k) Barritas de cereais e monodoses de cereais de pequeno-almoço;


l) Refeições rápidas, designadamente hambúrgueres, cachorros quentes, pizas ou lasanhas;


m) Chocolates em embalagens superiores a 50 g e chocolates com recheio;


n) Bebidas com álcool;


o) Molhos designadamente ketchup, maionese ou mostarda.


2 — Os contratos referidos no número anterior devem contemplar a disponibilização obrigatória de água potável gratuita e de garrafas de água (entende -se como água mineral natural e água de nascente) e preferencialmente os seguintes alimentos:


a) Leite simples meio-gordo/magro;


b) Iogurtes meio-gordo/magro, preferencialmente sem adição de açúcar;


c) Queijos curados ou frescos e requeijão.


d) Sumos de fruta e/ou vegetais naturais, bebidas que contenham pelo menos 50 % de fruta e/ou hortícolas e monodoses de fruta;


e) Pão, preferencialmente de mistura com farinha integral e com menos de 1 g de sal por 100 g de pão;


f) Fruta fresca, preferencialmente da época, podendo ser apresentadas como salada de fruta fresca sem adição de açúcar;


g) Saladas;


h) Sopa de hortícolas e leguminosas;


i) Frutos oleaginosos ao natural, sem adição de sal ou açúcar;


j) Tisanas e infusões de ervas sem adição de açúcar.


3 — Ao pão, referido na alínea e) do número anterior, devem ser privilegiados os seguintes recheios: queijo meio-gordo/magro, fiambre com baixo teor de gordura e sal e de preferência de aves, carnes brancas cozidas, assadas ou grelhadas, atum (de preferência conservado em água) ou outros peixes de conserva com baixo teor de sal, ovo cozido; o pão deve ser preferencialmente acompanhado com produtos hortícolas, como por exemplo alface, tomate, cenoura ralada. (...)


 


Diário da República, 2.ª série — N.º 248 — 28 de dezembro de 2017


 


A remodelação do corpo pessoal e social, à distância de (mais) uma proibição.

29 dezembro 2017

Um pouco de promoção

Para quem estiver interessado, aqui fica o excerto do programa Agora Nós, da RTP1 (a partir dos 27 minutos), onde falei um pouco com o José Pedro Vasconcelos sobre o livro Prosas Bíblicas.


 


Agora Nós de 29 Dez 2017 - RTP Play - RTP


26 dezembro 2017

Amar pelos dois


Salvador Sobral & Luísa Sobral


 


 


Se um dia alguém, perguntar por mim


Diz que vivi para te amar


Antes de ti, só existi


Cansado e sem nada para dar


 


Meu bem, ouve as minhas preces


Peço que regresses, que me voltes a querer


Eu sei, que não se ama sozinho


Talvez devagarinho, possas voltar a aprender


 


Meu bem, ouve as minhas preces


Peço que regresses, que me voltes a querer


Eu sei, que não se ama sozinho


Talvez devagarinho, possas voltar a aprender


 


Se o teu coração não quiser ceder


Não sentir paixão, não quiser sofrer


Sem fazer planos do que virá depois


O meu coração, pode amar pelos dois

Ele é que não perdeu mais uma oportunidade...

... de fazer uma tristíssima figura.


 


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Costa "perdeu oportunidade" para mostrar que "ainda é capaz" de governar


 

Voluntários e voluntariado

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Proliferam as associações e agrupamentos de pessoas de muito boa vontade, que voluntariamente dão o seu tempo, o seu esforço e as suas competências às mais diversas causas, mas especialmente a ajudar o próximo, mais precisamente aquele próximo a quem dava muito mais jeito um emprego do que o cabaz de Natal, a comida e os embrulhos de brinquedos e roupas.


 


Proliferam as empresas que pedem aos seus empregados para, voluntariamente, prescindirem dos seus dias de descanso para angariarem mais clientes, oferecendo serviços a custo zero, à custa de horas de trabalho sem remuneração.


 


Crescem as avaliações que não prescindem da explicitação do trabalho comunitário e voluntário de quem se candidata a qualquer tipo de emprego, mesmo que as acções não tenham sido mais que as estritamente necessárias para enfeitar o currículo.


 


Publicitam-se abundantemente os voluntariados e os voluntários nas televisões, nas rádios, nas redes sociais, para nos lambuzarmos de bondade, por darmos tanto de nós a tanta gente, de quem esperamos gratidão, fidelidade, consumismo, ou mesmo adoração.


 


Nada tenho contra a gentileza e o sentido de solidariedade seja de quem for, muito pelo contrário. Mas não estaremos nós a substituir empregos por trabalho não remunerado? É que para haver voluntários a dar aulas, ou a pintar escolas há professores e pintores que não têm trabalho. Além de que há muitas tarefas e apoios que são veiculados através do voluntariado e que deveriam ser obrigação do nosso Estado e da nossa sociedade.


 


Por outro lado desconfio sempre que a maior parte dos voluntários o são à força, ou então apenas desejam auto-promoção, à custa dos mais vulneráveis. A constante exploração dos sentimentos e da boa-fé, tal como a mercantilização do bem fazer, é tudo menos partilha e solidariedade. Pelo menos para mim.

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...