16 janeiro 2016

Parte incerta

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Pablo Picasso, 1915


Violin


 


Misturo três dedos sete olhos


Adubo a terra dos lamentos


Arrebanho santos e escolhos


Vomito sonhos lamacentos


 


Ai de mim que me enxovalho


E viro o mundo do avesso


Ai de mim que me atrapalho


Pelas pontes que atravesso


 


Lambo a nudez das avenidas


Escancaradas as vergonhas


Sobram carnes intumescidas


Lavrando rios de peçonhas


 


Ai de mim que me emporcalho


Na vertigem descoberta


Ai de mim que assim me espalho


E me encontro em parte incerta


 

10 janeiro 2016

Da natureza das coisas

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Pillowman Trilogy


Paula Rego


 


Tenho alguma relutância em falar de certos assuntos. Cada vez me custa mais ver determinado tipo de filmes, violentos e deprimentes, com o que considero ser violência gratuita. Penso que necessitamos de beleza, de esperança e de acreditar que nem tudo é mau, perecível, mesquinho, cruel, inevitável.


 


Ao mesmo tempo sinto que estamos a ser invadidos por uma cultura que transforma tudo em acontecimentos amorosos, melosos e ternurentos, mascarando a verdadeira natureza das coisas, lançando véus de açúcar e nuvens de algodão que nos impedem de perceber a vida tal como ela é e nos mantêm numa espécie de bolha etérea que mais tarde ou mais cedo rebentará, deixando-nos órfãos e sem armas para a enfrentarmos.


 


No mundo que me rodeia há pessoas feias, cansadas, gordas, desmazeladas, com varizes e joanetes, que chegam ao cimo das escadas arfantes, que têm dificuldade em encontrar roupa nas lojas normais, que se olham pouco ao espelho para não se deprimirem. Homens e mulheres cujas doenças e sofrimentos não se acompanham de melopeias mas de vómitos, de diarreia, de camas desarrumadas e cheiro fétido nos quartos, de cabelos desgrenhados e casas de banho sem aquecimento nem pétalas de rosa, de uivos de cães e irritações várias com os vizinhos. Homens e mulheres que vivem, amam, odeiam e morrem todos os dias, com sol e com chuva, com uma vida feita de rotinas, obrigações e compromissos e que aprenderam a aceitar e a ultrapassar os seus defeitos, as suas deformações, o seu inevitável depauperamento com um sorriso raro, com o aconchego do silêncio partilhado, com o conforto da intimidade conhecida, com o fogo dos corpos que reacendem e apagam.


 


Não é mau nem é bom. Apenas é.

09 janeiro 2016

Nicolinas


Manuel de Oliveira

Não percam

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Sou sua admiradora desde o seu primeiro disco. Posso testemunhar a qualidade da sua música e da sua pessoa. Tive o privilégio de poder contar com ele na apresentação de um dos meus livros. Não percam esta oportunidade de o ouvir.  A ele a aos seus companheiros.

Das decisões que se impõem

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Estive a reler tudo o que já escrevi sobre as eleições presidenciais. Lembro-me que foi nas vésperas de umas eleições presidenciais, as de 2006, que iniciei este blogue, em apoio à candidatura de Manuel Alegre. Dez anos já passaram. Eu estou muito diferente e o País também.


 


Tenho-me distanciado deste processo eleitoral porque não me sinto motivada a intervir publicamente. Por motivos que se prendem com a minha vida pessoal e profissional, mas também com o desinteresse e a frustração com o processo e com os candidatos. E também porque já percebi que as minhas reflexões e as minhas opiniões são, na maior parte das vezes, ultrapassadas pela realidade.


 


Surpreendi-me e continuo a surpreender-me com as evoluções políticas desde as últimas eleições legislativas. Considero esta solução governativa inédita com enormes riscos, mas que até agora tem funcionado (bem). Mantenho as minhas reservas e preocupações, nomeadamente em relação à Educação. Não tenho nada contra os exames nem avaliações, muito pelo contrário, há estudos e relatórios internacionais e nacionais que apontam para reforços dos mesmos, e as alterações a meio de anos lectivos não me parecem boas decisões. Noutras áreas, entre as quais a da Saúde, estou expectante e os sinais têm sido (muito) encorajadores e promissores. Ou seja, António Costa e os seus ministros estão a levar a sua avante, de forma diplomática, cumprindo o que prometeram. Mantenho as reservas e as expectativas. Torço para que corra muito bem.


 


Voltando às presidenciais, por muito que tente não consigo alhear-me totalmente. A proliferação de candidatos é sintomática da sensação de irrelevância que esta função atingiu, muito resultado da presidência de Cavaco Silva, mas também do próprio esvaziamento dos poderes presidenciais. Considero um erro porque por muito escasso que sejam os poderes eles podem ser decisivos em alturas decisivas.


 


Ouvi os debates entre Maria de Belém e Sampaio da Nóvoa com Marcelo Rebelo de Sousa. Com Sampaio da Nóvoa, Marcelo Rebelo de Sousa foi agressivo, deselegante e desagradável; com Maria de Belém foi desagradável, agressivo e deselegante. O palanque do qual perorou durante décadas ao povo, criticando, gozando e dando notas a todos os protagonistas políticos, culturais, desportivos, etc., etc., porque de tudo ele falava, obliterou o facto que Daniel Oliveira realçou – nós não sabemos o que Marcelo Rebelo de Sousa pensa, apenas sabemos a classificação que deu à forma como os outros se comportaram. Neste momento Marcelo Rebelo de Sousa está a ser avaliado, gozado e criticado, estando as suas notas a descer vertiginosamente.


 


Por outro lado, ao tentar expor como handicap a ausência de passado político de Sampaio da Nóvoa esvaziou totalmente a hipótese constitucional de qualquer cidadão sem um pesado currículo político se poder candidatar a alcançar a Presidência da República. Da parte de Marcelo o profissionalismo dos agentes da política é algo que se critica em abstracto mas que se defende em concreto. Já para não falar da incrível defesa da contenção de despesas na campanha eleitoral, o que é a negação da igualdade de oportunidades a todos os cidadãos para poderem ser eleitos, o que é uma atitude antidemocrática. Além disso o descaramento é demasiado, visto que Marcelo Rebelo de Sousa teve uma campanha subsidiada pela comunicação social que durou décadas.


 


A prestação de Maria de Belém foi irrelevante, para não dizer triste. Aquela ideia de explorar as características pantomineiras de Marcelo é de uma menoridade atroz.


 


Resta Sampaio da Nóvoa. A contenção com que enfrentou o despautério de Marcelo foi de uma estoicidade assinalável. Nenhum dos candidatos é o meu candidato. Mas não me absterei de votar e penso que é mesmo muito importante que se vote. A 2ª volta é alcançável. Ter na Presidência uma pessoa como Marcelo Rebelo de Sousa, por muito inteligente, culto e brilhante que seja, é um perigo institucional porque ele é sinónimo de instabilidade. Sampaio da Nóvoa é uma incógnita, não tem carisma, é pouco mobilizador, não disse ainda nada de relevante, tem um discurso intelectualizado e redondo. Mas demitirmo-nos de escolher é ajudar a eleger quem nós não queremos de todo.


 


Sendo assim, na convicção de que é preferível alguém que me diz pouco a alguém que considero um perigo, votarei em Sampaio da Nóvoa.

31 dezembro 2015

2016

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Sabemos todos que amanhã será apenas igual a hoje, mais um dia, melhor o pior ou igual a outros tantos que se nos sucedem, somam e continuam, enquanto nós continuamos, e depois de descontinuados.


 


E mudamos a cada instante, para o mesmo ou para outro mundo.


 


Todos os dias são únicos para procurarmos a felicidade. Amanhã e hoje. Sempre.

E para complemento

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Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...