09 março 2015

Cansada


APAV


Estou cansada -  ainda agora chorei tanto
Outra noite -  o terror andou à solta
Vai e volta e promete que não volta
Vai e volta e promete que não volta

Estou cansada  - chorei tanto outra vez
Outra vez a pensar que hoje talvez
Haja paz -  que o terror só vai não volta
Que a tua mão não se fecha contra mim

Estou cansada - não há fim nesta demência
Ou ciência que preveja que me mates
E quem bate depois chora e promete
Que não mais a mão se levanta fechada

Estou cansada - acho que não quero nada
Que não seja uma noite descansada
Sem ter medo ou chorar na almofada
Sem pensar no amor como uma espada

Tão cansada de remar contra a maré
O amor não é andar a pé na noite escura
Sempre segura que a tortura me espera
Insegura tão desfeita humilhada

Tão cansada de não dar luta à matança
À dança negra que me dizes que é amor
Que não concebes a tua vida sem mim
E que isto assim é normal numa paixão

E eu cansada nem sequer digo que não
Já não consigo que uma palavra te trave
Não tenho nada que não seja só pavor
Talvez o amor me espere noutra estrada
Mas tão cansada não consigo procurá-la
Já tão sem força de tentar não ser escrava
Já sei que hoje fico suspensa outra vez
Outra vez a pensar que hoje talvez…

Do próximo Presidente da República (2)

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Pegando no assunto abordado imediatamente abaixo, considero a eleição do próximo Presidente da República um facto determinante para o país, tanto em termos nacionais como internacionais.


 


Cavaco Silva protagonizou um Presidente da República que usou o cargo para condicionar a política partidária, mesmo negando-o e proclamando o seu contrário, beneficiando a sua família política, dando largas ao seu desprezo pelo resultado das eleições legislativas, nomeadamente as de 2009, tendo um papel central no escândalo das pseudo escutas de Belém, deixando o país suspenso das suas declarações e utilizando os discursos para fazer oposição declarada ao governo anterior, enquanto a sua cumplicidade com este governo e com o total atropelo das normas constitucionais em que o mesmo esteve envolvido, para não falar da subserviência ao poder económico e aos donos disto tudo, reduzindo a sua margem de manobra como escape do sistema.


 


Associado a este conjunto de erros e de incapacidades políticas, soma-se o papel de transformação da Presidência da República num cargo bicéfalo, dando destaque, na página da Presidência, a Maria Cavaco Silva cujo papel é ser mulher do Presidente - lugar que não consta na Constituição da República Portuguesa, nada tendo a ver com o respeito que merece qualquer esposa de qualquer titular de órgão público.


 


Por isso, e perante a aparente modorra desta pré campanha para as presidenciais, em que os candidatos vão dizendo que sim ou que não, fazendo de conta que estão ou que não estão, num impasse que nunca mais acaba, o PS, caso António Guterres não queira mesmo ser candidato, não parece ter alternativas credíveis ou um candidato que possa mobilizar o país e fazer esquecer os últimos 10 anos de Presidência da República. É difícil aceitar que o leque de escolhas esteja entre António Vitorino, Maria de Belém Roseira, Sampaio da Nóvoa, Marinho e Pinto, Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite e Marcelo Rebelo de Sousa. E acho totalmente descabida a hipótese de qualquer dos anteriores Presidentes se recandidatar. 


 


Guilherme d'Oliveira Martins poderia ser um excelente candidato presidencial. É um homem culto, honrado, sério, sensato, que sempre deu provas de estar disponível para o serviço público. Tem experiência política - deputado e membro de mais de um governo - e ocupa uma posição mais ou menos central no espectro político. Não tem medo de ser impopular e sabe o valor da Língua Portuguesa, da Economia, do rigor, do combate à mediocridade e ao facilitismo, da solidariedade e da importância da tolerância e da preservação dos laços sociais e do bem comum, da igualdade e do acesso ao conhecimento.


 


Penso que seria um excelente Presidente, capaz de congregar uma vontade mobilizadora que nos fizesse ter alguma esperança numa representação de cidadania digna e merecedora de todo o respeito, interno e externo.


 


Nota: Pedro Correia já tinha falado nesta hipótese, no seu bolgue, nomês passado.

Do próximo Presidente da República (1)

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O nosso Excelentíssimo Presidente, do alto da sua eminência silenciosa, apenas oraculando de quando em vez aos cidadãos sedentos das suas pérolas de sabedoria e presciência, resolveu desenhar o perfil de quem acha digno de lhe suceder como Mais Alto Magistrado da Nação (embora sempre mais baixo do que Sua Presidência, claro).


 


Pois parece-me que todos nos deveremos pronunciar, principalmente nas urnas, sobre quem deverá ser o próximo Presidente da República. E peço que me perdoe, Excelentíssimo Sr. Presidente, mas a minha opinião é assustadoramente simples e directa - deverá ser o seu contrário total e absoluto, desde o rictus acidus e amarus, de quem se sente incomodado pela persistente atmosfera de decomposição, à sua inigualável honestidade (e moralidade) pois, como temos obrigação de reconhecer (e de nos curvarmos perante esse reconhecimento), ninguém ainda conseguiu nascer duas vezes.


 


Portanto, com a oportunidade a que já nos habituou, estamos perante um importantíssimo contributo para a clarificação deste clima malção e infecto - procurar alguém que faça o exacto contrário daquilo que Sua Excelência tão relevantemente corporizou.

02 março 2015

Para discussão política a sério

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Através do Observador, são divulgadas medidas propostas por António Costa como o primeiro capítulo do programa de governo. Pois ainda bem. E que tal começarmos a ler e a discutir estas propostas?


 


Confesso que estou com vontade de ler os próximos capítulos - venham eles.

01 março 2015

Das amnésias selectivas

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Isto é já um problema de saúde pública - será um vírus, uma bactéria? Será da atmosfera parlamentar?

Portugal dos Poetas

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Teatro Meridional

Um dia como os outros (153)

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(...) Creio que uma imensa maioria dos portugueses julgará, nesta altura, que José Sócrates está muito bem preso. E por três ordens de razões diversas: uns, porque abominam politicamente Sócrates e acreditam que foi ele sozinho que criou 170 mil milhões de dívida pública (hoje, 210 mil milhões), assim conduzindo o país à ruína; outros, porque acreditam que o “Correio da Manhã”, o “Sol” ou o “i” são uma fonte credível de informação e, portanto, já nem precisam de julgamento algum em tribunal, porque a sentença já está dada; e outros, porque, mesmo não emprenhando pelos ouvidos dos pasquins ao serviço da acusação, acreditam mesmo na culpabilidade de Sócrates e, por isso, a sua prisão preventiva parece-lhes aceitável. Porém, nenhum destes três grupos tem razão: o primeiro, porque confunde um julgamento político com um julgamento penal, assim fazendo de Sócrates um preso político; o segundo, porque prescinde de um princípio básico de qualquer sistema de justiça, que é o do contraditório e do direito à defesa do acusado: basta-lhes a tese da acusação para se darem por elucidados e satisfeitos; e o terceiro, porque ignora a diferença fundamental entre a fase de inquérito processual e a fase de julgamento. O erro destes últimos (que são os únicos sérios na sua apreciação) é esquecer que a presunção ou convicção de culpabilidade do arguido por parte do juiz de instrução, as suspeitas, os indícios ou as provas que o processo possa conter, não servem de fundamento à prisão preventiva. Se assim fosse, a fase de inquérito seria um pré-julgamento, com uma pré-sentença e uma pena anterior à condenação em julgamento: a pena de prisão preventiva. (...)


 


(...) A avaliar por aquilo que nos tem sido gentilmente divulgado, o dr. Carlos Alexandre não tem uma razão válida para manter os arguidos em prisão preventiva. E mais arrepiante tudo fica quando se torna evidente que o motorista de Sócrates só foi preso para ver se falava, e foi solto, ou porque disse o que o MP queria (verdadeiro ou falso) ou porque perceberam que não tinha nada para dizer. Ou quando a SIC, citando fontes do processo, nos conta que uma das razões para que a prisão preventiva de Carlos Silva fosse prorrogada por mais três meses foi o facto de ele não ter prestado quaisquer declarações quando chamado a segundo interrogatório por Rosário Teixeira. Se isto é verdade, quer dizer que estes presos preventivos não o foram apenas para facilitar a investigação (o que já seria grave), mas para ver se a prisão os fazia falar. Nada que cause estranheza a quem costuma acompanhar os processos-crime, onde a auto-incriminação dos suspeitos — por escutas ou por confissão — é quase o único método investigatório que a incompetência do MP cultiva (e, depois da transcrição da escuta feita a Paulo Portas no processo dos submarinos, ficámos a saber que a incompetência pode não ser apenas inocente, mas malévola e orientada). (...)


 


(...) Que a tudo isto — mais a já inqualificável violação do segredo de justiça, transformado numa espécie de actividade comercial às claras — se assista em silêncio, com a procuradora-geral a assobiar ao vento e o Presidente da República, escudado na desculpa da separação de poderes, fingindo que nada disto tem a ver com o regular funcionamento das instituições, que lhe cabe garantir, enquanto se discute, nem sequer a pena ilegal de prisão preventiva, mas a pena acessória de humilhação de um homem que foi duas vezes eleito pelos portugueses para chefiar o Governo e que agora se bate pelo direito de usar as botas por ele escolhidas e ter um cachecol do Benfica na cela, é sinal do estado de cobardia cívica a que o país chegou. As coisas estão a ficar perigosas. Eu não votarei em quem não prometa pôr fim a esta paródia do Estado de direito.


 


Miguel de Sousa Tavares


(daqui)

A mudez perante o indizível

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...